Eu, escrevedor

“Não importava o quê; eu era um escrevedor.”
“O escrevedor só se torna um escritor quando a sua necessidade de escrever for sustentada por um tema que permita e exija que essa necessidade se organize num projeto. Somos milhões a passar a vida escrevendo, sem nunca terminar nem publicar nada.”

Após a leitura desse trecho de Carta a D., de André Gorz, eu entendi bem o que estava a fazer. Era simples: era também um escrevedor. Escrevo qualquer coisa, no caderno, nas margens dos livros, nas notas do celular. Sempre, quando há tempo ou mesmo no mísero espaço de poucos minutos que o trabalho permite, ao surgir uma ideia, tomo nota. Escrevo.

Em conjunto com o ato de escrever e da função de escrevedor - que acaba por acumular uma quantidade de palavras que, fazem ou não sentido - há o ato de leitor. Esse faz muito mais sentido, é muito mais íntimo e menos arriscado. Ao escrever o que está dentro sai. Nem sempre ordenado como queremos, mas sempre com a vontade de expressão. Mas ao ler encontramos complementos, novidades, pesos e forças que poderão atuar positivamente ou negativamente em nós. O desafio é uma cruzada solitária: do ser humano contra a obra de outro ser humano.

Penso como Borges que escreveu: "Que outros se gabem das páginas que escreveram; eu me orgulho das que li". Mas há momentos que temos que escrever, porque não há mais espaço, porque alguém precisa.

O exercício conjunto das duas atividades criam um bom espaço para que, no fim, a ação de escrevedor seja menos ruim, se aprimore, que faça mais sentido. É o conjunto ler e escrever que molda o escrevedor. E assim damos uma melhor expressão e maior ordenação possível às ideias/rascunhos que fazemos pender para fora de nós.