Amor e ficção

Um texto sobre a distorção dos sentimentos

Os livros e filmes e músicas falam sobre destino e amor de uma forma como se fosse realmente fácil, e essa ilusão é que faz com que as pessoas fiquem facilmente tristes nos dias de hoje. Mesmo com a tecnologia latejante que temos na atualidade, ninguém ainda conseguiu criar algo que supra a companhia que alguém dá.

Ou já inventaram?

No filme Her, escrito e dirigido pelo mestre Spike Jonze, somos apresentados a um futuro próximo e realista, em que nossas casas serão inteligentes e interativas. Eu poderia ficar parágrafos dizendo o quanto amo este filme, e como a ideia de futuro de Jonze é próxima à realidade, mas o assunto não é este.

Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, vive um romance com o seu sistema operacional, Samantha -- que tem a voz de Scarlett Johansson --, e ele a mostra como é o mundo, como são as pessoas... Ensina sobre o comportamento humano em geral.

Samantha foi programada para aprender conforme é utilizada. Mas, se ela não passa de uma série de códigos, todos os seus sentimentos não seriam apenas artificiais? Apenas respostas aos if’s de sua programação, escrita cada vez mais e mais, conforme Theodore mostra a ela as coisas.

Ainda é um paradoxo para mim, pois não diferimos tanto assim de uma provável inteligência artificial. Aprendemos reações às ações, e esses são os nossos if’s.

(Não darei spoiler sobre o que acontece no restante do filme, então, a quem ainda não assistiu, faça um favor a si mesmo e assista.)

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O modelo padrão de narrativa, que felizmente vem sendo quebrado e modificado pelos roteiristas e diretores mais atuais, como Marc Webb, faz com que as pessoas idealizem que a vida é como em um filme, onde:

- do nada vão encontrar o amor da vida;
- este alguém é perfeito
- no começo vai dar certo
- mas algo dá errado (complicação)
- e depois tudo volta a dar certo
- o final feliz

Mas o final feliz é ali para os personagens. Acabou. Depois que o diretor grita o "corta!", Edward Mãos de Tesoura volta a ser Johnny Depp, e o personagem fica eternizado nas bobinas de filme em que foram gravadas as cenas. Apenas.

Na vida real, o final feliz leva uma vida inteira. Ou até um dos dois se cansar e resolver procurar o seu final feliz com outra pessoa. Ou sozinho. A vida é assim.

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"Se não é feliz, ainda não é o final", uma frase que ouço em muitos lugares, para amenizar o sofrimento alheio. Pode ser verdade.

A ideia de amor eterno vem a cada dia mais se decaindo, com a liberdade sendo mais cotada. Escrevi um pequeno texto sobre isso aqui. E isso chega a ser bom. Com as pessoas tendo em mente que os amores podem acabar, o sofrimento é menos provável. Uma tristeza é inevitável, mas a duração desta passa a ser bem menor.

Mas ainda assim, até a ideia de sofrimento é distorcida pelas obras ficcionais ou sonoras. Enquanto uns cantam que em vez de chorar as mágoas decidiram comemorar, outros escrevem que se conformaram -- a vida tem disso, né? --, e outros rodam um filme em que o protagonista tenta a todo custo se reconciliar com o amor da sua vida. São os três lados da mesma história. As três hipóteses.

Mas na vida real é diferente. Às vezes a gente comemora a solteirice, às vezes só se conforma, às vezes chora, às vezes tenta voltar. É bem diferente da ficção. A arte imita a vida, mas escolhe só um caminho.

Por fim, basear a própria vida, ou a vida amorosa, a alguma obra ficcional, é implorar para nada ter a mesma profundidade que a sinceridade da realidade.

Mas, se escolher basear sua vida amorosa em um filme, nunca se baseie em 500 Dias Com Ela.

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