Meu lugar na janela

Em Setembro de 2014 fiz a minha última viagem até São Paulo. A viagem anterior havia sido três semanas antes, mas isso não vem ao caso.

Como eu sempre tenho o costume de chegar bastante adiantado aos meus compromissos, não fiz diferente desta vez. Meu ônibus sairia meia-noite, e eu cheguei na rodoviária umas dez da noite, depois de passar o dia inteiro fazendo pequenos compromissos com minha mochila de couro (que uso para tudo), lotada, nas costas.

Quando tive aquele estalo, que mencionei no meu primeiro texto "decente" aqui no Medium, fui na livraria Bukz da Rodoviária NovoRio, e procurei pelo livro Na Natureza Selvagem, que descrevia bem as minhas vontades naqueles dias.

Não tinha o livro, mas os atendentes chegaram no consenso de me aconselhar um livro de relatos de viagem da Martha Medeiros, chamado Um Lugar Na Janela. O título do livro fazia sentido, porque eu sempre gostei de ficar na janela. Me identifiquei, e paguei trinta e cinco reais na coletânea de crônicas.


Então, depois de circular mais um pouco pela rodoviária, sem ter o que fazer, fui esperar na Sala VIP 1001. Esta sala nada mais é do que uma sala com muitos assentos, muitas tomadas, um par de banheiros, um bebedouro, uma TV ligada na Rede Globo, e um potente WiFi. Também tinha uma porta automática que levava ao embarque e à área descoberta, e esta porta só abria por dentro. Outra coisa que não vem ao caso.

Li a primeira crônica do livro, e talvez a segunda também. Saí duas vezes para fumar, e esperava alguém sair também para eu poder voltar para dentro. Atualizei os apps do meu smartphone, assisti a vídeos do Good Mythical Morning (me segurando para não rir muito alto), e esperei bastante.


23:55. Embarque. Mas não vou lembrar qual era o número do meu assento. Só lembro que era na janela. Reclinei o banco, abri meu pacote de rolls da Bauducco, postei uma selfie com cara de sono no Facebook. O livro e a vida estavam fazendo sentido. Até ali.

Uma moça se sentou do meu lado. Não lembro seu rosto, não lembro de nada. Nem quero e nem preciso. Sua acompanhante me chamou.

— Moço, o senhor trocaria de lugar comigo?
 — Como? — levei um segundo para entender.
 — Desculpa, é que eu queria me sentar do lado da minha amiga.
 — Tudo bem. Onde fica o seu lugar?
 — Aqui do lado, no corredor.
 — Beleza.

Inclinei o assento, peguei minha mochila e meu pacote de rolls, e troquei de lugar com ela. Coisa de um ou dois minutos depois, ela me chamou de novo, e perguntou se eu tinha ficado chateado. Respondi que não, que eu gosto de ficar na janela para assistir à subida para a Serra Das Araras, mas que, como eu estava com sono demais, talvez eu fosse dormir.

Ela assentiu, e se sentiu melhor. Talvez.

Peguei o livro, e nem abri. Me deitei de lado, virado para ela. Me assegurei de que ela poderia ver a capa do livro, e dormi muito mal.


Epílogo

Seis horas e meia depois, já em São Paulo, seguimos a mesma direção. A chamei, e ela me disse que seu nome era Vitória. Perguntei se estava tudo bem, e ela me revelou que estava se sentindo mal por ter ficado no meu lugar.

Falei para ela ficar tranquila, e, só para me assegurar, lhe mostrei a capa do livro. Desejei um bom dia, rimos, e cada um seguiu sua vida.

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