O Palmeiras e a urgente questão dos refugiados

Arte necessária criada por um membro da @palmeirasantifa

O Palestra Italia foi fundado por imigrantes italianos.

Não se engane: moldou nossa história de forma muito mais marcante que tenham sido imigrantes do que a origem em si. Em caso de dúvida, experimente levar alguém de trinta anos nascido na Itália a uma festa de San Vito e observe (segurando o riso sádico) a expressão de gato assustado com fogos de artifício, cravando as unhas na mesa com os olhos arregalados. Existe uma explicação de inspiração darwinista para isso, que leva em conta o isolamento geográfico que criou espécies diferentes com a separação de mais de 100 anos. Pesa também que já existia, na Itália do fim do século XIX, um degrau relevante entre aqueles que puderam escolher ficar e os que não encontraram outra alternativa senão tentar a sorte em outro continente.

O que nos faz diferentes de um time de colônia é que a nossa história colou; não há muitos descendentes de italianos no nordeste do Brasil, mas ali há gente que se identifica com a trajetória de deixar o infértil lugar onde nasceu em busca de algo melhor. Essa jornada, infelizmente, é cíclica, e podemos tentar aliviar o sofrimento de quem protagoniza grandes deslocamentos humanos em tempos de guerra.

Há hoje, em São Paulo, milhares de refugiados que largaram tudo pela promessa de uma vida em relativa paz, longe da vulnerabilidade motivada pela economia nas Américas do Sul e Central e também pelo terrorismo no Oriente Médio e no norte da África. Chegam aqui para fugir de algo, e aqui são tratados como criminosos embaixadores deste exato mal do qual tentam escapar. Olhem as periferias francesas e assistam ao teaser do filme que estamos produzindo ao criar esse tipo de ressentimento baseado em dificultar qualquer tipo de integração por puro preconceito pleonasticamente burro.

A minha é maior que a sua
Não me interesso por debates sobre tamanho de torcida — entendo como uma espécie de discussão fálica em que inexiste a possibilidade da régua. No fim das contas, a Adidas ou qualquer outra fornecedora de material esportivo que nos enxergue como potencial cliente avalia somente a capacidade que essa incógnita que é o número exato de torcedores tem para se reverter em vendas. Na TV, basta que criem uma certa vergonha na cara para distribuir os recursos e os tempos de exibição de modo a refletir melhor os índices objetivos e disponíveis de audiências e assinaturas. Pessoalmente, prefiro silenciar no anúncio da renda e aplaudir os números de público no Allianz Parque, e fico feliz com o carinho com o qual meu time é recebido quando joga em outros cantos do país. Que tal o nosso setor na Fonte Nova?

Muito mais do que pensar em abraçar o Mickey, a identidade do Palmeiras em seu segundo centenário passa, obrigatoriamente, por estarmos dispostos a estender a mão a quem repete a história dos nossos fundadores.

Não é tão difícil. Imagine que teria sido errado chamar de “fascista” seus avós ou bisavós que chegaram aqui fugindo justamente do fascismo, sem muitas posses e quase nenhum estudo — e não se deixe enganar pelo cinismo de nenhum espírito mais suíno: não é uma coincidência que nos tenham apelidado como “porcos”.