Clube Atlético das Panelinhas.

Disclaimer: espaço livre para sugestões e ofensas. Não sou responsável pela natureza / bom humor de ninguém, só pelo meu ;). Pra quem quer conversar sempre tem papo, é só comentar!

Resumo: esse texto fala sobre como o torcedor do trétis não sabe lidar com aqueles que torcem pro mesmo time que o seu, mas tem alguns pensamentos opostos / de confronto. A internet, que deveria colocar estes grupos em consenso, colocou em choque. Nenhum deles percebe que não são tão diferentes assim, apenas formaram panelas com rótulos distintos. E seguem transferindo boa parte das frustrações da vida pro que acontece com o clube. E isso é prejudicial para o seu futuro. A era da intolerância bate em cheio no sentimento de atleticanismo.

Vem comigo:

Imagem editada, captada em pesquisa na internet.

É da natureza humana o agrupamento. A cultura curitibana (também) é muito forte com esse valor de “ter o seus, separar pelos seus, e brigar com os demais”. Não seria diferente com o Clube Atlético Paranaense, pra mim, sempre trétis (e pra outros, uma heresia histórica assim chamá-lo).

Existe no entorno do clube duas grandes panelinhas (grandes porque são as mais barulhentas; panelinhas por que são grupos relativamente restritos, se considerarmos o tamanho da torcida). Os gigantistas e os denovistas. Utilizo para ambos o nome das chapas das últimas eleições, mas não necessariamente ainda estão abraçados apenas no viés político do clube.

Gigantistas: na esperança do que vai ser, dão um valor muito pequeno para o ontem, e relativizam o hoje.

Esta panela tem dois perfis bem distintos: torcedores mais velhos, que nasceram ou cresceram com o CAP na era dos “5 títulos em 30 anos” (1958–1988); torcedores mais novos, que nasceram ou cresceram com na “era total” do CAP: 1994–2005 (11 títulos, 7 vices, 2 estádios, um ct, e muitos atletas revelação / ídolos e candidatos à, e/ou indo para seleção brasileira). A primeira geração tem um brilho nos olhos, que só esse choque de realidades dá (somada à natural distorção da realidade que o tempo proporciona), sobre tudo que o clube tem de patrimônio. Como viveu essas duas etapas, tem um entendimento diferente sobre o que significa esperar; tem uma aceitação diferente sobre os resultados do dia a dia. E tem uma confiança “acima da média” nos gestores que conduziram o clube ao estado atual. Os mais novos só tem história pra pesquisar; viram um, dois títulos do clube, no máximo. Ouvem dos mais velhos e do grupo gestor o discurso de “já foi feito e vai ser feito, então confie; o amanhã vem e será gigante!”. A relativização do hoje dá a eles, fundamentados nos discursos de grande poder oratório e na poderosa estrofe do hino que nos diz que “o coração do atleticano estará sempre voltado para os feitos do presente e as glórias do passado”, um tom muito mais raivoso à defesa do que é feito para o clube, em proporção a defesa da instituição em si.

A maneira como as coisas são ditas e defendidas fazem com que a defesa seja dos homens, das histórias, das promessas, e não do factual, da realidade, de uma noção mais clara do dia a dia. E digo factual pois o poder do discurso que é utilizado cria essa blindagem de que “amanhã, tudo será melhor. Hoje, defenda o que eu fiz, pois assim você defenderá a instituição. Eu sou a verdade e o caminho, e tudo que é diferente disso, é mentira! Não ligue muito pro que acontece no dia-a-dia, pois é assim que tem que acontecer e (insira aqui um discurso padrão). Sempre daremos satisfação, mas a verdade pode vir a ser relativa”.

Juntam-se um pacote de chavões, um modelo de discurso, um rótulo pra si, outro para o “inimigo”, e vamos à luta. E vamos para internet defender o projeto. Vamos para internet rotular quem vai tentar se eleger contra nós e, assim como eles fazem, vamos ofender profundamente toda e qualquer pessoa que não aceitar aquilo que falamos e tentar nos mostrar um outro lado. Vamos fazer páginas, associações, clubes, ligas, e tudo aquilo que puder mostrar que ao torcedor basta seguir esperando, que dias melhores virão.

matéria no jornal Lance, 1999. Fonte: pesquisa na internet.

Denovistas: saudades do que já foi, falta do que não é, e o hoje é muito pior (do que a realidade).

Os denovistas são essencialmente a geração “do meio”. Nascidos entre o final dos anos 70 e até o final dos anos 90, pegaram o intervalo mais sombrio da história do clube — onde “entraram” na instituição os expoentes políticos que tornaram-se os líderes e gestores das décadas seguintes, e as bases do processo de transformação iniciada em 1995 foram “criadas”. Nessa faixa etária tem desde quem viu o Atlético só levar surra dentro e fora de campo, nômade, e com um atleticanismo literalmente cultivado por dúzia de milhar de torcedores, onde sempre tinha mais algum clube dentro da cidade “estando melhor”, até o torcedor que só viu a parte vitoriosa, cujo ciclo “constante” começa a ficar cada ano mais distante. Em grupos menores desta panela, tem pessoas mais velhas que em algum momento se envolveram com o clube e as pessoas do clube, e agora fazem oposição porque tem opiniões e projetos distintos, “sonhos iguais com caminhos diferentes”, para o que o Atlético tem mais pra crescer (ninguém anda se perguntando se precisa mesmo crescer mais? É papo pra outro dia). E outras pessoas mais novas que lidam com a paixão do clube apenas no “calor do dia a dia”, e justificada e inevitavelmente, farão oposição ao estado atual de gestão que existe no CAP.

A saudade do que já foi é autoexplicativa: o tempo cria distorções da realidade, e como é uma realidade que eu também vivi, tenho a mesma propriedade que eles para comentar sobre. Como era um período vitorioso, tudo que acontecia fica positivo. O estádio não estava sempre lotado, mas se você perguntar para esse torcedor, ele vai dizer que “a baixada sempre foi vermelha e com cadeira, estava sempre cheia, toda a torcida fazendo festa e empurrando o time para todas as vitórias”. Também tinha bebida, e bebida sempre torna tudo mais legal :)

E por serem da primeira geração que fez muito ou tudo na internet, há uma interação de longa data. Das listas de e-mail aos fóruns e redes sociais, é uma galera que há bastante tempo alimenta uma visão critica sobre tudo que acontece ou não com o clube, dentro e fora das 4 linhas. Com o envelhecimento, as frustrações maiores que as alegrias, e um senso de expectativa coletiva avassalado pela realidade, somadas as frustrações e sabores da própria vida, tornaram-se torcedores amargos (COF COF, pessoas amargas).

Torcedores que esqueceram um pouco da paixão pela paixão, e optam primeiro pelo viés negativo, desconfiando de tudo que pode vier a ser positivo. Encontram um alvo aleatório para criticar nas vitórias, e nas derrotas, como um rosário, desfraldam todas as incomodas mazelas do dia a dia, da frase de um ilustre desconhecido aos mantras dos presidentes e as imposições estabelecidas. Andam esquecendo de serem felizes como o Atlético pelo Atlético, e precisam reclamar. De pessoas e histórias. De detalhes e de lendas. De distorções e de pérolas.

E começam a sentir falta daquilo que já foi, e muita falta daquilo que não somos, sem parar pra pensar mais um pouco e se olhar no espelho. Pois, assim como os gigantistas, escolheram um alvo, um inimigo, e batem nele sem parar. Reclamam dos rótulos que recebem, dando rótulos aos que não concordam com essa linha de pensamento / torcida / frustração. Ou seja: são apenas a outra face de um mesmo tipo de incoerência.

Beaker, o Muppet. O pai do mimimi. Fonte: Wikia Muppet.

Você começa a mapear estes torcedores panelistas nas redes sociais, e vai encontrando as coincidências. Gigantistas que tem laços com o conselho e as associações de torcedores e /ou outras instituições com objetivos estranhos, cada vez mais entranhadas no clube. Denovistas, também sempre considerando-se atleticanos mais especiais que os demais, em seus grupos, fóruns e listas meio coincidentes no twitter e no facebook [alguns com os mesmos grupos e associações, mas que não conseguiram se entranhar]. Em comum nas panelas: a constante necessidade de estarem certos, buscando confrontos a cada resultado do campo pra dentro, que convém. As bizarrices de torcer contra algo ou alguém da instituição só pra ter a validação de sua verdade. Elogios exacerbados entre si e ódio coletivo contra outro ser que também curte a camisa listrada em vermelho e preto. A transferência de responsabilidade para a outra panela em mudar de atitude e “pensar mais no clube e menos em si”. O mimimi medíocre com pequenezas.

O esquecimento de que todos eles passarão e a instituição fica, mas se seguirem alimentando o racha ao invés de estabelecer uma sincera indiferença ao diverso, na falta de maturidade em buscar um consenso com quem tem outros pensamentos, não vai ter Atlético. Só o que existe na cabeça de cada um deles e na convenção mediana que a distorção da realidade cria.

Só um rascunho de tudo de bom que o clube pode ser e não chega lá, porque de diretores a torcedores com boa oratória, pensam primeiro em serem donos da verdade, e não em construir um clube melhor pra todo tipo de torcedor, e não apenas aqueles que são apenas da “minha panelinha”. Existem outras, mas as mais perigosas ao clube, hoje, são essas. Na cegueira de não deixar o outro somar, atrapalham juntos um crescimento real e inteligente da instituição. No provincianismo de racionalizar e passionar aquilo que convém, transformam assuntos sérios em sexo dos anjos e vice-versa. E ajudam o Atlético a não ter felicidade nem nos feitos do presente, nem com as glorias do passado. Não sabem mais o seu valor. E assim como a distorção da realidade tornou tudo que odeiam muito pior e tudo que amavam muito mais do que realmente era, esqueceram que, nos momentos mais vitoriosos da história do clube, cada um investia mais energia no atleticanismo primeiro, “em fazer o seu primeiro”, em fazer pela paixão ao clube primeiro, depois nas pessoas que discordava. São tempos sombrios no entorno do clube, mais cinzas que as cadeiras da majestosa baixada da copa, e igualmente “com aquela cara de inacabado” que a primeira arena tinha lá na foto acima.