Sobre tempo e a vida útil

Hoje em dia nada é feito pra durar

Recentemente li uma notícia sobre um inventor estar sendo ameaçado de morte por ter inventado uma lâmpada que pode ficar acesa por mil anos. Me lembrei de uma invenção do Greg (de Todo Mundo Odeia o Chris), que era a mesma coisa; ele destruiu a invenção porque sabia que causaria um impacto imenso na economia mundial. Mas isso me pôs pra pensar nesse assunto.

A tecnologia fez com que quase tudo fosse permanente, e ao mesmo tempo fez com que tudo se tornasse obsoleto mais rapidamente; mas essa mesma tecnologia não é eterna. Com os aparelhos sendo fabricados para não durar, apenas as lembranças permanecerão, e assim irá morrer conosco a lembrança do cheiro ruim que fica numa geladeira desligada eternamente por mal-funcionamento da peça que determina quando ligar ou desligar o motor.

Os computadores atuais têm uma vida útil de cinco ou seis anos. Todas as fotos guardadas e todos os rascunhos de textos serão perdidos se não forem backupeados em alguma nuvem que cobra mensalmente algumas dezenas de dólares para manter seus arquivos a salvo de serem deletados por engano ou por falha no hardware. Não sei bem quanto tempo de vida útil esse complexo de discos rígidos têm, mas espero que a minha coleção de nudes enviados e recebidos continue guardada no OneDrive até eu morrer, ou até uma próxima tecnologia ofuscar toda essa praticidade.

Os arquivos de um disco rígido nunca são realmente apagados, se é pra ser franco. Eles são só desindexados. Se você fosse um arquivo, seria como se estivesse com um abajur na cabeça, dentro de uma sala, se fazendo de decoração. Os arquivos são sempre sobrescritos, e é como age a nossa memória "permanente".

A minha memória permanente funciona muito bem, infelizmente. Lembro com clareza de detalhes todo o roteiro de um sonho que tive em 1997, com três anos de idade; e lembro com clareza de detalhes a falta de interesse da minha mãe enquanto eu lhe contava do sonho na manhã seguinte. Talvez eu só esqueça isso quando minha vida útil estiver chegando ao fim.

A vida útil de um humano é de uns 47 anos. Coincidentemente é mais ou menos o mesmo tempo de vida útil de uma casa construída atualmente. Mas uma casa não leva dezoito anos para se tornar útil, muito diferente de nós.

Entende-se por vida útil o tempo ou período em que algo ou alguém tem para ser usufruído ao máximo. Das 168 horas de uma semana, o tempo útil é de umas 44 horas, dedicadas ao trabalho. Em média, 56 horas são gastas dormindo; as 68 horas restantes são diluídas durante a semana, com a desculpa de "lazer". Multiplique os valores por 47 e tente descobrir quantas horas lhe restam.

Neste período muitas memórias são escritas e sobrescritas, como gravações e regravações numa fita K7 da BASF (para fitas de vídeo basta tampar o buraco que tem na parte da frente, bem do lado de onde fica espaço reservado para colocação do título). O limite das fitas de áudio é de 60 minutos, e de vídeo varia conforme o modo de gravação (EP ou SP, nunca entendi muito bem a diferença).