Sobre a verdade de Cristo

Pilatos e Jesus, cena de “A Paixão de Cristo” (2004, Mel Gibson)

Verdade. Uma palavra e inúmeros questionamento. Ante aqueles que querem afirmar que ela não existe, os que querem torna-la decisão democrática e aqueles que buscam um realismo sobre sua condição, há as mais variadas explicações sobre o tema. Mas o interessante é: todas as perspectivas, por mais céticas e relativistas que sejam, partirão de alguma verdade absoluta.

Alguns bons questionamentos sobre o tema foram tratados no texto “Do Verdadeiro e da Verdade” disponível no Contra os Acadêmicos. Filosoficamente falando, o texto expressa o que é verdadeiro e o que é verdade. O primeiro é “ a qualidade daquilo que é dado como dentro de uma esfera que chamaremos, a princípio, de ‘verdade’”; o segundo é “como definida normalmente é tido como uma espécie de relação; uma proposição, juízo, uma asserção sobre algo, é verdadeira, possui qualidade de verdade, quando exprime corretamente o que se quer dizer sobre algo” […] “A grosso modo, é isso o que se diz quando lemos, por exemplo em Sto. Tomás de Aquino: A verdade é a adequação do intelecto à coisa”. E a partir dessas exposições iniciais o texto discorre sobre os elementos lógicos que determinam as relações sobre a verdade e o verdadeiro.

Por mais complexo que possa parecer, há uma exposição que, mesmo àqueles que se colocam como céticos e relativistas, faz-se inteligível e ordenada. A resposta está dada e clara. Na filosofia acontece isso e a linguagem precisa dos conceitos tendem a ser mais acessíveis, exigindo apenas certo esforço analítico das proposições dispostas.

Por aqui já vemos que devemos procurar entender a verdade nas relações que nos são expostas, ou procurar entender as definições que são descritas. O que dificulta a percepção de muitos ao deparar com algumas questões teológicas, ou melhor, alguns trechos da Sagrada Escritura nos quais um questionamento de cunho relativista se apresenta.

Aqui deixo o famoso questionamento de Pôncio Pilatos feito a Jesus:

“Perguntou-lhe então Pilatos: “És, portanto, rei?” Respondeu Jesus: “Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz”. 38.Disse-lhe Pilatos: “Que é a verdade?…”. Falando isso, saiu de novo, foi ter com os judeus e disse-lhes: “Não acho nele crime algum.” (São João, 18 — Bíblia Católica Online)

Esse trecho, durante um tempo considerável, criava um incômodo. Como Jesus não respondeu? Era estranho ter essa postura do Cristo que, sendo deixado por Pilatos, não responde a ele assim como respondeu, a muitos, outras tantas questões também extremamente complicadas. Por quê? Qual a razão de não ter colocado também a Pilatos contra a parede com uma resposta desconcertante como fizera aos fariseus? A respostas para a minha pergunta só poderia ser respondida com um olhar mais amplo, com uma leitura completa do episódio da Paixão.

Desde a sua prisão o silêncio foi a resposta de Jesus. Depois de muito tempo tantas outras leituras fez-me cada vez mais entrar no mistério desse silêncio de Cristo. O cordeiro levado ao matadouro faz eco ao que Dostoiévski vai fazer com o seu Inquisidor e René Girard vai ajudar a explicar com o seu Bode Expiatório e a violência sagrada. Voegelin em trechos que explica a função do servo sofredor também deixará cada vez mais claro o Cristo silencioso. Mas antes de tudo isso ajudar a solucionar meu questionamento, uma homilia de um sacerdote, que não necessariamente falou sobre a verdade questionada, serviu para que apontar, literalmente o caminho.

Ao movimentar-se e apontar para o grande crucifixo no presbitério da igreja, ele disse da “verdade crucificada”. Um relâmpago caiu e por fim entendi: Jesus, a verdade encarnada, não precisava dizer nada, pois a própria verdade estava diante de Pilatos e ele não enxergava. Era inocente, era verdadeiro, era o contrário de todas aquelas acusações. Pilatos tinha diante de si tudo que era necessário para ver a verdade, mas não conseguiu. Estava cego pelos problemas que se apresentavam para ele (possibilidade de revolta e o aviso de sua esposa sobre aquele homem que queriam ver morto).

O impasse estava resolvido, mas ainda havia uma colaboração a ser encontrara que ajudou ainda mais no entendimento, e que posteriormente fez tanto Dostoiévski quanto Girard serem melhor compreendidos.

O espanhol Miguel de Unamuno, que viveu uma busca intensa pela fé e para adequá-la ao seu vestígio de racionalismo, manteve um diário onde suas questões religiosas foram muito bem dispostas para a posteridade. Entre orações, reconhecimentos e questionamentos, havia um sobre esse meu tema. Um complemento e uma confirmação. A verdade exposta e a cegueira frente a ela também foram tratadas pelo filósofo e a nota tomada em seu diário dá uma belíssima e forte exposição sobre o tema.

Para Unamuno a questão é essa:

“Quid est veritas? perguntou Pilatos a Jesus, e sem esperar resposta veio aos judeus a declarar que não encontrava culpa no Senhor. Que é a verdade? Eis aqui a pergunta de todos os que vêem a justiça e não se sentem com forças para cumpri-la.”

Pilatos não conseguia lidar com o peso da verdade. Para ele era questão de lança-la ao povo para que decidisse. Determinou que a vontade da maioria expressasse aquilo que ele não teve coragem de admitir ao encarar. O Filho do Homem, o caminho a VERDADE e a vida, em frente a ele era algo pesado demais. Ignorou toda a relação que havia ali. A questão pessoal, as relações entre as informações que tinha, o que ele mesmo testemunhava com sua própria presença e traiu até mesmo a sua consciência que por mais de uma vez disse não ter visto nele crime algum.

Tudo fica completo com Unamuno, mas ainda havia da confissão de fé do mestre. Dostoiévski elaborou para si um credo que deixou claro sua posição frente à fé. Diferente de Pilatos, que negou a pessoa e toda a verdade visível nele e nas circunstâncias que lhe foram apresentadas, o mestre russo observou a figura de Cristo a fundo, pode perceber nele o que o oficial romano não conseguiu e brindou-nos, em uma de suas cartas, com uma belíssima confissão de fé.

Escreveu a sua interlocutora as seguintes palavras:

“O símbolo da fé no qual tudo está claro e sagrado. Esse símbolo é muito simples: Creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n’Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade.”

Ele deixa claro que toda a verdade sobre um Homem está exposta na figura do Cristo. Tudo que pode definir a figura humana está em total expressão naquele homem para quem muitos deram as costas, para quem nega a se relacionar com a pessoa dele e deixa não sua consciência responder, mas deixa a maioria ditar quem é. Não conseguem entender as várias circunstâncias que Ele expõe em si mesmo, mas deixa que o calor dos gritos determine quem Ele é.

Dostoiévski levou a sua confissão da forma como muitos não conseguiram levar e que outros tantos levaram. Em contextos em que a opinião democrática expressão verdades do dia, mutáveis como as estações do ano, o romancista fez questão de dizer que estaria com o Cristo, com a Pessoa que é a Verdade Encarnada, mas quer isso era preferível à verdade que faziam dizer ser a aceita.

Cristo é a verdade. Ele é a fonte dela, assim como está disposto da sua própria natureza. A constatação disso, às vezes, não consegue ser perceptível simplesmente pela leitura e pelo estudo. A muitos sábios isso foi negado. Mas a experiência própria com ele não foi. Aqueles que não se deixam guiar pela carne, ou pelas demandas das paixões do dia, podem muito bem compreender o que a justiça pede sem lhe dar as costas. Outros podem compreender a verdade dos demais como paródia grotesca daquilo que Ele traz. O que no fim mostra a todos, mesmo com o silêncio e obediência que, independente do descaso, da maioria e da negação da consciência, que com o tempo a verdade sempre abandona o túmulo ao qual tentaram condená-la.


[Texto elaborado/rascunhado na madrugada da Sexta-Feira Santa de 2018]