Se beber, não escreva

Você se lembra daquela palestra/livro “Sem saber que era impossível, ele foi lá e fez”?

Eu assisti uma vez. Era uma palestra motivacional que mostrava pessoas com severas limitações físicas que conseguiram se superar. Corredores sem uma ou ambas as pernas, pintores sem braços, mães anãs de uma família de crianças siamesas, ou outras adversidades. Se você já estivesse meio para baixo, fazia você sair pior. Eu me lembro de ter me sentido um lixo por ter todas as pernas, braços e olhos, e ainda assim não fazer metade do que um cara cego que tinha ganhado medalha de ouro no tiro ao alvo nas paraolimpíadas, ou algo assim. E até hoje eu questiono a efetividade desse método motivacional “Não reclame, pois tem gente fazendo mais com menos”. Tiraram-me o direito de não conseguir também.

Então, foi pensando nisso que eu fiz algo impensável. Sem saber que era impossível, eu fui lá e acordei as 8 da manhã de um sábado para ir a uma oficina de crônicas na faculdade. E a minha primeira sensação foi de puro arrependimento.

“Por que eu estou fazendo isso?”

Eu tinha decidido que a Oficina de Crônicas ia me ajudar a escrever, então eu tinha me inscrito. Mas era sábado de manhã. Tinha que estar lá na Universidade às oito da manhã de sábado, e eu já estava atrasado. Eu estava de ressaca porque tinha bebido quatro taças de vinho na noite anterior e ficado acordado até as duas horas. Isso já era um indicativo de senilidade. Era um sinal divino afirmando que esse corpo não prestava mais. Joga fora. Quem tem ressaca com quatro taças de vinho, já passou da hora. E a hora tinha passado quando me levantei às oito.

Cheguei atrasado.

A oficina tinha começado há pouco e estava dividida em duas partes: apresentação e produção. A apresentação foi como se espera de uma apresentação. Ninguém viu nada de novo. “O que é crônica?”, “Quais os autores famosos”, “Leitura de Crônicas”, tudo OK. Aparentemente, alguns alunos estavam dispostos a usar aquela manhã para mostrarem o quanto leem e gostam de crônicas. Porque, assim que apareceu uma oportunidade, senhoras e meninas presentes saltaram a falar dos estilos da Clarice Lispector, do Mario de Andrade, da Lya Luft, da Martha Medeiros, etc. E não faltavam adjetivos para descrevê-los. Intimista, suave, doce, mágica, prazeirosa, intrigante, enfim... Professores e alunos acariciando uns aos outros, presenteando-se sorridentes os adjetivos embrulhados em papel celofane. Que cena bonita. Eu observava em silêncio e desespero, porque sabia que logo chegaria a hora de escrever.

A hora de escrever chegou e todo mundo ficou em silêncio.

Por sorte eu não era o único com um bloqueio. Antes, uma menina fotógrafa havia sabiamente comparado crônicas à fotografias, eram comuns em seus recortes e olhares, o tamanho e o ponto de vista, a arte… Agora ela se levantava e caminhava pela sala, fotografando com os olhos o vazio das paredes, buscando alguma inspiração. Lembrei que a oficineira tinha dito que a crônica está inserida no aqui e agora. Senti que agora era bloqueio. Confesso que torci para que não baixasse santo nenhum naquele corpo que almejava fotografar histórias fantásticas. Ao menos não antes de baixar em mim.

Enquanto isso eu até tinha uma ou outra ideia para começar, mas não conseguia escrever sentado ao lado de duas meninas com menos de 18 anos que trouxeram seus caderninhos de folhas amarelas. Elas tinham trazido suas canetas de casa. Elas também haviam falado sobre tudo que gostam na Clarice Lispector, do estilo, dos temas. Eu tinha lido uma coisa ou outra da Clarice, e gostei bastante. De fato, até estava no meio da leitura de um livro de contos e crônicas dela. Se chama Onde Estivestes de Noite, e é muito bom. Mas jamais me compararia a ela antes de escrever. Eu fico nervoso só de pensar. Eu já ficaria muito satisfeito se eu escrevesse com metade da qualidade com que o Pe. Fábio de Melo escreve seus tuítes. Para meu alívio, apesar dos caderninhos de escritor, as meninas da Clarice também travaram na segunda linha.

Levantei-me e fui até o canto da sala, buscar inspiração.

Tomei um chá de erva-doce que a oficineira tinha preparado. Eu estava de ressaca e com fome, porque não tinha tido tempo nem para comer antes de sair correndo de casa. O chá era a única coisa que eu tinha para encher a barriga. Pelo menos é bom para se hidratar numa ressaca. Tomei o chá e lembrei que gostava de erva-doce. Pensei em escrever sobre a erva-doce. Ou sobre o chá de erva-doce, que minha mãe me dava na mamadeira pra dormir quando eu tinha menos de dois anos de idade e eu ainda me lembrava, que coisa incrível. Mas eu não queria transformar minha crônica num solilóquio de psicanálise, então desisti. Não ia ter jeito. Assinei a chamada e fui embora.


Voltei o caminho todo até minha casa pensando no que eu poderia escrever para entregar uma crônica por e-mail no prazo que a oficineira oferecera. Sabia que o que quer que eu fosse escrever não seria tão digno quanto os textos de todos os escritores que foram comentados naquela manhã. Além disso minha barriga roncava, apesar do chá, que já não forrava mais meu estômago. Quando cheguei em casa, preparei o almoço, acordei meu namorado que havia permanecido dormindo tranquilo naquela manhã de sol, e tive a ideia mais sensata que eu poderia ter tido para um sábado de ressaca depois do almoço. Peguei meu livro de contos da Clarice e voltei a ler. Melhor deixar essa coisa de escrever para quem sabe fazer.

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