A Língua Erótica — ou “como eu parei de escrever com a faculdade de Letras?”

Não, você não leu errado. Mas talvez seja um pouco difícil embarcar nessa minha viagem. Então eu vou ter que compartilhar com você, primeiramente, o que é o erotismo da língua na minha opinião, e só depois eu vou contar como eu cheguei nessa minha aflita situação.

Pronto, já ficou mais fácil, não é mesmo? Eu já disse o que vou fazer daqui para a frente e você está mais calmo (ou calma?). Eu sei… Eu trabalho com resumos acadêmicos. Coisa chatééérrima. Todo artigo acadêmico que for escrever, você é obrigado a por um resumo antes, que já conta tudo o que você faz no artigo. Estraga toda a graça que o artigo poderia ter. Mas enfim, essa deveria ser a segunda parte do texto. Então vou te explicar primeiro por que eu estou falando disso:

Eu fui estudar Letras. Ótimo, não é mesmo? Bem, mais ou menos…. Não ganha muito dinheiro mas é o que me faz feliz. Ou fazia. Fazia quando eu estudava Engenharia Civil, que eu larguei para fazer Letras. Coitado. É, eu sei. O destino do professor não é o mais prestigioso na nossa sociedade. Em palavras mais claras: a gente é pobre. Pobre mesmo. Pobre porque não tem tempo pra cuidar da gente. E o dinheiro que a gente ganha dá a impressão que não é o suficiente para fazer o que a gente faz. A gente é pobre. Os alunos não respeitam a gente porque na Wikipedia diz tudo o que eles precisam. Eles são ricos. Mas eu tinha abdicado da riqueza e do prestigio. E você se pergunta: Mas por que? Ou você pensa: Nossa que otário! E essa última frase é com certeza mais precisa. Mas existe uma justificativa. Eu fui seduzido.

Eu fui seduzido e, bem, infelizmente eu não tenho uma história de sedução de um professor que me convenceu a fazer Letras para contar, nem de um namorado que fazia Letras, nada disso. Mas eu fui seduzido. Sim, fui. Mas não é culpa minha. O diabo pode assumir várias formas para nos fazer cair em tentação. E eu pequei. Pequei quando comecei a negar a realidade dos números engenharísticos e caí na fantasia fugitiva que a ficção literária me oferecia com um decote de cima a baixo.

Mas você tem que me entender, por favor. Não desista de mim. Não. Coitado. Eu não tive culpa. Era tão bom ler as distopias. Afinal, será que elas falavam de outro mundo ou do nosso mesmo? Admirável Mundo Novo da literatura que se abria para mim. É óbvio que literatura tinha sido muito chata no ensino médio com todas aquelas leituras obrigatórias. Mas quando eu li Dom Casmurro porque eu quis, percebi que a pergunta não deveria ser se Capitu traiu Bentinho. Pra mim tanto faz como tanto fez.

O que eu quero saber até hoje é

o quê Bentinho sentiu por Escobar no seminário. Isso sim. Saber exatamente porque tanto ciúmes e admiração por ele. Mas isso o próprio Dom Casmurro não teve coragem de falar.

De qualquer forma, o auge da minha perdição foi no Morro dos Ventos Uivantes. Todas as noites eu lia um pouco mais, e queria saber o que ia acontecer com aquela paixão tão forte e tão mal resolvida. Em certo ponto isso começou até a influenciar minha percepção da realidade. Comecei a reconhecer traços daquela doença chamada de paixão no meu próprio relacionamento. Acabamos. Um mês depois que eu acabei o livro, voltamos. Culpei o livro. Mas graças a Deus não estamos juntos hoje. Disso eu me livrei.

Ainda assim eu tinha decidido que eu precisava daquela droga. Mas eu precisava muito. Precisava entender ela, e deixar ela me entender. A literatura é erótica (a não ser a própria literatura erótica, pois esta é pornográfica). Ela chega de mansinho e te convence a agarrar ela. A engolir ela. Saborear ela, consumir ela. E, frequentemente, esquecer ela depois.

E nem precisa ser um clássico. Só tem que ser boa mesmo. Daquelas que tem pegada. Ela te promete fazer esquecer de tudo, faz você jurar que você é só dela, e depois te larga no fim. Às vezes deixa um suspense e você fica louca pra encontrar ela de novo.

Fui procurar um curso na minha cidade.

Encontrei. Línguas Adicionais — Inglês, Espanhol e Literaturas. Achei meu mundo, pensei. Fechou todas! Tolice. Tolice, tolice.

Eu fui tolo de pensar que as Línguas eram aqueles caras legais que ligavam no dia seguinte. Eu falo bem todas elas: Português, Espanhol e Inglês, por uma questão de parentesco. Cheguei a visitar meus parentes no outro lado do Atlântico e foi ótimo. Bebe-se muito bem tanto em Espanhol, como em Português. E descobri que se come muito bem, também. E quase nunca se come ou se bebe sozinho com parentes por perto, não é mesmo?A Língua, até então, me era muito erótica. Me proporcionava sabores e saberes. Eu ouvia histórias e contava histórias. Tolo eu.

Quando cheguei no curso, descobri que quase todos os meus professores eram Doutores. Ainda não formei, era pra graduar esse ano. Mas ainda me fascina ver como eles são desajeitados operando um DataShow. Como eles se apegam a detalhes tão chatos como nomenclaturas, resumos, metodologias. Cadê o prazer nisso?

A pior decisão que eu podia ter tomado era querer estudar algo que eu fazia com tanta naturalidade. Eu lia, escrevia, conversava, opinava. Agora estou cada vez mais quieto. (De)formado, professor. Cansado de levar martelada na sala de aula. Sem paciência ou idade para isso. E tenho certeza que a visão acadêmica está errada muitas vezes. Nunca antes na história da humanidade se leu e se escreveu tanto como hoje. E é claro que muitos vão questionar a qualidade do que se escreve e se lê. Mas se escreve e se lê. Só que nada do que é bom está na faculdade.

Meu curso, por exemplo. Aquela parte do “e Literaturas” era mentira. Ficou apertadinha no currículo (5 estrelas no MEC). Tem que caber mais Linguística, dizem os doutores. Os professores do Inglês reclamam que a gente se apega muito ao Espanhol, e dizem que devíamos estudar mais Inglês. Obviamente os de Espanhol fazem oposição equivalente e simétrica a essa afirmação. Dizem que deveríamos era estudar mais Espanhol. E quase todos são da Linguística. E você se pergunta, “e daí?” porque você não sabe o que é a Linguística. Então eu preciso te falar agora.

A Linguística é a maneira mais chata que já inventaram de estudar a Língua. Consegue ser mais chata do que gramática. Eles falam, falam, e não chegam em lugar nenhum. Mas no meio do caminho eles citam várias referências bibliográficas de outros linguistas para corroborar seus pontos de vista. Ontem mesmo eu assisti uma entrevista de um famoso linguista brasileiro (que é indiano), que disse que o problema da Linguística é que não tem nada a ver com a prática (ou eu entendi assim). Eu concordei. Ele disse, mais aproximadamente, que as aulas de Linguística Aplicada ainda eram muito distante da prática da sala de aula, e que os Linguistas Teóricos tendem a estudar coisas muito abstratas, fora do contexto real. Claro! Teoria é abstração, aplicação é prática. E aula, geralmente, é teórica. E nesse redemoinho de chatorrice é que os linguistas dão aula de Linguística. Falando sobre a Linguística, ou sobre como eles pensam que ela deveria ser. E tudo bem, pode ser legal para muita gente. Mas eu não fui seduzido por isso. Eu fui enganado. Ludibriado a estudar Linguística, quando eu queria estudar Literatura.

Hoje eu não tenho como extravasar minhas energias criativas.

Não tenho tempo para escrever o que eu realmente gosto. Eu já nem sei do que eu gosto realmente. As consumações de meus impulsos artísticos tem se resumido em assistir um ou dois episódios de alguma série estrangeira por semana. No resto do tempo eu tenho que ler sobre Linguística. Política Linguística. Linguística Aplicada. Paisagem Linguística. Ethos Multilingue. E mais uma carvalhada de coisas que, tá… até tem seu charme. Mas não era o que eu queria. Eu queria ser movido. Comovido. Queria sentir aquela droga correr na minha veia de novo. Eu gosto dos debates de literatura. Entender como o autor construiu a história. Mas, melhor ainda, é quando as pessoas contam o que sentiram quando a história chegou ao clímax. Ou no plot twist. Eu queria fazer elas sentirem isso. Eu queria mover. Comover. Mas não. Eu tenho que escrever artigos chatos. Com resumos chatos. Com referencias chatas. Porque é trabalho para a faculdade. Talvez quando eu me formar eu ache legal, assim como foi a literatura do ensino médio. Mas agora é chatééérrimo.

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