Gran Torino, ou uma lição sobre o conservadorismo

Clint Eastwood como Walter “Walt” Kowalski e seus vizinhos.

Deixar sua nação, sua terra e seu povo não é fácil. Ir para os Estados Unidos ou para a Europa pode ser uma boa alternativa econômica. Viver sob acusações de ser a culpa das desgraças que acontecem lá será normal. Conviver com as pessoas dessa nova terra pode ser um inferno. Ou então, pode mudar realmente algumas vidas.

Clint Eastwood faz algumas ponderações sobre a forma como é a vida de imigrantes nos bairros étnicos periféricos nos EUA com o filme Gran Torino (2008). Ele, Walter “Walt” Kowalski, viva uma aposentadoria típica na sua terra. Recém viúvo e ainda tendo que digerir essa situação, ele vê imigrantes asiáticos, hmongs, se mudarem para a casa ao lado. O choque que isso gerou foi grande. Remexeu com seu passado, pois ele é um veterano da guerra da Coréia, e ver gente de lá na vizinhança foi muito complexo. A própria presença de imigrantes pesa. “Por que eles não ficam em suas terras?”, uma questão comum para muitos norte-americanos que olham para os estrangeiros que procuram as “terras da liberdade e do ‘sonho americano’” para fugir de algum problema em sua terra natal (sejam problemas financeiros ou políticos).

Velho carrancudo e ranzinza, vê os problemas que estão acontecendo com o jovem Thao, seu vizinho. Ele é intimado para entrar na gangue do primo, para se “juntar aos irmãos” e para isso deve passar pela iniciação. Sua prova é roubar o Gran Torino do Clint. O carro que ele diz sempre com orgulho de ter trabalhado na montagem, em seus anos como um exemplar funcionário da indústria automobilística nacional, fato que orgulha o velho. Depois de expulsar a tiros o moleque de sua garagem, ele ainda separa uma briga entre ele e os caras da gangue. Nessa situação começará um envolvimento dele com os hmongs.

Esse envolvimento irá apresenta-lo à irmã do moleque e, consequentemente, ela o apresentará para toda sua família. Ele conhece os seus costumes e a família descobre que o rapaz tentou roubar o velho. Para não envergonhar a família o jovem deve trabalhar para o Clint. Nesse momento todo o tradicionalismo do velho acaba por apontar um caminho para o jovem. Ter o que fazer, trabalhar e estar ocupado lhe dá uma perspectiva de vida afastado da gangue e dos vários problemas que ela poderia trazer. Ser conservador dá resultados.

Junto a esse conservadorismo temos o lado oposto: eles acham que tudo de ruim dos Estados Unidos é culpa dos imigrantes. Ao invés de pensar que eles são mão de obra que mantém o país funcionando, ocupando cargos que os próprios americanos acham muito “humilhantes”, eles são, para muitos, o motivo das desgraças nacionais. Isso está vinculado ao chamado fundamentalismo cultural, termo da antropologia que aponta para essas reações de exclusão e preconceito com elementos estrangeiros em determinadas culturas, principalmente nos EUA e na Europa. Quem acata esse fundamentalismo acaba por eliminar as possibilidades de contribuição que o contato entre as culturas promove. Sem mencionar que pode gerar comportamentos xenófobos e racistas.

Outro detalhe interessante a ser pensado é que tanto os EUA quanto a Europa precisaram de imigrantes em determinados períodos. Entre esses tempos de necessidade de o de despensa dessas pessoas, muitas famílias vindas de vários locais do planeta firmaram residência e passaram a ser vistas como “americanas”. Mas devemos abrir o espaço para pensar que esses imigrantes que possuem hoje toda a estrutura histórica em suas narrativas pessoais vinculadas aos EUA um dia passaram por todo o preconceito e desconfiança que se faz presente hoje. No filme a presença dessa situação vinda de outro tempo é visível na relação de Clint com o seu barbeiro. Clint trata-o como “italiano” e o barbeiro o trata como “polaco”. Duas ascendências europeias que ainda se pegam no cotidiano da vida na América.

A grande diferença que pode ser apontada para as relações de imigração atuais está na forma como o imigrante se insere na nova terra. Antes eles tinham que se adequar ao novo país da melhor maneira possível. Costumavam a manter traços específicos culturais, como religião, alimentação, mas no relacionamento com aqueles que já viviam na terra buscavam se encaixar na forma do lugar o máximo possível. Darlymple chega a comentar que a primeira leva de imigrantes paquistaneses do sec. XX na Inglaterra logo se adaptaram a isso, mas a coisa mudou com as novas gerações. É só observar a opção pelo multiculturalismo, onde os países europeus tendem a anular sua cultura, justificando-se por serem “ocidentais-eurocêntricos-colonizadores-e-tem-que-se-abrir-para-os-pobres-imigrantes-fazerem-o-que-quiserem-em-sua-casa”. O Ocidente, visando ser um bom anfitrião, hoje se abre aos vários imigrantes e está sendo, literalmente, violentado por não saber se impor com cultura que também merece ser respeitada preservada. Devemos ter sempre em mente que há intercâmbios entre as várias culturas, que não existe essa perspectiva romântica sobre uma cultura isolada que nada recebeu de outros povos (caso queiram alguma referência sobre isso e não venham falar alguma babaquice sobre o texto, leiam o Progresso e Religião do Christopher Dawson, ou algum livro do Mircea Eliade). Mas em todas as situações que alguma cultura sobreviveu, ou conseguiu oferecer, mesmo após sua dominação por outros povos, algum de duradouro para outros povos, isso foi conseguido por saber manter o básico de sua organização cultural inicial. Souberam receber, aproveitaram e mantiveram o básico de sua condição como povo resguardada.

Ou seja, o que o pode ser interessante de perceber no filme é isso: a formação de um povo que, absorvendo em determinadas épocas, vários povos diferentes manteve uma estrutura que deu a si uma identidade, sendo que ao passar esse elemento constitutivo seu a diante, colaborou para a melhoria daqueles que chegavam. Negar isso é ter que aceitar que todos os imigrantes apenas sobreviveriam de subempregos clandestinos e ilegais, ou então em alguma gangue étnica. O que é estupidez, principalmente em países do Novo Mundo.

Sobre a construção do filme temos mais um trabalho de direção e atuação de peso feito por Eastwood. Sua carranca que, desde os seus westers, coloca medo em todo mudo não mudou. Ele é do tipo que faz um grupo de moleques tremer fazendo uma imitação de revolver com o dedo. Na montagem das cenas escolhe bem os planos para que estes colaborem muito com a história a ser contada. O seu deslize foi com alguns atores secundários que talvez pela falta de experiência não deram conta do recado em certos momentos.

Gran Torino é isso. Um filme que mostra um pensamento conservador agindo, e funcionando, e também consegue mostrar que coisas podem mudar e que em certos momentos de sua vida seu maior pesadelo surge na casa ao lado para te trazer alguma redenção. E quando temos Eastwood em cena, o que vai acontecer com quem lhe incomoda é algo semelhante ao diálogo dele com o padre no filme:

“- O que você vai fazer Walt?— Eu não sei, mas pensarei em algo. Seja o que for eles não terão chance.”