Uma vida selvagem: alma
“Repita comigo classe: ‘eu sou um espírito, tenho uma alma e vivo em um corpo.”
A escola dominical me ensinou que a essência da minha existência estava em um homem-espírito sem corpo, que (infelizmente) foi anexado a um corpo por um certo período de tempo até que eu morra (algo pelo qual provavelmente não precisaria passar porque Jesus voltaria logo).
Eu não tinha muita certeza do que a alma era: meu cérebro, ou talvez uma parte fantasmagórica do meu cérebro, ou algo assim? Eu também não entendia muito bem como o meu cérebro deveria ser totalmente diferente do meu corpo, espírito e alma, mas o ponto essencial era que existia uma diferença entre eu e o meu corpo. Meu corpo era algo com que eu tinha que guerrear. Eu seria seu escravo ou seu mestre.
Essa visão fragmentada de mim mesmo vinha de uma visão fragmentada da realidade como um todo. A realidade era essencialmente dualista — existia o mundo ‘natural’ e o mundo ‘sobrenatural’. O mundo natural era um reino que você poderia acessar com os seus sentidos físicos. O mundo espiritual ou sobrenatural era um que você poderia acessar somente com seu espírito ou talvez com a sua alma.
O dualismo é, na minha opinião, o responsável por ideias como a ‘música cristã’ e os pastores de televisão que vendem óleo miraculoso para velhinhas. É como se nós pudessemos encontrar portais para o mundo sobrenatural através da fé, escapando do mundo arbitrário da carne e nos movendo em direção à pureza e justiça dos nossos espíritos (Aula básica de gnosticismo para crianças americanas do centro-oeste).
Mas em algum ponto da minha jornada, comecei a me perguntar sobre as costuras e divisões entre essas realidades.
Eu comecei a considerar o ponto de vista de pessoas que pensam algo diferente sobre a realidade. Pessoas que propuseram uma grande hipótese de que não havia razão para acreditar em nenhum outro ‘reino’ da realidade porque não havia evidência real que tal reino exista. Que tudo isso era só um grande conto de fadas e magia. Eu comecei a pensar: seria essa crença só uma muleta? Um medo da morte e da mortalidade, como uma simples evidência do ego da humanidade e do nosso desejo de ser especial? Talvez não existissem vários reinos ou realidades como a minha escolada dominical ensinou, mas uma só realidade, que era o universo.
Por um tempo, eu decidi que gostava mais dessa versão da história. Fez mais sentido pra mim. Especialmente depois de ver o que acontecia por trás da cortina do vendedor de óleo.
Porém, vivendo com essa visão da realidade por um tempo, ficou a sensação de que faltava algo. Algumas partes da realidade e das minhas experiências pareciam ser ‘mais’ do que um monte de átomos passeando por aí. Então fui dar mais uma olhada na magia da minha infância e da minha escola dominical, mas por uma perspectiva um pouco diferente dessa vez… E se, ao invés de um reino mágico e outro natural, existisse um só reino como os naturalistas diziam, mas um reino que era, na verdade, mágico?
Esse parecia um bom acordo entre o cético e crente em meu cérebro. Aqui, devo dizer que cheguei a conclusão de que existem pensamentos conflitantes em meu cérebro. Existe um completo cético e um crente, ambos ativos no meu cérebro — como colegas de quarto. Eles aprenderam a co-existir. O cético se recusa a acreditar na ideia absurda como uma alma humana imaterial. ‘Qual a evidência de que isso pode existir?’, ele pergunta. O crente sorridente da minha cabeça explica para o cético que a falta de evidências não prova que a alma não exista, naturalmente. Só significa que, de qualquer maneira, não temos nenhuma evidência de que podemos testar e provar a existência de alguma coisa que não é material. O cético balança a cabeça e revira os olhos, pelo menos o colega de quarto crente sempre paga o aluguel no prazo e mantém o lugar relativamente limpo. Juntos, eles chegaram a um acordo. Existe apenas uma realidade, mas essa realidade é sobrenatural, mágica, e cintilante com Deus.
Esse não é o mesmo ponto de vista que eu tinha quando era criança, de que eu era um espírito (aleluia) que tinha uma alma (ahhh) e que vivia num corpo (eca). Agora, não há necessidade de ver o corpo como algo menor, ou como algo separado da alma e do espírito. E certamente não há nenhuma razão pra ir tão longe quanto algumas pessoas religiosas, chamando o corpo de depravado ou pecaminoso, algo que poderia difamar a criação de Deus.
Nesse ponto eu poderia reescrever minha crença no espírito, alma e corpo mais ou menos assim:
Eu sou corpo.
Eu sou alma.
Eu sou espírito.
Como eu posso dizer que sou tudo isso ao mesmo tempo?
É nesta pergunta que esses três álbuns vão mergulhar. Olhando como essas três lentes se sobrepõem. Pra você ter uma ideia:
O espírito dá origem ao corpo que dá origem à alma. A alma é a experiência tanto do espírito quanto do corpo.
Ok, isso poderia soar como uma versão estranha e mística de você, mas espero que os álbuns esclareçam mais disso, conforme forem lançados. Por enquanto, nós estamos focados na alma (o primeiro álbum da trilogia a ser lançado).
Então, do que nós estamos realmente falando quando falamos da alma? Mesmo quando eu estava na escola dominical, quando falávamos do imaterial, penso que se tivéssemos sido honestos com nós mesmos, estávamos mais preocupados com filosofia, e talvez até poesia, do que com física ou química. O que nós realmente queríamos era reconhecer a marca da divindade nas pessoas, e não relegar seres humanos à questões banais ou ao caos. A medida que nossa língua foi destinada a isso, eu ainda afirmo. Eu acredito que a ideia e a linguagem de que “um humano é uma alma” falam de algo mais verdadeiro do que simplesmente dizer que “um ser humano não é nada mais do que uma porção de matéria física”.
Existem experiências na vida humana que não podem ser descritas com números e ciência. Pense no sexo, por exemplo. Sexo pode ser experimentado como uma profunda e transcendente conexão com outra pessoa, e entender as operações mecânicas e reações químicas envolvidas no sexo não é o mesmo que entender e experimentar completamente o mistério potencial e espiritualidade da sexualidade humana. Ou pense na música, por exemplo. Não é porque alguém sabe a frequência em que um dó vibra que essa pessoa é um músico habilidoso ou alguém que realmente entende ou experimenta a música profundamente. Entender a matemática ou física da música não é a mesma coisa que conhecer subjetivamente a música através de uma experiência ‘imersiva’.
Na minha opinião, as explicações ‘materiais’ para vida não são suficientes para explicar ou explorar os aspectos da realidade como amor e transcendência, que parecem ser maiores do que linguagem literal é capaz de abarcar. A poesia faz um trabalho melhor do que ciência nesse departamento.
É por isso que penso que palavras como ‘alma’, ‘sobrenatural’, ou ‘mágica’ são realmente as melhores que os humanos têm quando falamos da enormidade da experiência subjetiva humana. Que experiência pode ser completamente explicada acerca da realidade por alguém? Ninguém sabe a plenitude de como algo funciona ou o que o faz de certo jeito. Aquilo apenas é. E esse mistério sobre o que é realidade, meu amigo, é uma boa definição de milagre ou mágica para mim. Isso significa que eu concordaria com meu professor, que humanos de fato têm uma alma? Bom, o que eu realmente diria nesse ponto é que não é que humanos tenham almas, eles são almas.
O cético pode perguntar porque eu continuo usando esse tipo de linguagem. No fim, não é essa linguagem que faz com que a maioria das pessoas veja a realidade separada que eu falei antes? Talvez. Mas eu penso que nós usamos a linguagem da alma porque essa é a melhor que temos para alguns tipos de experiências e para alguns caminhos de pensamento sobre vida santa de um homem.
Me parece mais apropriado e verdadeiro descrever o pedaço da realidade que deixa de existir quando alguém morre dizendo que a alma dele ou dela partiu do que dizer que o corpo dele ou dela parou de funcionar. Há uma energia e uma realidade essenciais para uma pessoa que a ondas cerebrais e pulsações não são capazes de gerar. Quando morre alguém que você ama, a perda é maior do que a mudança nos números nos aparelhos hospitalares. Ao falar da essência de uma pessoa, existe algo mais honrável e talvez mais apurado em descrever sua alma do que em considerar meramente sua parte física.
E o que é essa alma exatamente? É você! É toda essa bagunça! É a cooperação das incontáveis células e sistemas no seu corpo para te manter vivendo, respirando, e se movendo. São as histórias que você vivenciou e é ser parte da experiência de outros. É um relacionamento. Incontáveis conexões de energia e sinapses e contradições. Alma é a sua personalidade e paixão e particularidades e sentidos. É a sua consciência. É a sua personificação de Criatividade específica em trabalho no universo.
Um ser humano é mais do que um pedaço de carne. É uma alma sagrada. Uma divindade. Um anjo andando sobre a terra. O linguajar mágico ou mitológico não são irreais. Ás vezes são mais verdadeiros do que a verdade.
Gungor.
Tradução do post original “One wild life: Soul” feito por Gungor no site www.gungormusic.com