Arco-Íris Duplo.

– Você realmente gosta dessa música? — Alberto não gostava de admitir que nem todo mundo gostava das mesmas coisas que ele. Era duro pensar que Aurora realmente estava ouvindo Justin Bieber, depois de tudo aquilo que haviam passado em 2010, juntos aos vídeos do Felipe Neto.

– Mas esse disco novo é bom, eu juro! — Aurora não gostava de acreditar que seu amigo, tão inteligente, estava sendo tão infantil — Ouve só essa música, eu juro que você vai gostar.

Beto detestou a música. Aurora riu dele tentando argumentar sobre a superficialidade da indústria fonográfica atual. Ele parecia o Felipe Neto em 2010. Ou ela própria, em 2010, falavam as mesmas coisas. Não que tenha parado de ouvir Beatles ou Smiths, só que ela aprendeu a ouvir Beyoncé e o tal do disco novo do Justin Bieber. O disco é bom, poxa.

Um homem de terno se aproxima com uma bandeja de metal. Geralmente, essa é a descrição de um garçom. Dessa vez não foi diferente — depois de uma manhã no sol de quase dezembro caminhando pela orla, pararam em um botequim para comer alguma coisa. Arroz, feijão e batata. O que falta? A farofa. Já tá vindo. E as caipirinhas também.

O dia estava ótimo, e os dois estavam de férias. Beto não precisava mais se importar com epidemias tropicais, com a democracia na América Latina, com o Estado Islâmico ou com o movimento nacionalista hindu. Estava de férias.

Aurora não precisava se importar com a semântica, com a semiótica, com a inimaginável gramática das línguas urálicas ou com o fricativo velar surdo labializado. Estava de férias.

Eles só queriam curtir aquela caipirinha enquanto olhavam para as pessoas na praia. E, obviamente, capturavam aqueles pokémons raros que estavam passeando pela calçada de Ipanema.

O celular de Beto toca. Toca a introdução de “Lucy In The Sky With Diamonds”. O nome estampado sobre a foto de uma menina ruivinha, com olhos azul-claro sorridentes é Helena Petrov. Aurora, com um ar de desconfiança, ajeita seu chapéu e põe seus óculos escuros pendurados na gola da camisa. Helena, pelo que parecia, estava com alguma outra pessoa do sexo masculino, e queria companhia. Beto apoia o celular no ombro esquerdo.

– A Helena pode vir e trazer o sobrinho Tiago, de sete anos?

– Claro! A gente pode ir para a sua casa depois. Pode?

Beto ri. Claro que pode, porra. O dia estava ficando meio nublado. A comida estava muito boa. Eles pedem a conta para o homem de terno. Ele traz a maquininha. Beto e Aurora dividem pela metade e vão andar para o posto 8, onde foi marcado com Helena. No caminho, Beto para, mudo, e sobe num slackline.

– Alberto, você vai cair daí.

Beto, obviamente, não deu ouvidos a Aurora. Beto, obviamente, caiu. Não se machucou, mas Aurora gargalhou e ele ficou meio puto. Correu para uma barra de exercícios e, teimosamente, fez força para subir. Um, dois, queda. Só conseguiu fazer duas repetições. Aurora não se aguentava de tanto rir.

– Volta pra Integração Regional, Alberto.

– Vai lá você, então! — o garoto estava estranhamente irritado com sua ausência de aptidão esportiva. O bíceps de Aurora fica evidente conforme a menina puxa o peso de seu corpo para cima, um, dois, três, quatro, cinco. Pendurada:

– Quer mais ou já tá bom?

Alberto está boquiaberto. Murmura, relutantemente:

– De onde você tirou isso, menina?
 — Eu malho, ué. Você não malha?

– Malho. Você malha?
 — Malho.

Beto fica em silêncio por alguns segundos e só consegue rir depois disso. Olha quem vem lá: a ruivinha Helena Petrov e seu sobrinho Tiago de sete anos.

– E então, galera? Tudo certo? — Tiago estava muito compenetrado no seu celular. Aurora percebe a linguagem corporal — e o movimento dos dedos — do menino e já saca o seu celular.

– Dragonair! — era um pokémon raro.

Tiago ri, envergonhado, e pergunta:

– Você também quer ser uma mestra Pokémon?

Os três adultos riem da fofura do garoto.

– Quero! E você?

– Eu já sou um mestre Pokémon. Eu dominei todos os ginásios lá perto de casa.

Tiago fazia gestos empolgados com as mãos. Ele era um amor de menino.

– E aí, vamos tomar uma água de coco? Enquanto isso, você pode mostrar todos os seus pokémons pros meus amigos. Esses são o Beto e a Aurora.

Os três novos amigos sentam numa mesa de madeira enquanto Helena compra quatro cocos. Tiago mostra, muito animado, todos os seus pokémons. Eles três se engajaram em uma conversa inimaginável. Esse tal de Pokémon estava unindo gerações.

Conforme os quatro iam bebendo a água que estava dentro de seus cocos, regados a perguntas como “como a água foi parar dentro do coco?” e “por que quando chove e faz sol ao mesmo tempo se forma um arco-íris?”, as nuvens esparsas começavam a chover sua chuva, e durante a explicação de Helena, que estava se formando em geografia, a luz do sol ia refletindo e dispersando pelas gotas que caiam do céu e formando um arco-íris no horizonte.

Mas não era qualquer arco-íris. Era um arco-íris duplo. Tiago entrou em êxtase e sua tia tirou uma foto para postar pelas redes sociais. Na verdade, todos presentes entraram em êxtase, afinal, era um arco-íris duplo, cara! Não importa que “sol e chuva é casamento de viúva”, a parte da chuva os impedia de permanecer na praia, e como já estava ficando tarde mesmo, foram para a casa de Beto.

O prédio é imenso. Tiago estava maravilhado. Helena também, para ser franco, ela nunca tinha ido na casa do amigo. Beto cumprimenta o porteiro, seguido dos outros três. Adentram o elevador luxuoso e Beto aperta o botão 24. O elevador abre e uma sala de estar extremamente clara, com mobília toda branca e um fofo carpete acinzentado cobrindo o chão se revela. O elevador dava dentro da casa de Beto, o que deixou o menino Tiago mais eufórico ainda. Na mesa, a mãe de Tiago, uma outra mulher, pães, frios, queijos e vinhos.

– Oi, filho! Trouxe companhia? — Beto estava um pouco preocupado com a presença de uma amiga de sua mãe, mas o ar extremamente calmo de sua mãe ao abordá-lo o acalma também. A companhia, afinal, não estava atrapalhando nada importante ou algo do tipo.

– Trouxe sim! Essa aqui é a Helena e o sobrinho dela, o Tiago.

Aurora, evidentemente, dispensava apresentações, curiosamente, até para a amiga de sua mãe, posto que frequentava a casa de Beto com mais frequência que a casa da própria mãe.

– Oi, meu nome é Denise — disse a mãe de Beto, ao dar os dois beijinhos em Helena — e essa aqui é a Helena.

– Meu nome também é Helena!

– Ah, que coincidência! — diz a Helena mais velha.

Conforme as meninas começavam a conversar mais empolgadamente, Beto ia se instaurando no sofá branco confortável. O sofá era de couro, bem espaçoso, tinha umas almofadas de seda, e o ar ligado, e o barulhinho da conversa, e o dia cheio fizeram ele dormir. Tiago estava capturando pokémons que estavam por ali e foi convidado por sua tia a comer um pão com presunto. Ele aceitou o lanche, e Denise oferece vinho a Aurora e Helena.

As meninas aceitam e continuam conversando sobre diversos assuntos — o primeiro deles foi um filme finlandês que a amiga de Denise tinha visto outro dia desses, e foi pra Natal, porque Aurora disse que o Papai Noel mora na Finlândia, e afinal, o Natal está chegando. Helena, a estudante de geografia, rebateu dizendo que a verdadeira morada de Papai Noel é muito discutida por governos de verdade, e que o Canadá já deu cidadania, apesar da Dinamarca dizer que ele mora na Groenlândia, sob sua soberania. A Finlândia, no entanto, possui o argumento mais forte, pois eles construíram uma Vila do Papai Noel na cidade de Rovaniemi.

Ficaram falando sobre Natal até que Denise resolveu convidar todas presentes para a cobertura. Aurora e Helena, sendo garotas prevenidas, trouxeram roupas de banho caso quisessem mergulhar no mar. Mas uma piscina numa cobertura não era, de forma alguma, uma má ideia.

Tiago estava muito entretido com seu celular, mas também tinha uma sunga pra ele. Todos subiram as escadas espirais iluminadas com uma luz azul turquesa para a incrível cobertura, levando um pouco desastradamente toda a comida e o vinho. No banheiro, uma por uma se vestiram e foram para a mesinha iluminada por fracas luminárias, velas e estrelas. Ingerindo pães, frios, queijos e vinhos, permaneceram perdidas em uma conversa que parecia não acabar.

Em determinado momento, Beto sobe, furioso:

– Porra! Vocês sumiram! Eu tava procurando vocês!

E Tiago retruca:

– Olha a boca!

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