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Meu pai morreu há alguns anos. Viveu a vida, até se aposentar, pelo mundo, nas estradas do Brasil. Trabalhava numa empresa de transportes rodoviários, assim recordo, como também recordo seus telefonemas de Imperatriz, no Maranhão, ou Tucuruí, Belém do Pará, e tantas outras cidades, ou melhor, nomes de cidades. Às vezes, quando vou numa rodoviária, para viajar para São Paulo ou esperar alguém, fico olhando os nomes das cidades estampados nos luminosos dos guichês de venda de bilhetes das empresas de ônibus, jogando o jogo de imaginar as possíveis cidades em que ele esteve.

Os telefonemas são sim uma recordação; nos dias combinados previamente, num telefonema anterior ou antes da viagem, para o aeroporto, para o posto da Telpe, a Companhia Telefônica de Pernambuco. Lá pedíamos à telefonista uma ligação, íamos todos… minha mãe, eu, meus irmãos. Ficávamos aguardando até que nos chamavam, para atender na cabine número dois, ou, três, ou a que fosse. Lembro do carpete, do revestimento de madeira da parede, do cheiro das cabines. Então falávamos com meu, pai. Minha ma~e falava com meu, preocupada com as coisas da vida que levavam desse jeito. Ele longe, ela sozinha com a gente numa cidade que ela detestava. …


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Sting​ e o The Smiths​ não sabem, e certamente nunca virão a saber, mas esses dois discos aí da foto estão conectados na minha memória dita afetiva por conta de uma guerra.

Em 14 de abril de 1986 eu estava caminhando pela avenida Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem, no Recife, quando da calçada do outro lado da avenida uma amiga minha, Susanne, gritou pra mim que a Terceira Guerra Mundial, sim, ela mesma, havia começado! …


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Li rapidamente hoje, em meio ao caos dos posts do Facebook, que um ou dois velhos casarões haviam desabado, tristemente ferindo moradores, no centro do Recife, a cidade onde cresci e vivi parte da minha vida adulta. Isso me teria passado como mais um episódio da novela de uma cidade abandonada, com seus históricos sobrados caindo aos pedaços sobre seus habitantes desprotegidos de tudo, não fosse pelo alerta de um jovem amigo, o Pedro Siqueira.

Disse-me Pedro que o sobrado que desabou por cima de outro sobrado era o nº 97 da rua da Matriz.

Eu pegava o ônibus, Jordão Alto ou Jordão Baixo, na Imbiribeira e seguia rumo ao centro da cidade. Atravessava o bairro de Afogados e seguia pela avenida Sul, um caminho desolado, margeado de um lado pelo muro que a separava dos trilhos da Rede Ferroviária Federal e do outro por uma sequência de ruínas e galpões semi-abandonados. O fim da jornada era na avenida Dantas Barreto, uma abominação que foi cortada em meio a um bairro fervilhante, derrubando cerca de 400 casarões, eliminando 11 ruas e uma igreja tombada pelo patrimônio histórico. Ali, nesse cenário de terror urbano, ficava o terminal do meu ônibus. …

Toinho Castro