FUI ASSALTADO OU AÇOITADO !

Há algum tempo atrás um sujeito que na falta de clara competência para argumentar e também esclarecer determinados questionamentos usou como recurso frágil a declaração de que não iria responder e nem dar atenção para quem tinha ‘memória curta’.

É interessante este rótulo que é muito comum em nosso meio. Alguns de nós, somos alvo deste ‘diagnóstico’ por vezes. Seja por não se lembrar de algum fato, ou por esquecer constantemente coisas, ou mesmo por não se recordar de alguns nomes ou eventos que fizeram parte de nossas vivências.

Ao refletir com um pouco mais cuidado sobre esta questão acabei por me estender para outros focos onde a tal ‘memória curta’ parece ser retratada, embora não levada em consideração com a necessária atenção.

Discursos, ora discursos!

Um campo privilegiado que pode nos mostrar a clara evidencia da ‘memória curta’ e que podemos também definir como perdas significativas de recursos dos mais diversos é quando se trata de discursos, palestras, oratórias, sermões, comícios e similares. Para uma séria reflexão note-se os resultados apontados em pesquisas.

Publicado pela Revista NOVA ESCOLA, um estudo realizado pelo NTL Institute for Applied Behavioral Science, especializado em comportamento humano revela que as pessoas aprendem melhor através de exercícios práticos, atividades lúdicas e dinâmicas de grupo. Palestras tradicionais não atingem mais que 5 % de eficácia.

O uso de métodos audiovisuais chega a ser quatro vezes mais eficiente do que as palestras. Discussões em grupo são dez vezes mais eficientes.

Os índices referem-se à quantidade de informações retidas em relação ao conteúdo abordado.

“Aprendemos mais quando somos levados a refletir e a estabelecer relações”, diz o Professor e Doutor Sérgio Leite, do Departamento de Psicologia Educacional da Unicamp.

O próprio Dr. Sergio Leite como psicólogo afirma ao tratar da Afetividade relacionada á eficácia e produtividade educacional:: “O professor inesquecível tanto pode ser aquele sujeito ‘incrível’, admirado pelos alunos, quanto o ‘chato’, cujas aulas ninguém entende”.

Mas temos muitos especialistas em ‘achismos’ que ainda investem tempo, recursos materiais, financeiros e até institucionais nas tradicionais palestras ou discursos. A própria palavra “discurso’ não faz o percurso, somente diz o curso a seguir.

Adélia Prado, escritora e especialista em Educação nos ensina que: “Tudo que a memória amou já ficou eterno.” Então é preciso algo mais que palavras ou lindos discursos para mudanças comportamentais. E para mudanças comportamentais é preciso tocar a memória com a afetividade, pois relatos racionais não marcam estigmas positivos no campo mental.

“Nada é tão admirável em política quanto uma memória curta.”

John Galbraith

Outro momento que parece fornecer algum esclarecimento sobre a tal ‘memória curta’ e eventuais mudanças comportamentais está nos convencionais churrascos pré-eleitorais.

Tais cenários são simples de descrição e de forte impressão afetiva. Senão vejamos. Pessoas são convidadas para degustarem um churrasco no qual o candidato X9 (apelido fictício) estará presente. Todos chegam ao local dispostos a curtirem espetinhos e outros apetitosos comestíveis. Alguma bebida é compartilhada e sob ponto de vista material é resumidamente isto. Mas, tem alguns mas.

Mas temos entrelaçando os espetinhos de carne suína ou bovina os sorrisos. É, nos churrascos é declarado de forma não explicita que todos irão sorrir, serem simpáticos, cordatos; enfim sob um clima encantador. Todos, em geral, expressão uma reciprocidade quanto a elogios, cumprimentos calorosos, abraços, apertos de mãos além do trivial, piadas, causos de destaque e mais elogios. E a carne vai sendo assada sob um som de músicas alegres, pois tocar ópera num churrasco não tem cabimento.

Notemos que todo este cenário tem a ver com uma única proposta: obter um voto na próxima eleição. Simplesmente um voto de cada um e se possível, cada participante se tornar um multiplicador da figura do candidato, para assim um voto se multiplicar por dez, vinte ou cem.

Então, pode-se até ter um breve discurso, mas o candidato certamente irá ser breve e irá mais agradecer a presença de todos que estão consumindo as carnes e bebidas que ele pagou, sem que se faça muito alarde sobre programas partidários ou propostas pontuais da campanha.

É comer, beber e depois votar! E este sistema dá resultado. Estes cenários são profícuos tanto assim que hoje em dia, em cidades pequenas e de médio porte tais propostas são mais freqüentes que os antigos discursos, cansativos e cheios de falas que não iriam ser colocadas em prática, geralmente.

Como a memória do eleitor é curta, os políticos sabem muito bem desta constatação; então usam o poder da degustação para tocar o coração, pois usar da razão para apresentar propostas eleitorais é se candidatar ao fracasso. Em algumas cidades até a ‘gorjeta’ entregue a domicílio, a pedido do candidato, no dia antes das eleições ainda é prática que prevalece para tocar a memória curta do eleitor.

O nobre escritor José Saramago nos propõe refletir ao afirmar que: “fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.”

Você foi naquela palestra?

Há algum tempo atrás propositalmente explorei a oportunidade de conferir a questão da ‘memória curta’ em relação a um grupo de cinco adolescentes, do ensino médio, de uma escola publica. Todos estiveram presentes a uma palestra, da qual também participei, então estava habilitado para conferir o impacto do evento para os ouvintes, uns quinze dias após a realização do mesmo.

Ao perguntar do que notaram na referida palestra disseram algo sobre o ambiente estar organizado, sobre o palestrante ‘falar bem’, sobre a lotação do espaço e até sobre a falta de papel higiênico no WC.

Ao questionar sobre o conteúdo apresentado, que destaque poderiam fazer, aí começamos a ter alguns problemas de memória e/ou de atenção também, claro. Não foram pontuais e nem mesmo objetivos quanto aos pontos essenciais apresentados pelo palestrante que ‘trabalhou’ alguns itens como:

1. A necessidade de mudanças de percepção diante da realidade que vivemos;

2 A tendência da juventude seguir uma maioria, (podendo ser até bandos ou gangues), como processo natural do ser humano, que merece cuidados;

3. A necessidade do ser humano ser confrontado com desafios para evoluir sob ponto de vista psicológico e social, pois a apatia nos leva a atrofias diversas.

Claro que não iria esperar que o vocabulário dos jovens fosse ao nível do palestrante, mas que no mínimo alguns itens fossem lembrados para serem aplicados na vida cotidiana. Porém nada disso consegui registrar.

“Qual é a capital do Brasil?”

Para contrastar ou conferir o nível de conhecimento dos alunos em questão, que estavam no segundo ano do ensino médio, fiz uma pergunta inusitada em outro momento:

Dos cinco estudiosos em celulares tive três respostas: dois citaram Brasília, um disse ser Bahia e outros dois Rio de Janeiro. Claro que ocorreu uma série de comentários de gozação entre os próprios adolescentes abordados diante de tamanha aberração, que se tratava somente de uma informação e não de compreensão de uma palestra ou texto.

Era somente uma palavra: Brasília. Se tiver dúvida sobre tal fato, experimente perguntar em seu meio para alguns adolescentes de escolas públicas e certamente irá rir das respostas.

Assim temos então outros cenários que poderiam e deveriam ser devastados para exploração e entendimento dos porquês das memórias curtas, ou da ignorância, ou da falta de leitura, ou do analfabetismo funcional como epidemia não declarada ainda oficialmente.

Este relato nos mostra que os alunos portadores de ‘memória curta’ na realidade são vítimas de um processo educacional que não cabe mais em nossos tempos. Me lembro da escola na qual tinha que ‘decorar’ as tabuadas.

Me lembro também das declinações em Latim que não tinha outro jeito a não ser através do decorar, pois são equivalentes as tabelas como as dos elementos de química. Mas discursos em salas de aulas não cabem mais.

Mudanças, como mudar?

Se quisermos mudar Comportamentos, temos que mudar Sentimentos. Se quisermos mudar Sentimentos temos que mudar Pensamentos. Se quisermos mudar todo este cenário de caos que vivenciamos, não é através da imposição legal, embora a aplicação de leis seja um processo necessário.

Mas se quisermos enfrentar fatos como drogadição, corrupção, baixa qualidade de ensino, omissão do eleitor, baixos índices de leitores, além de tantos outros problemas públicos, entendo que temos que mudar os paradigmas que são aplicados nas escolas, nas reuniões políticas, nos encontros sociais, nas rotinas de igrejas, nas ações de instituições especializadas, etc…etc…etc..

Só como provocação mais uma citação! Como pode ser coerente num ambiente universitário o uso e abuso de drogas, estupro, trotes selvagens e até centros acadêmicos municiados por gangues? Justamente nos cenários universitários, por exemplo, como explicar o uso do dinheiro público sendo mal aplicado, é aceitável tal quadro???

Assim explico como me senti ‘assaltado’ quanto a minha atenção que foi ‘roubada’ pela mediocridade e ignorância dos tais jovens, e que também fui ‘açoitado’ indevidamente quando um politiqueiro afirmou que eu tinha ‘memória curta’.

Na realidade entendo que ao fazer tal afirmação o tal político estava na simplesmente projetando a sua habilidade em ‘esquecer’ que foi candidato de oposição, na qual propunha fazer uma ‘nova política’, que após a derrota se associa ao vencedor rendendo-lhe glórias e tapetes vermelho; pois ele bem sabe que o povo tem ‘memória curta’ mesmo, principalmente diante de um churrasco e um riso de hiena.

Como as palavras ditas são efêmeras e as escritas também são condenadas ao esquecimento. Então que ao menos uma mensagem fique para reflexão:

“Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.” Érico Veríssimo

Tito, psicólogo organizacional CRP 06–1631–3 email fhoo@uol.com.br

Autor do Projeto “UMA MENSAGEM PRA VOCÊ”, inédito em todo mundo, registro ao Ministério da Cultura (2013) e Direitos Autorais Reservados. Registro de mais de 2 MILHÕES E 200 MIL MENSAGENS, distribuídas gratuitamente numa calçada de Amparo-SP desde 23/dez/2010, sem vínculos comerciais, institucionais, partidários e/ou religiosos. Diversas reportagens e documentários comprovam este histórico, além de como premiações como: Troféu da Paz-Divaldo Franco & Ypê, Mãe Símbolo 2011, Documentário Fundação São Pedro, destaque Rádio Bandeirantes-SP “Você é Curioso”.

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