JOGADA NO LEITO DO ASFALTO

É no mínimo irracional como o ser humano trata a sua realidade! Qualificá-lo como nojento ou ignorante é ainda um adjetivo que não representa toda a sua totalidade.

Tal colocação é conseqüência natural que me tomou conta ao ver aquela fragilidade suja e machucada jogada ali naquele leito de asfalto. Poderia ser sido encantadora ou cativada com todo carinho e respeito que merece; mas nada disso, somente lançada como uma indigente nojenta e suja.

Ali, deitada naquele asfalto duro e preto me trouxe à mente figuras que não são estampadas em fotos coloridas das obras magníficas de um político demagogo, oportunista e muito comum na cultura gerencial de nossas cidades. Ela, ali deitada, calada, machucada e suja mal se dava conta do frio e preto asfalto sendo em muitos casos obras para agradar doutores distantes.

Se em outro momento poderia estar sobre as pedras antigas, agora jazia quase amortecida na preta camada de asfalto que mais parecia ter sido obra de negociata de oculto assalto. Este preto asfalto que mais lembra a morte da terra que já não irá mais receber a água das chuvas, mas sim devolver como um sarcástico troco o aumento considerável de calor durante o verão.

Mas ali, naquele início de noite, ela num frio danado deitada como quem já jazia, mesmo contra a vontade. Muitos passaram por ela sem ao menos dar uma olhada, pois o olhar para ela era como o ato de se comprometer, então ‘fazer de conta’ que prestava a atenção no trânsito ou nas sacolas do supermercado era um subterfúgio.

Aquela cena trouxe outra a mais nesta memória falha, curta ou sem lógica. Me fez lembrar de uma canção com Nelson Gonçalves que falava de uma prostituta, a Deusa do Asfalto. Em determinado momento da canção ele encanta:

“E coloquei o meu sonho, Num pedestal bem alto

Não devia e por isso me condeno, Sendo do morro e moreno: Amar a deusa do asfalto.”

Mas aquela ali deixada no asfalto já não era mais uma musa ou deusa fonte ou objeto de prazer. Muito menos de um amor passageiro. Não tinha mais nada que pudesse alimentar sonhos ou encantos. Simplesmente jogada no preto asfalto como que num velório que ninguém nem mesmo queria olhar.

E ela ali deitada, silenciosamente frágil e covardemente rejeitada. Não me contive e fui acolhê-la. Com extremo cuidado para não tocar em suas feridas e com profundo respeito a carreguei para a calçada, tirando-a daquele maldito asfalto, que para mim sempre, rima com assalto. Ao vê-la com mais cuidado notei sua velhice declarada. Veio também um sentimento de ter sido objeto de desprezo por ignorância ou violência.

Olhando-a mais atentamente como que num passe mágico ou esquizóide, sei lá, minha mente foi para um passado meio distante. Minha atenção foi para cenários de uma sala de aula onde uma professora era amante descarada de vários homens. Não se tratava mais de uma deusa do asfalto, mas sim de uma amante sem escrúpulos e que não fazia qualquer segredo de suas paixões.

Todos estes homens com seus nomes estranhos ela, sem qualquer receio de julgamentos indevidos, nos contava de emoções e paixões. Era um tal de Shakespeare, o outro ela chamava de Lord Byron, que nem mesmo sei até hoje se era Lorde de verdade. Tinha um tal de John Milton, entre tantos outros que a nossa professora Maria Antonieta Degani Natariani mantinha-se como amante descarada daqueles dignos poetas e escritores ingleses.

O que ela tem a ver com a deusa do asfalto? Acho que é o encantamento! Ou seria o acolhimento com carinho que aquela desprezível do asfalto não tinha ou não teve, sendo assim rejeitada e abandonada ‘á própria sorte’ ou ao próprio azar do desprezo.

Volto para a realidade em segundos diante da cena de maus tratos, sujeira e um cheiro fétido que impregnado naquela deusa do asfalto. Optando por não dar atenção ao cheiro, limpando algumas sujeiras e machucados, ela me parecia dizer algo profundo, embora o tempo todo ficasse em silêncio.

Me pareceu falar da violência que está impregnada em olhares de desprezo, nos passos de rejeição, nas oratórias demagógicas de muitos governantes, nas falas de muitos ‘doutos’ que não entendem das dores do abandono e daqueles que tem medo de exigir seus direitos. Num instante parecia ouvir que falava da arrogância sobrepujando a decência; da violência das palavras calando e matando sentimentos e sonhos; da hipocrisia se valendo do poder para o bem não fazer.

Lá estava eu declinando minha limitada atenção aquela deusa do asfalto, quase desnudada de dignidade, mas ainda assim querendo passar um recado.

Mesmo tendo sido rejeitada, jogada, desprezada, ignorada ou considerada sem valor algum lá estava ela estampando uma fala profundamente forte e real.

Dizia ela a frase do poeta inglês John Milton:

“Acima de todas as liberdades, dê-me a de saber, de me expressar, de debater com autonomia, de acordo com minha consciência.”

Ela, a deusa do asfalto que acolhi, era uma simples mensagem num filete de papel que alguém não teve a devida capacidade de ler e refletir, por ser um analfabeto funcional.

Ela, uma profunda oração que alguém nem soube seus significados e nem mesmo teve o cuidado de compartilhar com outros, com paixão, como fez a professora de inglês há mais de 40 anos atrás, sendo que até hoje seu vírus ainda enfeitiça.

Pena que alguém tenha jogado a sua liberdade de ler, entender, interpretar e colocar em prática algo mais que simplesmente jogar no asfalto uma mensagem de John Milton. Espero que ele não se sinta desprezado por tal reação desumana, pois terá que entender que sua missão, enquanto pensador, ainda contamina pessoas dignas de seus escritos, poemas e lições.

Quer testemunhos disto? Proponho consultar o Dr. Coriolano Burgos que anda perambulando aí em suas estradas não asfaltadas. Até dizem, e repito sempre, que até mesmo a estátua do Dr. Coriolano, em nossa escola, se declinava para cumprimentar na entrada a referida professora, tamanha era a sua dedicação e paixão.

Mas esta é outra história.

Porém, voltando á deusa do asfalto quando comentei a uma amiga, sobre a mensagem e a atitude de jogá-la no asfalto, ela me disse para não perder tempo com besteiras, pois o mundo é assim mesmo. E completou referindo-se que uma simples frase não iria mudar o mundo.

Encerrei aquele papo com um “Éh!”, pois naquele momento, diante daquela fala, tomei a liberdade de entender que ela seria mais uma candidata a jogar no asfalto outras tantas mensagens de John Milton, Sócrates, Vinicius de Moraes, Ariano Suassuna, Elis Regina, Lennon, Padre Cícero, Amyr Klink ou mesmo de Joãozinho Trinta, afinal ela mais parecia estar mais afinada com o jeito de quem adora as mensagens musicais de Anita.

Quem é Anita? Eu não sei….somente ouvi falar numa chamada de TV. Deve ser uma nova filósofa existencial brasileira que está vendendo shows,CDs, e DVDs. Deve ser uma nova deusa descartável da mídia.

Mas como disse Milton, já que é o que mais importa neste texto, acho bom repetir:

“Acima de todas as liberdades, dê-me a de saber, de me expressar, de debater com autonomia, de acordo com minha consciência.”

Tito, psicólogo CRP 06–1631–3 email fhoo@uol.com.br

Autor do Projeto “UMA MENSAGEM PRA VOCÊ”, inédito em todo mundo, registro ao Ministério da Cultura (2013) e Direitos Autorais Reservados. Registro de mais de 2 MILHÕES E 200 MIL MENSAGENS, distribuídas gratuitamente numa calçada de Amparo-SP-Brasil, desde 23/dez/2010, sem vínculos comerciais, institucionais, partidários e/ou religiosos. Diversas reportagens e documentários comprovam este histórico, além de como premiações como: Troféu da Paz-Divaldo Franco & Ypê, Mãe Símbolo 2011, Documentário Fundação São Pedro, destaque Rádio Bandeirantes-SP “Você é Curioso”.

Like what you read? Give Tito Psicólogo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.