Sobre os cadernos de notas de Albert Camus

Albert Camus
“O senhor irá tremer diante da morte.”
“Sim, mas eu não terei falhado em nada do que faz a minha missão, que é a de viver. Não consentir à convenção e às horas de trabalho. Não renunciar. Nunca renunciar — exigir sempre mais. Mas estar lúcido mesmo durante essas horas de trabalho. Aspirar à nudez em que nos lança o mundo, tão logo ficamos sozinhos diante dele. Mas principalmente, para ser, não procurar parecer.” Albert Camus, ‘A desmedida na medida’.

O segundo dos cadernos do francês Albert Camus publicados em português é mais uma viagem pelo processo de criação do autor. Um grande detalhe desse caderno é que traz trechos da gênese do seu pensamento, de sua literatura e dramaturgia. É uma viagem pelo processo criativo do escritor que já vemos preocupados com os temas caros de todas as suas obras: o absurdo, o problema da morte, o trabalho e suas exaustivas exigências, a vida e como deve ser vivida de forma intensa, o amor e suas dinâmicas. A paisagem da sua terra natal, a Argélia, é recorrente, da mesma maneira que o foi em sua obra.

Tudo aquilo que surgiu como um relâmpago e foi registrado no ressoar do trovão naquele seu cartapácio. Tudo que foi gerado no transcorrer de seus dias e ele julgou digno de nota, e que por sinal tão digno eram que surgiram dali seus artigos, ensaios, romances e peças. O contato com o seu material de criação é uma forma de ver como as suas anotações, mesmos desconexas, formaram trechos de suas obras, foram base para o desenvolvimento de ideias e até mesmo de descarte delas.

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A prática do caderno de anotações/diário é comum entre os escritores o que comprova a validade da experiência. A qualquer momento alguma idéia importante pode surgir e é necessário ter meios para tomar nota dela. Manter por perto um material de anotações salva o processo criativo da falibilidade da memória humana, pois não sendo o homem comum um semi-deus, ele necessita de um auxiliar mecânico para ter em mãos futuramente algo que no passado julgou valer a pena se recordar. Mnemósine, como as demais entidades gregas, é traiçoeira.

Todos que estão a produzir algum tipo de conteúdo, ou mesmo fazendo exercícios contínuos de autoconhecimento, poderia ter um caderno para as anotações que lhe ajudem no processo. Lewis fez algo semelhante ao ficar viúvo; Amiel deixou uma série de diários construídos durante décadas. Tantos foram os autores memoráveis que trabalharam com o seu caderno e legaram para nós conhecer hoje esse processo. Fazer uso dessa experiência é algo que auxilia a formação da própria forma de escrever, de anotar, de analisar.

Para além da mera curiosidade, há a constante vontade de ordenação do processo criativo do escritor.


Um detalhe ruim a ser dito sobre as edições dos cadernos no Brasil. Esse segundo volume, em específico, tem quase a metade da publicação ocupada por um posfácio, um artigo comentando o conteúdo do livro (coisa que é feito nas notas durante a leitura do texto em si), depois fazendo introduções aos temas trabalhados pelo autor franco-argelino. É um espaço que poderia ter sido aproveitado melhor com mais traduções dos cadernos que ainda estão inéditos em português.


“A Desmedida na Medida”, Cadernos de 1937–39. Editora Hedra.