A redução da subjetividade

di Argentine.

“A alta subjetividade atual dá lugar a um justificacionismo cômodo ao mesmo tempo que dramático em sua banalidade.” Adolfo Beria di Argentine


Existe um “eu”, um tentativa de separação total do homem atual do mundo que o circunda. Esse “eu” que tudo sente em demasia, seja o êxtase ou a depressão, não consegue sair desses dois opostos limites, não conseguem ter paciência, e justamente por isso não conseguem suportar as tensões intermediárias da vida.

É extremamente interessante o quanto isso é resultado de uma elevação da subjetividade, do gozo/sofrimento, às últimas consequências. Sendo tudo uma manifestação da subjetividade, nada mais importa e tudo mais é descartável desde que não se enquadre como minha satisfação.

Essa é uma condição notada pelo magistrado italiano Adolfo Beria di Argentine. Em um excelente texto ele expõe a sua reflexão, tendo como título “A síndrome da subjetividade”. A leitura é incrível e tem como característica:

A- pararmos de achar que o mundo gira ao redor do nosso próprio umbigo.

B- compreender que tudo que vai ser feito demanda paciência, dor e, por fim, um objetivo alcançado.

C- é óbvio, mas precisa ser repetido com frequência: a geração atual é extremamente fraca, incapaz de suportar a dura realidade, voltando tudo para o campo subjetivo/sentimentalista. Erro adquirido pela criação imprópria feita pelos pais que não conseguiram plasmar as complexidades da vida nos seus filhos.

Compartilho aqui o breve, mas potente, texto do sr di Argentine. Espero que tenha uma ótima leitura.


A Síndrome da Subjetividade

(Homenagem ao pensador e jurista italiano, falecido em 26–7–2000, e à época desta conferência -SC febbraio1986-, presidente do Juizado de menores de Milão. Edição e tradução: Jean Lauand)

Adolfo Beria di Argentine

Ao procurar compreender as razões profundas pelas quais a sociedade atual tem tanta aversão ao sofrimento, parece-me válido afirmar que tais razões se encontram na perda da virtude da paciência: a capacidade de suportar as tensões intermediárias da vida.

Como foi justamente afirmado, se não me engano por Levinas, a sociedade moderna aprisionou-se numa opção sem saídas: bem-estar pleno ou a morte. Ou, em outras palavras, já não somos suficientemente fortes para suportar as tensões intermediárias.

De fato, impressiona-me cada vez mais a incapacidade de tantos, principalmente dos jovens (mas não só deles…), para aceitar tensões intermediárias:

- Um casamento não pode ter problemas: ou é maravilhoso, ou se desfaz;

- Um trabalho não pode ter suas dificuldades: ou é gratificante, ou muda-se de emprego;

- Um amizade não pode ter momentos difíceis: ou é total, ou torna-se indiferença ou ódio;

- O empenho social não pode ser a paciente construção de uma sociedade melhor: ou é rapidamente triunfante, ou é confinada na utopia, refugiando-se no âmbito da própria vida privada;

- A formação não pode ser a gradual transformação da própria cultura: se não há resultados imediatos, o melhor é interromper os projetos;

- Uma iniciativa empresarial não pode ser lenta em seu estabelecimento: ou abre caminho prontamente, ou é abandonada;

- Uma reforma — do tipo que for — não pode dar frutos a longo prazo: ou é mirabolante, ou imediatamente deve ser sufocada por uma reforma da reforma.

Poderíamos continuar exemplificando indefinidamente, mas penso que está claro o sentido do que quero dizer: não estamos mais habituados ao esforço, ao sofrimento das tensões intermediárias, e isto porque: ou perseguimos uma plenitude inatingível ou mergulhamos na depressão e na ruína. Não se pode aplicar a nós a bela sentença de Primo Mazzolari: “Tudo é esperança porque tudo é esforço”. No entanto, devemos recordar sempre aquele versículo: “E dão fruto na paciência”.

Mas, como todos sabem, paciência vem de patior, um verbo que indica sofrimento. Se queremos dar fruto, devemos aceitar um pouco de tribulação, de paciência e de sofrimento.

Teci essas considerações porque considero oportuno falar do sentido do sofrimento. Não em termos de sua aceitação sentimental, piegas ou vitimista, mas em termos positivos, de contínua revisão de nossos posicionamentos, atitudes e critérios quotidianos. Somente quando formos capazes de suportar as tensões intermediárias em nossas vidas (no trabalho, no casamento, nas amizades) aprenderemos o sentido da paciência, do “dar fruto” nos pequenos e grandes sofrimentos.

Uma tal afirmação poderia, para muitos, parecer voluntarista — e, em parte sê-lo-ia — se não chegássemos a dar um passo a mais em termos de compreensão da realidade.

E o passo adiante que proponho é no sentido de uma redução da subjetividade, que, já há algum tempo, impera na sociedade atual.

Não aceitar as dificuldades de um casamento, de um trabalho, de uma amizade, de uma empresa, significa não compreender que tudo na vida é um processo objetivo e não apenas uma experiência subjetiva.

O esforço (ou, se se preferir, a paciência como sofrimento) está ao serviço do objeto que se constrói — um negócio ou um casamento — através de um lento processo de criação, administração, controle dos problemas e dos impulsos individuais dos que estão envolvidos na realidade de que se trate.

Se ao invés de nos centrarmos no objeto, estivermos totalmente voltados para o modo como subjetiva e emotivamente sentimos a experiência do eu naquele objeto, então a medida do valor e do comportamento recai na esfera subjetiva e facilmente escorrega para o dilema do “tudo ou nada”. Se o sofrimento for considerado somente como experiência de algo duro e exigente, então não deve causar espanto a recusa ou a fuga; se, pelo contrário, é um fator indispensável para a construção daquilo que devemos e queremos fazer, então deixa de ser subjetivamente incompreensível e (portanto) insuportável.

Vivemos numa sociedade de alta subjetividade que, cada vez mais, submete os fenômenos e os comportamentos à lógica subjetiva: a vida, o casamento, a autoridade, a morte assumem relevo subjetivo, tornam-se fenômenos nos quais a experiência subjetiva passa a ser decisiva, sem que se chegue a compreender a diferença que realmente existe entre fenômeno e direito subjetivo. Isto é, nem sempre a carga de subjetividade que permeia um fenômeno ou um comportamento individual pode traduzir-se num direito do indivíduo a julgar e decidir por si só com relação ao fenômeno e ao próprio comportamento.

Como juiz de menores — em contato quotidiano com jovens dos mais variados tipos e com múltiplos problemas — sempre me espanto ao ouvir grosseiros chavões como: “A vida é minha e ninguém tem nada com isso”, “O corpo é meu, e faço dele o que bem entendo”, “O que importa é que eu `estou na minha’”, mesmo quando esses grosseiros chavões servem para explicar comportamentos e exigências de jovens drogados, querendo abortar, agredir, etc.

A alta subjetividade atual dá lugar a um justificacionismo cômodo ao mesmo tempo que dramático em sua banalidade.

Nós, adultos, temos a responsabilidade de haver lançado nossos filhos na mentalidade da subjetividade. Mas não lhes demos condições de compreender o peso e os limites dessa subjetividade.

Nos dias de hoje, tudo anda permeado de subjetividade:

- O trabalho, já que todas as novidades do setor (do desenvolvimento do multi-emprego ao do trabalho independente, do part-time e das iniciativas empresariais e profissionais) ligam-se a um forte aumento da carga de responsabilidade do sujeito singular no trabalho;

- O lazer, já que boa parte do tempo livre (das férias exóticas ao desenvolvimento dos mais variados hobbies) apresenta notórias características de subjetividade;

- A cultura, já que toda forma de atividade cultural é vista e avaliada não em termos de uma estética abstrata, mas só enquanto propicia emoções e experiências subjetivas;

- A religião, já que, também nela, busca-se sempre mais a experiência religiosa (ou a religiosidade) do que a verdade da religião, com a conseqüente multiplicação de canais mais ou menos vinculados à experiência religiosa (das místicas e seitas esotéricas às vulgaríssimas auto-absolvições sem confissão sacramental);

- A própria justiça, já que a interpretação subjetiva da norma e de seu significado tornou-se já quase um hábito (e nem sempre só por parte de quem tende a transgredir a norma, mas também, por vezes, de quem tem a obrigação de fazê-la respeitar).

Poderia continuar a listar setores em que se dá uma forte carga de subjetividade, mas penso que o breve elenco acima já é suficiente para manifestar como estamos imersos em dimensões muito subjetivas de nossos problemas, de nossos comportamentos, de nossos próprios valores culturais.

É este dúplice apelo — ao valor do objeto, com relação à crescente subjetividade e ao valor das tensões intermediárias, superando a polaridade dramática do tudo ou nada — o único testemunho de reflexão que pode advir de um magistrado de hoje, isto é, de um profissional que, por definição, deve se ater ao objeto e à objetividade (embora considerando as implicações subjetivas de toda causa que deve julgar); de um homem da magistratura, que paga com esforço, com paciência e com sofrimento a defesa e a construção da justiça.

[Retirado do site: http://www.hottopos.com/mp2/argentine.htm]