Porque passagens de ida internacionais são tão caras

Viajar sem data para retornar, um roteiro por vários países em uma única viagem, voar primeiro planejar depois… Várias são as razões que podem levar alguém a precisar de um bilhete só de ida para outro país, mas a frustração é a mesma, o preço! Entenda porque as cias aéreas estão mantendo esse sonho longe de você.

Em 2014 quando ia viajar ao Chile, comprei as passagens de ida e volta em uma promoção com 5 meses de antecedência e só então fui planejar o roteiro. Em um dado momento, decidi aproveitar a viagem para conhecer a Argentina, foi então que tudo começou. Já possuía o trecho GIG-SCL e milhas suficientes para comprar o trecho EZE-GIG, então restava comprar um bilhete SCL-EZE, uma passagem só de ida de Santiago no Chile, para Buenos Aires na Argentina e estaria tudo pronto. Um percurso de cerca de 1200km (menos que a distancia entre o RJ e Salvador), 2 horas de viagem, 20 vôos diários, era baixa estação e havia 2 meses de antecedência, não tinha como ser caro… ledo engano. A passagem custava 1400 reais sem as taxas, ABSURDO! só pra comparar o trecho doméstico com a mesma distância custava 200 reais, 7 VEZES MENOS, não me conformei precisava de uma explicação e uma saída.

Dos fatos

Vamos deixar bem claro, eu jamais esperei que as duas passagens tivessem o mesmo preço. Vôos internacionais são naturalmente mais caros por possuírem mais custos associados como: taxas aeroportuárias, aeronaves melhores, taxas de câmbio, tripulação mais qualificada… mas nada justificava tamanha diferença. O absurdo se mostra ainda mais evidente quando comparo o valor do bilhete só ida com o bilhete ida e volta para o mesmo trecho: a passagem só ida é mais cara que o total da passagem ida e volta.

Ilustrei a situação com um exemplo entre Chile e Argentina, mas tal situação se repete para todos os trechos internacionais que analisei, também é importante ressaltar que este fato se acontece em outras empresas aéreas e pasmem, não é exclusividade das cias brasileiras.

Das explicações

Entender que isso é o padrão e não a exceção não é fácil, afinal, se um vôo de ida representa metade dos custos de um vôo de ida e volta, o preço deveria estar próximo a metade. Não foi fácil, mas encontrei alguns motivos que explicam um pouco a situação, vou dividi-los em duas categorias: culpa das cias aéreas, causas externas.

Das causas externas:

No segmento dos transportes aéreos, existem fatores que afetam o custo operacional e não são de responsabilidade das empresas de aviação, ou seja, elas não tem controle sobre estes. Falando especificamente dos vôos internacionais o principal fator que impulsiona os preços é o risco de extradição. Como assim? Todo país tem soberania para decidir quem ingressa em seu território, sendo assim, qualquer um que chega a um país do qual não é cidadão tem a chance de ter sua entrada negada pelo governo, independente de ter toda documentação necessária e estar plenamente dentro da lei. E o governo pode alegar qualquer motivo para rejeitar desde suspeita de terrorismo, controle sanitário (para pessoas oriundas de países em epidemia) até mesmo não comprovação de que o viajante tem como se manter no país em que chega (porque não é capaz de indicar o hotel que vai ficar, não tem seguro saúde ou posse de moeda para custear a estadia).

Nestes casos (por mais que sejam exceções), o governo local pode obrigar a empresa a transportar o passageiro de volta a cidade de origem. Obviamente a empresa tem direito(e vai) de cobrar por esse translado imprevisto, mas como a pessoa pode se recusar a pagar é importante para as empresas ter uma margem no bilhete ida para cobrir este imprevisto.

Da culpa das cias aéreas:

Não estamos falando de instituições de caridade e é claro que as próprias cias tem sua parcela de culpa nos preços. Uma grande parcela dos viajantes “só ida” são homens de negócios que tem seus bilhetes comprados pelas grandes empresas em que trabalham, que consequentemente, podem pagar o preço que for estipulado(em verdade a maioria das multinacionais tem uma péssima gerência sobre os custos de viagens de seus funcionários).

Se você falar para um amigo “vou comprar uma passagem só de ida para os EUA” o que ele vai pensar? certamente que você está rico e pode ter férias por tempo indeterminado! Esse também é o pensamento das cias aéreas, e como em diversos segmentos golpistas de mercado, “o preço vai pela cara do cliente”.

Provavelmente você nunca ouviu falar da IATA, mas saiba que essa pequena sigla tem muita influência na vida dos viajantes. IATA significa International Air Transport Association e funciona como um sindicado para as empresas de aviação, criando padrões, advogando em interesses comuns e prospectando avanços no segmento. Hoje a IATA conta com 87% das empresas de aviação do mundo, mas leia bemEMPRESAS DE AVIAÇÃO, os interesses defendidos por eles não representam benefícios para os passageiros (longe disso) e comumente são conflitantes com estes. Logo, temos um cartel, e se um sabe que todos outros vão cobrar alto por dado serviço o que faz? entra na onda e cobra tão alto quanto, deixando os passageiros sem escolha.

Das soluções

Obviamente entender a raiz do problema não me levou do ponto A ao ponto B, então eu continuava precisando daquela passagem, precisava descobrir como contornar a situação.

Milhas

Como citei no texto, diferentemente das passagens compradas em dinheiro, aquelas compradas com milhas não são distorcidas pelo fator “apenas ida“, sendo assim você pode comprar pagando o valor normal. Se você não possui milhas suficientes a maioria das cias permite comprar as milhas restantes para completar o valor necessário (ATENÇÃO, comprar milhas para completar a passagem é DIFERENTE da opção MILHAS+DINHEIRO oferecida pelas empresas, esta última SEMPRE É DESVANTAGEM). Se você não possuir milha alguma, recomendo usar o site MaxMilhas, este site funciona como um classificado de milhas aéreas, havendo anúncios de diferentes quantidades por diferentes preços, a operação é segura e você emite a passagem para diversas cias.

Outros modais

É importante lembrar que o mundo existia e haviam viagens antes de surgirem os aviões então analisar outros modais de transporte é sempre útil, apesar de mais demorada, uma viagem por terra proporciona paisagens e possibilidade de pausas estratégicas que voo nenhum terá. O conforto também deve ser analisado, ônibus e trens tem, a valores acessíveis, assentos muito melhores que de aviões.

Como santiago fica muito próximo a fronteira com a Argentina, mas a viagem até Buenos Aires duraria 24 horas (apesar de custar apenas 200 reais), optei por fazer o trecho em ônibus+avião, atravessando a fronteira pela cordilheira dos andes até Mendoza e de lá tomando um voo a B.A. tal opção me custou cerca de 250 reais e me deu oportunidade de conhecer mais uma cidade na Argentina (que por sinal eu gostei mais que B.A.) sem falar numa belíssima paisagem no trecho andino.

Condor

Algumas empresas fogem das manipulações tarifárias clássicas do setor aéreo, a Condor é um bom exemplo disso. Quem já perdeu um voo e precisou comprar a passagem pro dia ou hora seguinte sabe o sufoco que o cartão de crédito passa nessas horas, pois na Condor a tarifa não é influenciada pela antecedência da compra (ao menos não de forma tão drástica), o mesmo ocorre para trechos só ida que possuem aproximadamente metade do preço de trechos ida e volta. ATENÇÃO, buscadores de passagens como decolar.com mascaram o preço de passagem de empresas como a Condor então é preciso olhar diretamente no site oficial.

Pacotes consolidados

Grandes agências de turismo tem acesso a “tarifas consolidadas” que são tarifas mais baratas e não são diretamente vendidas nos sites das empresas aéreas. Essas tarifas foram criadas para ser negociadas junto a pacotes que não demandam ida e volta (uma viagem de cruzeiro por exemplo), e podem representar um desconto mesmo que você seja obrigado a ficar num hotel específico. Entretanto na minha experiência os termos trabalho sério e desconto não combinam com agências de turismo no Brasil e a não ser que você tenha alguém de muita confiança dificilmente você sequer será avisado que existem essas possibilidades. O Kayak eventualmente mostra essas tarifas como “secret airline offer” e não revelam qual linha aérea a está operando (pelo fato de serem tarifas não publicadas oficialmente).

O transporte aéreo é um dos setores da economia mais blindados das relações de consumo, então toda informação que levar a uma negociação menos desfavorável é bem vinda. Existem outras dicas que podem ajudar a obter passagens mais baratas de forma geral, mas vou deixa-las para outra oportunidade.

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