Conclusão

Por que a pesquisa sobre fatores de risco e resiliência para lésbicas importa? Para onde vamos a partir daqui?

Apesar do progresso em relação aos direitos LGBT no Brasil, o heterossexismo ainda tem forte influência na cultura brasileira. Mulheres lésbicas, assim como outros membros da comunidade LGBT, ainda enfrentam atitudes e comportamentos preconceituosos em vários níveis, os quais podem ameaçar sua saúde mental e bem-estar. Enquanto o país tem progredido no combate à discriminação, que se traduz em comportamentos, é muito mais difícil reduzir níveis de preconceito que estão enraizados na mentalidade de cidadãos brasileiros.

O heterossexismo incorporado na cultura brasileira e encorajado pelo cristianismo invade o microssistema de mulheres lésbicas, prejudicando suas relações familiares e refletindo-se em sanções informais em espaços públicos e privados no exossistema.

Por outro lado, as comunidades religiosas afro-brasileiras, a Internet e as leis progressistas tornam as lésbicas mais informadas e mais capazes de aceitar sua orientação sexual e de reivindicar seus direitos. Apoiadas socioemocionalmente por esses fatores e por amigos menos preconceituosos, mulheres lésbicas têm sido capazes de apresentar um tipo de resistência determinante ao moldar relações e espaços ao seu redor, de modo que estes se tornem mais acolhedores a pessoas homossexuais.

Algumas necessidades específicas foram relatadas de maneira mais significativa entre as entrevistadas, mas não foram supridas da mesma forma por ela — indivíduos suprem necessidades parecidas com recursos distintos. Inicialmente, quando elas estavam se questionando ou descobrindo sua orientação sexual, era mais importante que pudessem ter acesso a informações, especialmente a ideias que dissipassem estereótipos negativos em relação a lésbicas e gays. Elas acessaram essas informações de maneiras diferentes e, neste ponto, a Internet foi uma fonte fundamental. Outras fontes de apoio foram amigos homossexuais, amigas lésbicas ou um algum outro modelo a ser seguido. Com o tempo, algumas procuraram mais informações junto a grupos de ativistas.

Um outro exemplo de fator de resiliência importante foram as conexões sociais em geral, as quais também foram estabelecidas em relação a grupos de pessoas diferentes pelas participantes. Enquanto Juliane continuou próxima de sua família, Neide e Vilma aproximaram-se de suas famílias afetivas, e Jersica apoiou-se em seus melhores amigos. Camila e Angélica também se apoiaram em amigos, mas progrediram especialmente porque uma dava suporte à outra.

A espiritualidade foi muito importante para quatro das seis mulheres e cada um delas encontrou uma comunidade religiosa diferente para atender a essa necessidade. Apenas duas entrevistadas que participaram de casas de Candomblé disseram que sua comunidade religiosa afirmava suas identidades como mulheres lésbicas e negras e, por isso, mantiveram-se nessas congregações, demonstrando que a afirmação de suas identidades é um fator importante para o desenvolvimento religioso.

As participantes também falaram sobre locais e grupos que denomino “espaços seguros” com ênfase para ilustrar o impacto positivo de espaços em que lésbicas se sentem confortáveis e genuínas, sem medo de qualquer forma de violência homofóbica. Enquanto o lar se mostrou um espaço seguro para Juliane e algumas mulheres que viviam sozinhas, outras buscaram conforto fora de casa, às vezes em locais destinados ou que aceitassem o público LGBT, bem como em espaços públicos e eventos em outros contextos.

O último fator importante, que se manifestou de forma mais abstrata, foi a percepção dessas mulheres em relação a seus direitos como cidadãs. Essa percepção foi construída por essas mulheres intimamente e reafirmada externamente em leis progressistas, ainda que estas não sejam totalmente observadas pela sociedade brasileira.

Dessa forma, certos fatores de resiliência, da maneira em que foram identificados em minha discussão, não podem ser apontados como os mais importantes para as entrevistadas. Em vez disso, outras necessidades se mostraram mais importantes e cada mulher atuou em seus contextos singulares para que encontrassem elementos que pudessem atender a essas necessidades. Caso todos os salvadorenhos, desde os que criam e aplicam sanções formais discriminatórias aos que sancionam lésbicas em seus micro e exossistemas, analisassem e combatessem o preconceito heterossexista e apoiassem todos os membros da sociedade, riscos à saúde mental de mulheres lésbicas e à saúde pública seriam reduzidos em Salvador.

Consequências.

Já que cada ator dentro do ambiente de uma mulher lésbica jovem potencialmente contribui para os níveis de risco ou resiliência que a cercam, os resultados desta pesquisa são relevantes para um público muito amplo. Esta pesquisa traz informações sobre decisões tomadas em diversos níveis, contribuindo, assim, para maiores níveis de apoio nos âmbitos jurídico, social, religioso e espacial, os quais tem o potencial de melhorar a saúde pública em Salvador e em todo o Brasil. Em seguida, serão apresentadas, de forma sucinta, as maneiras pelas quais minhas descobertas podem impactar os papeis que indivíduos, nos âmbitos governamental, social, religioso ou espacial, desempenham na vida de cidadãs lésbicas brasileiras.

A legislação brasileira não apenas tornou o Brasil um dos países mais progressistas do mundo em termos de direitos LGBT, como também têm impactado visivelmente as formas pelas quais mulheres como Neide, Vilma e Jersica se comportam, entendem sua cidadania e interpretam a discriminação. É de grande importância, portanto, que legisladores continuem adotando medidas que reconheçam e protejam os direitos de mulheres lésbicas como cidadãs. O ativismo restrito a uma instituição governamental não é suficiente no entanto, especialmente pelo fato de que as leis ainda não atingiram os comportamentos de brasileiros a níveis desejáveis. Os poderes executivo e judiciário também têm que, por sua vez, observar e cumprir leis antidiscriminatórias.

Além disso, grupos ativistas são um investimento que vale a pena para o governo, pois eles comunicam ao mesmo tempo as necessidades da comunidade para o governo, por meio do ativismo, e as ações do governo para suas comunidades, por meio de campanhas educacionais. Eles promovem o desenvolvimento de uma identidade positiva em seus membros e ensinam-nos como melhor defenderem a si mesmos e aos outros, para que o preconceito (que a legislação ainda não consegui erradicar) não tenha um efeito negativo em sua saúde mental e seu bem-estar. Minhas conclusões sobre o impacto das leis evidenciam a noção de que todos os três poderes devem continuar a refirmar o respeito pelos direitos de lésbicas através da adoção e do cumprimento de leis e da colaboração contínua com organizações ativistas.

Tal como um número relevante de pesquisas tem demonstrado, o apoio social é um importante fator de resiliência para as mulheres lésbicas, algo que também tem sido defendido pela teoria relacional-cultural. Minhas entrevistadas relataram a dificuldade em obter o apoio de seus pais e superar a rejeição inicial. Estudos descobriram que a exposição a pessoas homossexuais e a disseminação de informações sobre homossexualidade podem corrigir os estereótipos e equívocos que levam os pais a rejeitarem suas filhas (Hom, 1994; Savin-Williams & Dubé, 1998). Membros da família afetiva também podem influenciar significativamente os pais de mulheres lésbicas e encorajá-los a aceitá-las (Savin-Williams & Dubé, 1998). Minha pesquisa mostra, portanto, que famílias precisam de exposição a informações sobre não-conformidade sexual para que possam ter relacionamentos mais apoiadores com parentes não heterossexuais.

Os EUA têm várias organizações que educam e apoiam pais de pessoas LGBT. O maior deles é o PFLAG, um grupo de apoio para pais, famílias e amigos de pessoas LGBTQ que usa a educação e o ativismo para promover famílias, escolas e comunidades que acolhem pessoas LGBTQ (https://community.pflag.org/). Infelizmente, não encontrei quaisquer organizações semelhantes em Salvador. Há uma falta evidente de organizações com missões semelhantes às da norte-americana PFLAG. E posso especular o porquê disso: há uma tendência em famílias brasileiras de preferirem o sigilo e a calma à honestidade e ao conflito, bem como há uma natureza hierárquica nas estruturas familiares, onde não se espera que pais se adequem a seus filhos. A cultura brasileira não considera, portanto, que pais precisem de apoio para que possam enfrentar a verdade e o conflito, ou que mudem a si próprios para que melhor apoiem suas filhas. Em outras palavras, as famílias não são entendidas como locais de conflito e mudança da forma como são nos Estados Unidos; pessoas LGBT e ativistas, portanto, não concentram suas energias na criação de organizações como a PFLAG.

As relações de lésbicas brasileiras com a religião são exemplos da natureza paradoxal das contribuições ambientais brasileiras ao risco e à resiliência de mulheres lésbicas. Como Reich et al. observaram, a religião tem o potencial de ser uma fonte integral de resiliência para as lésbicas, mas também pode agravar os efeitos negativos do stress causado pelo heterossexismo (2012). Os valores cristãos e as crenças que permeiam a sociedade brasileira, assim como os próprios grupos evangélicos e católicos, podem danificar seriamente os relacionamentos de lésbicas e, dessa forma, a saúde mental delas.

É importante, portanto, que líderes cristãos congregacionais e políticos, bem como indivíduos religiosos, reexaminem as consequências do preconceito e considerem as formas pelas quais a fé pode melhorar o bem-estar de qualquer pessoa que deseje se beneficiar de seus recursos, ao invés de usar a religião como uma forma de violência homofóbica. Grupos religiosos afro-brasileiros como o Candomblé e a Umbanda são exemplos de congregações religiosas capazes de apoiar não apenas pessoas homossexuais, mas também as relações entre essas e suas famílias. Para as mulheres lésbicas que praticaram Candomblé e Umbanda, essas casas foram consideradas como lugares em que pudessem se sentir protegidas de sanções contra suas identidades sexuais.

Ambientes que são intencionalmente protetores e locais onde lésbicas se sentem confortáveis em estar “fora do armário” são fatores de resiliência significativos, já que indicam uma melhoria à saúde mental de mulheres lésbicas (Lewis, 2009; Hatzenbuehler et al, 2014;. Eiven et al., 2007). Como espaços que aceitam qualquer tipo de violência contra mulheres lésbicas pioram sua saúde mental, todos aqueles que possuem ou gerenciam espaços físicos, incluindo escolas, universidades e espaços públicos ou privados, devem assumir a responsabilidade de tornam esses espaços locais em que pessoas atraídas pelo mesmo sexo não enfrentem discriminação. Isto pode ser feito através da adoção de políticas pró-ativas, por parte do governo ou de proprietários de empresas, os quais têm autoridade e o poder de responsabilizar indivíduos por suas ações.

Todos os fatores de resiliência ou risco para mulheres lésbicas são integrantes de um problema geral de saúde pública, já que a discriminação está ligada à saúde mental de indivíduos (Lewis, 2009). É importante entender os fatores ambientais de risco e resiliência para que possamos responsabilizar indivíduos, empresários, governos e autoridades responsáveis pela saúde pública pelos fatores que impactam a saúde de membros da sociedade (Lewis, 2009). Ao compreender as formas pelas quais fatores culturais, jurídicos, sociais, religiosos e espaciais afetam a saúde mental de mulheres lésbicas e ao reconhecer que taxas desproporcionalmente altas de problemas de saúde mental entre mulheres lésbicas representam um problema de saúde pública, podemos transmitir a ideia de que mudar estes ambientes e identificar os atores que são capazes de fazê-lo é relevante.

Referências Bibliográficas:

Hom, A. Y. (1994). Stories from the home front: Perspectives of Asian American parents with lesbian daughters and gay sons. Amerasia Journal, 20, 19–32.

Lewis, N. M. (2009). Mental Health in Sexual Minorities: Recent Indicators, Trends,and their Relationships to Place in North America and Europe. Elsevier. 1029–1045.

PFLAG. Parents, Families, Friends, and Allies United with LGBTQ People to Move Equality Forward! Retrieved at https://community.pflag.org/

Reich, J. W., Zautra, A., & Hall, J. S. (2012). Handbook of Adult Resilience. New York, NY:The Guilford Press.

Savin-Williams, R. C. & Dubé, E. M. (1998). Parental Reactions to Their Child’s Disclosure of a Gay/Lesbian Identity. Family Relations 47(1), 7–13

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