Borges, o teólogo

É indiscutível o quanto os livros, objetos maravilhosos que levam uns ao delírio e outros à sabedoria, criam situações e divagações memoráveis. Gustavo Corção assinalou sobre esses itens mágicos, que ou podem ser lidos dez vezes pela primeira vez ou nada valem, e por fim declara “eu tenho um antigo e enraizado amor por livros”. Somos tantos, como o sr. Corção, que guardam tal reverência.
O bibliotecário babilônico, Jorge Luis Borges, demostrou tamanho amor a partir de uma belíssima sentença que pode nos levar muito além da poesia que ela se remete. O argentino (talvez seja ele a única razão pela qual possa, de fato, Deus ter pensado aquela terra — junto com o tango) nos brindou com o seguinte verso:
Sempre imaginei o Paraíso como um tipo de biblioteca (BORGES, Poema dos dons, 1955)
A constatação magistral de Borges, o homem que faz valer a existência de um país inteiro, é memorável. A beleza de uma biblioteca é algo imponente. São, realmente, para ser exibidas, ostentadas, visitadas, admiradas e usadas. As inúmeras estantes são, ao mesmo tempo, um convite ao saber e a prova de nossa ignorância.
Tanta coisa ainda teríamos que ler e uma vida não seria suficiente para realizarmos um centésimo dessa empreitada. Precisaríamos viver centenas de anos ou levar esse tesouro humano que são os livros para o Paraíso. Chegaríamos assim, dispostos da eternidade, ao contato com tudo que há na história humana, saberíamos os motivos das poesias, as motivações das artes, as orações às várias divindades criadas e ao triunfo de Deus. E sob essa condição de estar em sua presença, nada mais estaria oculto.
De fato, nada está oculto da face de Deus. Ele, que sempre esteve conosco, em nosso interior e na presença de Sua toda criação. E revela na sua presença a nós mesmos, nus e sem possibilidade de esconderijos, também nos revelará, por participação em sua Glória, o Bem e o Mal.
O Sumo Bem, que se contempla na Glória Eterna, nos oferece a possibilidade de conhecimento pleno daquilo que os bons procuraram em vida: a Verdade, a Beleza, o Bem, a Caridade, o que é pleno no próprio Deus, e será conhecido dentro da capacidade humana.
Se voltarmos ao trecho do poema de Borges, tomando a biblioteca em seu conteúdo, chegamos em um dos atributos do que provavelmente constará no Paraíso: conhecer o Bem, a Verdade. O interessante é que uma boa biblioteca poderá oferecer isso na Terra, em parte e de acordo com a capacidade humana. De posse de muitos livros, lendo-os bem, aprendendo e praticando seus ensinamentos, vamos tomando posse da Verdade, do Bem e da Beleza. Muitos homens trouxeram o contato com essas realidades metafísicas para nós. De épocas remotas até a atualidade. Essa verdade e esse bem são coisas que teremos plenamente no Paraíso. A biblioteca de Borges pode ser vista, mesmo que ele não tenha pensado nessa analogia teológica, como um dos aspectos da contemplação do Sumo bem.
Outra condição a qual somos levados pelo mesmo texto de Borges é a perda da luz e o distanciamento dos livros. Em um triste trecho lemos:
Da cidade de livros tornou donos
estes olhos sem luz, que só concedem
em ler entre as bibliotecas dos sonhos
insensatos parágrafos que cedem […] (idem)
A cegueira, que já o afligia, mostrou a tristeza de estar próximo e ser impossível de tomar posse de todos aqueles livros que o poema mencionam. A luz que falta aos olhos, a cegueira, pode nos afastar justamente do Paraíso. Triste constatação essa, mas também muito útil para a nossa simples e poética analogia.
Até porque, esse encontro com tanto conhecimento só poderá ser realizado, de fato, no Paraíso. Nossa capacidade em vida é limitada, nossos caminhos são seletivos e deixam coisas para trás. É necessário ter anseio pela Eternidade, pela possibilidade da “leitura” de tudo que um autêntico amante dos livros busca: conhecimento, verdade, bondade. Lembremo-nos de Gibran Khalil: “anseio pela eternidade porque lá encontrarei meus poemas não escritos e meus quadros não pintados” (Areia e Espuma, 1926). Os bibliófilos diriam que lá, na Eternidade, está a biblioteca celeste com os livros ainda não lidos.
Os livros revelam, portanto, nossas possibilidades de percepção do bem e do mal, aspectos desse bem e mal. A vida humana em sua possibilidade capta essas realidades vitais sempre presente e as apresenta de alguma maneira, seja em poemas, em contos, em romances, em descrições historiográficas, ou tratados de epistemologia e teologia. Cabe ao leitor procurar, cabe ao leitor viver o que encontra. É assim, plausível vermos que no Paraíso, junto ao Bom Deus, estaremos diante do conhecimento perfeito, a “grande biblioteca” onde todo o conhecimento está disponível, da “única biblioteca”, e, então, saberemos das questões humanas muito bem.
Será nessa hora que entenderemos também outra poesia que nos diz:
Que importa nossa covardia se há na terra
Um só homem valente,
Que importa a tristeza se houve no tempo
Alguém que disse feliz,
Que importa minha perdida geração,
Esse vago espelho,
Se teus livros a justificam. (BORGES, Invocação a Joyce, 1969)
A esperança é poder entrar na grande biblioteca ao fim da estadia nessa Terra…
