[que alguém que vem de onde nóis vem]

leia com desconfiança.


foi a mariana belmont quem primeiro falou sobre isso, outro dia, lá atrás, e desde então eu não tenho pensado em outras coisas longe: quando chamam alguém das periferias para falar em algum espaço, para participar de algum debate, em geral há uma expectativa de até onde este discurso vai. e ele não pode passar do terminal de ônibus do bairro de onde a pessoa veio, em geral. explico.

eles querem que alguém
que vem de onde nóis vem
seja mais humilde, baixe a cabeça
nunca revide
 finja que esqueceu a coisa toda
[mandume]

a mariana manja muito sobre áreas de conservação. andou boa parte da vida se equilibrando entre este tema, esta área de estudo e de luta, e a do direito à moradia, do universo da habitação urbana. ou seja, ela sabe do que está falando quando fala, existiu no tema de dentro para fora e compreende as dinâmicas destes campos. tem que num encontro de sala grande, se por algum motivo ela começar a falar, a leitura automática é que ela narrará a partir de uma experiência pessoal e territorial, não temática. e só.

entende?

a expectativa, e isso tem sido percebido por ela em diversos momentos, é que ela traga ali uma contribuição não como uma especialista, alguém que estuda aquele tema, mas que conte a sua vivência, narre um olhar tendo como ponto de partida as periferias de onde veio.

compreende a dinâmica?
especialista e referência no tema não mora onde a gente mora.
especialista e referência no tema não vem de onde a gente vem.
a gente tem vivência e contribuições importantes na área. e só.

isso parece ser a crença de algumas pessoas nestes espaços. e tem também um outro fenômeno, que este tenho percebido e sentido na existência dos meus dias, mesmo. para além de não necessariamente ser validada como uma especialista, ponhamos assim, tem que parece existir um recorte temático das áreas de apaixonamento.

tipo:

não é de ontem que algumas pessoas ficam espantadas quando eu conto sobre como desenhamos uma metodologia de formação de juventudes em comunicação, a partir de uma perspectiva antroposófica. no campo limpo. geralmente, cara de espanto, a pergunta é: nossa, mas como você aprendeu sobre isso? ou: a do rudolf steiner mesmo?

pergunta: quando duas pessoas que não vieram das periferias falam sobre isso, acontece a mesma surpresa? das vezes em que presenciei, não. é naturalizado que saberiam falar sobre algo assim. naturalizado.

dos dois modos, ao menos numa leitura de anos vendo isso acontecer diante dos meus olhos, existe surpresa: ou a de que este tipo de conteúdo não é bem um tipo de conteúdo que é acessado aqui, lá brasilândia, do outro lá, parelheiros, e mais outras periferias; ou, o um espanto de que algumas e alguns de nós tenha buscado outras referências para além daquelas que, historicamente, foram colocadas como sendo para:

os mais pobres
os desfavorecidos
os desprivilegiados
os vulneráveis socialmente
o público alvo do meu próximo edital.

não é de hoje, também, que andamos escutando por aí: nossa, mas você não tem cara de quem mora na periferia. ou: caramba, você é muito bem articulado, você fez faculdade onde? e tem mais essa, que é ótima: ah, mas o campo limpo nem é tão periferia assim, né, deve ser por isso que lá acontece tanta coisa legal.

viu? existe um imaginário, que constrói uma leitura de mundo, que dita o lugar social de quem de nós na sociedade, que resulta nessa violência aí de cima, que reforça estereótipos, que valida violências, fortalece privilégios, que gera ainda mais violências para todos os lados.

sim, quando você se espanta que alguém que vem de onde a gente vem tenha criado uma rede de lojas, ou de escolas, ou sabe citar foucault, inclusive pronunciando corretamente o nome dele, acredite, você está cometendo uma violência. o espanto não deveria ser pelo acesso, mas por muitas e muitos de nós termos este direito negado estruturalmente.

não seja essa pessoa.