O Empoderamento da Religião Afro-Brasileira para Lésbicas

Esta pesquisa revelou as três principais áreas de apoio macrossistêmico. Neste artigo, vou me concentrar no primeiro. A religião afro-brasileira, que afirma não apenas suas identidades sexuais como também suas identidades étnicas, ao passo que valores e costumes cristãos, que afetam lésbicas de diversas maneiras, são fatores de risco existentes no meio em que vivem.

Comunidades religiosas afro-brasileiras.

Grupos religiosos afro-brasileiros, numerosos no Brasil, são conhecidos por serem favoráveis aos LGBT, contrastando fortemente com os grandes grupos religiosos cristãos brasileiros. Para explicar melhor os termos escolhidos neste trabalho, quando me referir à religião “afro-brasileira”, estarei falando principalmente de Candomblé e Umbanda, uma vez que estes foram os dois grupos afro-brasileiros com que as participantes estiveram em contato e também sobre os quais falaram de forma muito semelhante. Juliane, Camila e Vilma estiveram todas muito envolvidas com a religião afro-brasileira e todas relataram que se assumiram e se sentiram apoiadas como mulheres lésbicas nesse lugares. Dos 19 aos 25 de idade, antes que conflitos pessoais internos a fizessem sair de lá, Juliane era um membro de uma comunidade Umbanda. Ela descreveu a Umbanda como uma religião que combina práticas indígenas, africanas e espiritualistas europeias. Camila e Vilma tiveram muito orgulho em me dizer que elas eram do Candomblé. Camila descreveu sua casa Candomblé como “um ambiente de maravilhosa aceitação e respeito incrível”. Vilma disse: “Eu falo abertamente lá… A casa Candomblé é a que mais te envolve”.

Vilma acreditava que a maioria das pessoas LGBT falariam que são de uma religião “de raízes africanas ou Candomblé.” Embora eu não tenha verificado estatísticas que comprovassem esse fato, parece haver uma compreensão geral, pelas entrevistada e pesquisadores, de que as congregações afro-brasileiras são compostas por pessoas LGBT em grandes proporções (Mott, 2006a; Allen, 2012). É comum que líderes religiosos do Candomblé sejam homens homossexuais, e isso foi o que acontece tanto para Camila quanto para Vilma. Mott ressaltou que, por que as casas de Umbanda tem um elevado número de pessoas gays e lésbicas, elas têm celebrado casamentos do mesmo sexo (2006a).

Comunidades religiosas afro-brasileiras foram fontes importantes de apoio social e de afirmação de identidade para as mulheres entrevistadas. Tal como outras religiões com raízes na África pré-colonial, Candomblé e Umbanda vêm de culturas com papéis sociais de gênero mais flexíveis do que os encontrados em culturas europeias (Greene, 1996). Mitologias religiosas afro-brasileiras incluem histórias de amor do mesmo sexo entre homens e de não conformidade de gênero (Allen, 2012). Por exemplo, durante certos rituais afro-brasileiros de iniciação, o orixá, ou divindade espiritual, toma conta do indivíduo, que assume o papel da “noiva”, independentemente dos gêneros ou das identificações de gênero do iniciado e do orixá envolvidos (Allen, 2012) . Apesar de sua contribuição para a aceitação geral da flexibilidade em relação aos papeis sociais de gênero, Allen defende que estes rituais são falocêntricos e focados em uma dinâmica ativo-passiva, excluindo assim o tipo de dinâmica mais típica para mulheres lésbicas (2012). Apesar de reconhecer a flexibilidade no papeis sociais de gênero, Allen defende que estes rituais são falocêntricos, parte de uma dinâmica ativo-passiva, diferente da dinâmica mais comum entre mulheres lésbicas (2012). Para elas, a afirmação é encontrada na aceitação geral das sexualidades não-dominantes, nas expressões de gênero e nos números absolutos de mulheres que têm relações com outras mulheres nessas casas (Allen, 2012).

O apoio social de membros gays e mulheres lésbicas, especialmente de líderes, foi muito importante para Juliane, Vilma e Camila. O líder religioso de Camila, o “Pai de Santo”, dava conselhos a ela regularmente e apoiou a identidade sexual de Camila, dizendo que se ela continuasse vivendo de forma ética e amando a si prórpia, ela seria feliz como uma mulher lésbica em Salvador.

As casas de candomblé não apenas afirmam a não conformidade de gênero, como também são atores centrais na afirmação das identidades étnicas e raciais africanas (Selka, 2005). Muitas mulheres negras não homossexuais nas Américas relatam que sentem que a maioria dos ambientes rejeitam algum aspecto de sua identidade e, por isso, sofrem por nunca se sentirem como partes desses grupos completamente (Greene, 1996). O Candomblé e a Umbanda, no entanto, criaram uma relação positiva com as identidades espirituais, sexuais e étnicas dessas mulheres.

Existem várias instituições que apoiam relações positivas de mulheres lésbicas com elas mesmas. Raras, no entanto, são as organizações brasileiras que facilitam aprendizagem e tolerância familiar em relação a orientações sexuais lésbicas. O líder Candomblé de Camila fez exatamente isso: encontrou-se com a mãe de Camila e pediu aceitação e conexão, mudando, dessa forma, a natureza do relacionamento entre elas para melhor. Este é o único caso que estudei sobre um terceiro ajudando uma família a unir-se após conflitos por causa da orientação sexual da filha.

Meus resultados foram elaborados com base na pesquisa de Allen sobre lésbicas em casas de Candomblé em Salvador e confirmaram as descobertas dele de que, em certa medida, as identidades lésbicas são afirmadas nesses locais. Entretanto, o argumento principal de Allen, de que embora a identidade de gênero de mulheres lésbicas fosse confirmada, sua identidade como homossexual não era; esse argumento contrasta fortemente com a narrativa vibrante de minhas entrevistadas. As participantes de Allen afirmaram terem sido “discretas” sobre sua orientação sexual na casa Candomblé, o que o autor atribuiu à internalização de normas culturais brasileiras sexistas que incentivaram-nas a serem submissas. Allen argumenta que a mera presença de muitas mulheres homossexuais nas casas de Candomblé não é forte o suficiente para enfraquecer as normas brasileiras sexistas. Allen conclui, dessa forma, que a discussão da homossexualidade em relação à diáspora africana é centrada no sexo masculino. Minhas participantes viam homens gays como líderes, mas a homossexualidade feminina também era parte da conversa em suas casas de Candomblé, ao contrário do que acontecia com as participantes de Allen. Não se sabe por que Vilma, Juliane e Camila tiveram experiências diferentes dos sujeitos das pesquisas aprofundadas e recentes de Allen sobre lésbicas no Candomblé. É possível que minhas entrevistadas não fossem membras das mesmas casas Quêto do Candomblé, e talvez o ramo de Candomblé que Allen investigou fosse particularmente centrado no sexo masculino. Com certeza, as casas que Vilma e Camila frequentavam eram mais engajadas na afirmação da identidade de mulheres homossexuais afro-brasileiras.

Para Juliane, Camila e Vilma, a Umbanda e o Candomblé têm sido fundamentais para seu amadurecimento positivo de várias maneiras. Comunidades espirituais afro-brasileiras são instituições sociais em que participantes sentem-se protegidos de sanções informais. Por serem comunidades, elas conectam mulheres lésbicas a modelos, mentores e colegas não-heterossexuais, e até mesmo a mediadores em relação a familiares menos tolerantes. Nesses locais, elas desenvolveram um sentimento de pertencimento e de apoio emocional e a garantia de que a identidade sexual não as afastaria de Deus ou do “divino”. Dessa forma, a teoria relacional-cultural e o modelo contextual de desenvolvimento postulariam que a relação construída com a instituição social religiosa afro-brasileira, assim como as pessoas que fazem parte dela, são um importante fator ambiental de resiliência para lésbicas afro-brasileiras.

No meu próximo artigo, vou discutir o segundo e terceiro fator macrosistemico para a resiliência que a minha pesquisa revelou. A Internet permitiu acesso a conexões sociais e informações. Por último, mas não menos importante, o conhecimento da legislação que as protege, o que encorajou-as a demonstrar resistência autônoma em diversos espaços.

Referências Bibliográficas

Allen, A. S. (2012). “Brides” without Husbands: Lesbians in the Afro‐Brazilian Religion Candomblé. Transforming Anthropology, 20(1), 17–31.

Greene, B. (1996). Lesbian Women of Color. Journal of Lesbian Studies, 1(1), pp. 109-147.

Mott, L. (2006a). Etno-história da homossexualidade na América Latina.

Comunicação apresentada no “Seminário-Taller de História de lãs Mentalidades y los Imaginarios” realizado na Colômbia.

Reed, S. J & Valenti, M. T. (2012). It Ain’t All as Bad as it May Seem: Black Lesbians’ Responses to Sexual Prejudice, Journal of Homosexuality 59(5), pp. 703–720.

Selka, S. L. (2005). Ethnoreligious Identity Politics in Bahia, Brazil. Latin American Perspectives, 32(1), 72–94

Selvidge, M. M. D., Matthews, C. R., & Bridges, K., (2008). The Relationship of Minority

Stress and Flexible Coping to Psychological Well Being in Lesbian and Bisexual Women, Journal of Homosexuality, 55(3), 450–470

Shaw, K. (2001). Impact of Activism Around Laws for LGBT Perspective: Local

Sexual Orientation Non-Discrimination Laws: A Means Of Community Empowerment. Cornell University