Dos “colégios” ou Como manipular a opinião pública com uma só palavra

Ninguém se converte por razões lógicas…” Roger Martin du Gard

Não pretendo com isto converter ninguém, nem este artigo serve para discutir os argumentos de um lado e de outro da questão das Escolas com Contrato de Associação (CA). Também não serve para tentar diminuir a validade de qualquer um dos lados da discussão como um todo

Serve sim, para desmontar um argumento em particular que tem sido abundantemente usado, e que só serve para transformar a discussão numa coisa que ela não é (luta dos oprimidos contra os interesses privados e contra a busca cega pelo lucro) e, repetidas vezes, para mostrar a ignorância de quem o usa em relação a este assunto.

O argumento é, simplificadamente: “Andam os contribuintes a pagar para os pais (ricos) terem os seus filhos no colégio”.

Qual o problema aqui? O uso da palavra “colégio”.

Em Portugal, a palavra “colégio” está associada a colégios privados, onde os pais podem colocar os seus filhos a troco de uma propina. Naturalmente, sendo que nestes colégios os pais é que suportam o valor completo das despesas necessárias à educação do seu filho, essa propina é elevada e daí ser associada a pessoas com um poder económico acima da média. Aqui, faz sentido ver as pessoas que têm filhos no colégio como sendo “ricas”, mesmo tendo em conta que há casos e casos. Na sua maioria, quem tem um filho a frequentar um colégio privado tem um poder económico superior à maior parte da população.

As Escolas com Contrato de Associação não são colégios privados!

Estas Escolas existem em locais onde havia pouca ou nenhuma oferta de escola estatal e daí o Estado ter celebrado contratos com estas de forma a que estas fizessem o lugar da escola pública. Isto faz com que estes colégios cobrem exactamente a mesma propina que qualquer escola do Estado, ou seja, zero. A única diferença é que a gestão da escola é feita por uma entidade externa ao Estado, da mesma forma que as IPSS’s por exemplo.

Não é difícil daí perceber que QUALQUER pessoa pode frequentar estas Escolas, independentemente da sua capacidade económica. Por isso, se eu tenho duas escolas pelas quais posso escolher, pago zero nas duas, e escolho a escola com CA (seja pelo que for) e depois dizem que sou um “paizinho rico” porque o meu filho está naquela escola, não fico contente.

Acredito que a utilização da palavra “colégio” para se referir a estas escolas é uma forma de manipulação da opinião pública, e tem sido usada como forma de gerar nas mentes das pessoas a associação entre as escolas com CA e os colégios privados que conhecem ou ouviram falar e assim voltar as suas opiniões contra aquelas.

Resumindo:

  • As Escolas com CA não são Colégios Privados
  • As Escolas com CA são gratuitas para todos
  • As Escolas com CA são frequentadas por pessoas de todos os estratos económicos, como qualquer escola estatal.

Por isso, da próxima vez que falar sobre este assunto, não fale dos “pais ricos” ou “meninos ricos” pois isso, não há outra forma de dizer, é pateta (no melhor dos casos). É ofensivo até para um pai ou mãe que pode viver com o RSI e que mora ao lado da escola com CA, onde os seus filhos andam porque assim não têm de pagar a deslocação para escola do estado que fica a 10km de distância. Ou simplesmente porque acharam melhor e, de qualquer forma, pagam zero na mesma.

Claro que, a partir daqui, poderão dizer outras coisas como “se querem escolher, que paguem” ou “há duplicação de custos”, etc, e aí já serão argumentos que vale a pena discutir (talvez noutro artigo, que este não é para isso). Mas se alguma vez voltarem a usar o argumento dos “pais ricos” volto a mandar este texto.