A Felicidade é Informal
Eu não entendo as imposições da nossa sociedade atual. Afinal, o que é ser formal? Um conjunto de regras as quais eu jamais cheguei a ser consultado, e talvez nunca chegaria a ser. Pautado por vozes de um passado oco, que não representa a nossa realidade, muito menos a nossa felicidade. Imposto a todos sem exceção, apesar de sabermos que na realidade ou ninguém segue ou o faz insatisfeito, contrafeito, revoltado ou forçado.
Uma sequência de gravatas, saltos e maquiagens que escondem as verdades e as reais necessidades que temos de viver.
E, no entanto, no meio desta balburdia louca de narrativas descabidas e intenções desvairadas, encontramos um sorrisinho maroto, uma respiração profunda e uma cama bagunçada.
A Felicidade é Informal.
Ela vem quando a gente alivia o nó da gravata, quebra o salto e a maquiagem já ta derretida há eras.
Quando você, no meio da madrugada, observa sua esposa descabelada e agradece a qualquer entidade alada que este momento fique marcado na sua alma.
Quando sua filha, já há muito adormecida, sonha sorrido ou sorri sonhando e você fica olhando com aquela cara de besta, imaginando o dia que aquela criança vai entender o amor que você tem por ela. O dia que ela vai renegar esse amor. E o dia que ela vai entender o que é amar desse jeito.
A Felicidade vem quietinha no meio da tarde, quando você cruza o olhar com o marido pelo retrovisor e sabe que a cumplicidade de vocês vai muito além do que aquilo que dizem.
Quando você chega do trabalho, meio em frangalhos e encontra o afago de um alguém que lhe quer bem, apenas por você estar bem.
A felicidade também vem de chegar vivo, em qualquer lugar seguro, depois de um dia sombrio.
De olhar para o céu e agradecer por você e os seus terem perdido aquela bala perdida que passou zunindo na janela vizinha e parou na viga mestra, sem marcas vermelhas no caminho.
A Felicidade vem do alívio de ouvir “Pode seguir” sem maiores prejuízos que uma cara amarrada e uma arma apontada, pro chão.
A Felicidade brota da dor, do sofrimento de ver uma criança nascendo, a mãe gemendo e o parceirx não está no corredor, mas ali, suportando, o prazer e o terror da mudança do corpo aos afagos de amor.
Ela vem choro silencioso, de um pai no escuro que lembra da dor de um filho perdido pelo motivo que for, mas que guarda na Fé a esperança que o amor lave a saudade em flor.
A Felidade vem na sala de aula de um professor que vêm nos olhos do aluno a memória do amor que aprender significou e transformou.
E eu podia seguir aqui, noite a dentro, com as mais distintas formas de felicidade que a informalidade pode trazer. Porque no fim, não é o salário que te faz feliz, é o que você pode fazer com ele. Não é o cargo que te faz feliz, é o reconhecimento que vem com ele. Não é a roupa que te faz feliz, é como você se sente nela. E definitivamente, não é a roupa, formal, enquadrada, e tal, que faz de você quem você é. Afinal, para tudo aquilo que você faz, que você experimentou, experienciou, viveu e aprendeu, a roupa foi o que menos importou. E, na maioria dos casos, você nem precisava dela para além da mera função social. Em alguns dos melhores casos, você nem estava com ela…
