aquele sobre o horizonte

tem duas histórias.

santo antonio da itinga, ao norte do norte do interior de minas gerais, onde a lua nem cabe no céu, tinha bem umas 200 pessoas, ou menos, nessa época. era feita macondo, existindo mais para a imaginação do que para pessoas que acreditavam que ela existia, de verdade. tinha lá a igrejinha, de portas e janelas azuis; os pés de castanheira para amarrar os cavalos de quem chegava ou só passava, bares e mais bares de, muito, um cômodo só; um rio que quando enchia não deixava ninguém atravessar e tinham as crianças.

eu era uma delas.

terminada a missa, o encontro de todas e todos num povoado feito assim, a gente pegou carona com o padre, num fusca, para chegar até outro povoado. era longe para ir a pé. no meio do caminho, o fusca, com meus pais, minha irmã, eu, o padre e ainda deus, caiu num buraco. lá, buraco em rua chama barroca. e rua que fica fora da cidade, rodagem.

e aí tinha os adultos lá, tentando entender se havia no carro força o suficiente para tirar o pneu do fusca de dentro da barroca naquela rodagem que ligava santo antonio a santa cruz. e não havia. e ligava carro, e saia gente, e fazia peso, e nada. crianças, minha irmã e eu, só ficávamos mesmo era na torcida, que é a função de criança quando coisas de adulto exigem força.

e daí que seu kelé, meu avô de pai, vinha subindo a cavalo, nos acompanhando. estávamos indo para a casa dele. foi que mexeu no chapéu, desceu do cavalo, meteu a mão nos bolsos da calça mais nova e bonita que uma missa de domingo merece, num lugar como santo antonio é, e falou que não, não daria pra tirar, se não tivesse mais gente pra ajudar. que ele sempre via isso acontecendo, que era preciso gente nos quatro cantos do carro, levantando tudo junto o fusca. e o padre lá, teimando que dava sim, era só acelerar. seu kelé virou, subiu no cavalo e voltou à santo antonio para buscar ajuda. saiu sereno no caminho volta. era meio da tarde.

daí a uns 15 minutos, por obra de uma pedra que serviu de alavanca, o fusca saiu do buraco. e começou a conversa: seu kelé foi buscar ajuda, voltou tudo até lá, esperamos? e o padre, que andava ansioso para chegar logo ninguém sabe por qual motivo, convenceu os adultos do carro a seguir viagem.

fui o caminho pensando isso, com aquela poeira toda subindo na janela: meu avô chegando em santo antonio, encostando nos bares de um cômodo só, se muito, a cavalo, dizendo sem nem descer o que aconteceu, recebendo não de algumas, sim de outras, até conseguir reunir força suficiente para tirar o fusca do buraco. e depois ele chegando lá, com mais 4 ou 5 ajudas, e não tendo fusca algum em buraco algum. e como será que ele se explicou a quem aceito ajudar? e como será que foi ter continuado mais uma hora e meia, a cavalo, sozinho, até chegar em santa cruz? e como será que ele se sentiu por ninguém ter o esperado?

eu estava na varanda da casa dele, de porta e janela azul, já no finzinho da tarde. já tinha tomado café, comido bejú. no horizonte, onde a rodagem virava rua, vinha um homem a cavalo, sereno, cumprimentando todas e todos pelo chapéu, que quase não parava na cabeça. chegou, entrou pela cozinha. eu encostei na porta, e ele contando: quem aceitou ir ajudar a tirar o fusca da barroca, primo e filho de quem essas pessoas eram, as histórias que essas pessoas lembraram no caminho, enquanto dizia pra minha avó: eu só aceito um tiquim de café, preciso tomar um banho que só tenho é poeira na roupa.

o chapéu posto no joelho, o sorriso que não esqueço.

foi quem disse assim, pro meu pai, quando eu nasci: este aqui vai trabalhar na sombra, não vai trabalhar no sol feito eu, não.

“mas se não caem pingos de chuva
meu deus, o que se fará?
guardar a enxada é perder a luta
eles não vão se entregar”
vulto na estrada I amado batista

seu quilone, calça cinza, social, e camisa azul, social, morando numa das últimas casinhas da mesma santo antonio, agora, já mais existido. antes, viveu uma vida inteira na casinha virada pro por pôr do sol, 40 minutos a pé dali, subindo uma montanha grande, com uma cancela lá no alto; quase tocando deus. criou os filhos e filhas neste lugar aí. lugar mais mágico que alguém de 8 anos nunca pensou poder imaginar, mas viu, e eu vi.

mesmo depois de tanto tempo, de tanta vida, de tanta luta, seu quilone acordava mais cedo que os dias. bebia seu café, saia quase tateando a rodagem que conhecia mais que qualquer coisa, e rumava para a roça. ficava lá algumas horas: ele, a suaterra, os bichos que alimentava, as plantações que sempre teve. uma manhã toda.

depois voltava, almoçava, bebia um xícara de café e existia pro sono. sagrado. fim da tarde, mesmo ritual: pegava a serra, ia ver a sua terra, os bichos que alimentava, as plantações que sempre teve.

teve uma dessas tardes, a gente lá, encostado na calcada da casa dele, olhando aquele céu azul de nenhuma nuvem, no meio da tarde de dezembro. isso foi o quê, 2014? acho que foi. a gente sentado, sem precisar de falar nada. ele olhando assim e disse: é, acho que mais uma semana chove. e eu: — é vô? como o senhor sabe? e ele contou que as nuvens, lá longe, vinha de um lugar que não lembro. e que quando as nuvens vem deste lugar, neste época do ano, e nesse formato, era sinal de chuva.

_ mas vô, aqui não anda chovendo muito né? eu estava vendo as pessoas reclamando disso.

_ parou de chover quando vocês começaram a sair daqui, a ir pra cidade, antes chovia. mas aí vocês são sabidos demais né, inventam coisas demais, mexem em tudo na natureza, e conseguem até fazer a chuva para de chover no tempo dela.

conseguem até fazer a chuva para de chover no tempo dela.

“estão plantados na terra
como raízes ao chão
vão doar seu sangue a ela
e também seus corações”
vulto na estrada I amado batista

seu kelé e seu quilone já partiram.
o mundo foi insuficiente para a existência deles.