Sobre as amizades que se vão

Um ensaio sobre a fragilidade dos laços.

O amor platônico, como definido por Platão (claro), é a afeição desprovida de desejo sexual. A pura amizade é a materialização do conceito platônico.

Então somos crianças no nosso primeiro dia de escola. A escola é onde fazemos os nossos primeiros amigos, sem muito esforço, sem muito querer. Com seis ou sete anos, não temos interesses fúteis, e a amizade é pura como as águas das termas vulcânicas de Fiji.

O tempo passa, e fazemos novos amigos. Por erros do destino, somos afastados dos amigos que fizemos na primeira série, e o que nos resta é a conformidade. Tem coisas que não podemos impedir, tal como mudanças de cidade, ou as notas dos nossos amigos. Me desculpem por não ser bom em filosofia, amigos do ensino fundamental e médio. Seus novos amigos são melhores, eu garanto.

As pessoas mudam, aprendem coisas novas, se interessam por assuntos diferentes, entram em novos grupos, conhecem novas pessoas, talvez mais interessantes. De volta à infância, como quando se ganha um novo brinquedo, e os antigos se tornam obsoletos. A criança brinca com eles cada vez com uma menor frequência, até se esquecer, e um dia se desfazer dos antigos brinquedos.

A vida toda é assim, a estrutura não muda. Os amigos, que juram lealdade eterna, quando menos esperamos, nos trocam por pessoas aleatórias, que até a última semana não existiam.

"With strangers to impress so near
Old friends don’t realize I’m here"

O verso do Strokes na música Electricityscape expressa com exatidão e poucas palavras o que eu quero dizer neste texto. Por mais que os amigos sejam antigos, nem todos duram pra sempre. Quando a gente menos espera, vem aquele estranho que toma o seu antigo melhor amigo. Acabou.

As histórias viraram lembranças, as experiências também. São coisas que não vão mais ser comentadas na mesa do bar depois da terceira ou quarta cerveja. Não vai mais existir aquela longa faixa de risadas depois de lembrar algo engraçado em que todos participaram certa vez.

Não.

As histórias serão contadas, as cervejas serão tomadas, as faixas de risadas ainda serão ouvidas. Mas com outras pessoas. Serão novas histórias das quais você já não faz mais parte, porque já não é mais interessante para aqueles que se diziam seus amigos. Não é complexo, é só a verdade.

...

Os laços afetivos, de qualquer nível hoje em dia, foram feitos para serem descartáveis. Com o avanço da internet e das redes sociais torna-se mais fácil criar laços com desconhecidos e romper laços com aqueles que eram próximos.

Um desconhecido certa vez disse que a internet aproxima aqueles que estão longe e afasta os que estão perto. Eu duvidava disso até acontecer comigo.

Ninguém é propriedade de ninguém; não podemos isolar aqueles que amamos em redomas de vidro temperado e com duas polegadas de espessura. O amor, mesmo que platônico, pode acabar. E geralmente acaba.

Um dia aquele seu velho amigo, companheiro de todas as horas, pode simplesmente te esquecer. Vai passar por você na rua e dar um sorriso amarelo e sem graça, se sentindo obrigado a fazer isso, para você não perceber que na verdade você já não é mais nada na vida dele.

Me desculpe, Platão.

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