Mais um ano se passou

Abriu os olhos.

Insônia outra vez.

Outra longa madrugada estava para começar.

Levantou devagar, ainda pensando que se insistisse dormiria enfim.

“Humpft. Até parece…”, pensou

Ainda com a decisão de levantar ou não ecoando em sua mente, impulsionou o quadril e levantou da cama. A lentos passos, caminhou até a janela. A lua ainda brilhava linda no céu, intocável, leitosa, solitária.

Ela estava só.

Ficou ali por alguns minutos. Analisou cada janela, cada poste, cada fio. Viu até um gato que desfilava resoluto sobre o telhado do vizinho.

Num prédio a algumas quadra dali, uma luz acendeu.

“Luz que brilha em meio às trevas…”

Sacudiu a cabeça com o pensamento e decidiu que já era hora de fazer uma xícara de chá para tentar dormir.

A cozinha ficava a poucos passos de distância, mas parecia uma eternidade tamanho era o cansaço que sentia. No corredor, um calendário anunciava o fim de mais um ano, um pouco mais e já seria o último dia daqueles longos e agitados trezentos e sessenta e cinco dias.

Foram muitos dias, mas passaram rápido. Mais rápido do que todos os outros. Pelo menos parecia assim.

Começou a lembrar como foi o ano, quantas pessoas vieram e foram, quantos brindes, quantos autógrafos, quantos sorrisos que duraram milésimos de um curto período de tempo. Mais um ano se passou…

Mas não conseguia se recordar de nada, nenhuma lembrança boa ou forte o bastante que marcava aquele tempo. Começou a voltar nos anos, lembrou-se da juventude. Aqueles sim foram tempos cheios de boas marcas. Muitas tristes, mas outras tantas mais alegres e cheias de vida. E o mais importante, cheios de muitos amigos verdadeiros.

BOF!

Assustou-se em meio aos devaneios nostálgicos. Um vento impetuoso, repentinamente fez com que a janela que estava entreaberta batesse.

“É só o vento”

Andou em direção a janela, estava tudo certo: não trincou, quebrou, rachou, nada. No parapeito, uma caneca parecia sorrir, esperando ser usada para esquentar o chá. Olhou para ela e instantaneamente lembrou-se de quando a ganhou.

Foi ele quem te deu de presente. Uma daquelas marcas alegres da juventude.

A cena parecia acontecer nitidamente a sua frente. Estava parado em meio a um grupo de amigos, em outro final de ano, há muito tempo atrás. Um garoto veio em sua direção, agradeceu pelo tempo que passaram juntos, pelos aprendizados, cuidados, carinho, mas principalmente por ter ensinado ele a enxergar a estrela da manhã.

Anos depois, a lembrança que virou marca, marejou os olhos.

Se piscasse mais pesado, a lágrima iria escorrer.

Ainda segurando a caneca, olhou para fora. No quintal, as folhas caídas das árvores sentiam o chão frio. Estavam todas juntas, pareciam próximas, mas estavam mortas, não estavam mais ligadas a vida que circulava dentro do pé de figo.

Pensou em si mesmo, como estava assim longe da fonte de vida que viveu intensamente quando era jovem. Olhou para a caneca e leu o nome que nem sequer ouviu falar naquele ano: És a Estrela da Manhã, Jesus.

A lágrima, antes represada em meio as pálpebras, caiu enfim. Pesada, triste, solitária, sem vida. E depois dela, outras vieram, trazendo a tona toda a tristeza de reconhecer que chegara a tal ponto.

As primeiras lágrimas caíram dentro da caneca, como um renovo, uma esperança que surgia. Esperança de que aquela velha caneca ainda poderia ser cheia de vida novamente e ter um novo ano cheio da presença daquele nome.

Reflexão sobre a música 'A Lua e Eu'