A Célula Imortal

Livro costura linhagem HeLa de células cancerígenas a suas implicações médicas, científicas, sociais, raciais, éticas e históricas


“Se buscamos a imortalidade, num sentido muito perverso a célula cancerosa também busca.”
Siddhartha Mukherjee, no livro O Imperador de Todos os Males — Uma Biografia do Câncer

Em 1988, uma americana de 16 anos assistia a uma aula de biologia numa faculdade comunitária. Reprovada por faltas, precisou sair da escola e procurar alguma outra que lhe permitisse repor as disciplinas perdidas. O professor falava de células e da divisão delas, por mitose. Sem entender muita coisa, ouviu-o, na sequência, dizer que o câncer era um descontrolado processo de divisão celular, motivado por mutações no DNA. Num determinado momento, o professor escreveu no quadro um nome, que a jovem jamais esqueceria e que mudaria sua vida: “Henrietta Lacks”.

Ali, enquanto ouvia sobre Henrietta e suas células, Rebecca Skloot foi tomada por uma curiosidade implacável. Quem foi essa mulher? E seus familiares? Eles sabiam que as células cancerosas dela ainda estavam vivas e eram estudadas em todo o mundo? Como isso afetou a vida dos Lacks? Afinal, quem eram os Lacks? Onde moravam? O que ganharam com a importante contribuição de Henrietta para a ciência?

Vinte anos depois, cerca de dez só de pesquisa, Skloot publicou o livro que respondia a todas essas questões: A Vida Imortal de Henrietta Lacks. Nele o leitor pode conhecer com profundidade uma das histórias mais surreais, trágicas e vitoriosas da medicina e da ciência no século XX.

Células e mais células. Cancerosas. Infinitas. Multiplicando-se. Aos bilhões. Trilhões. Milhares de toneladas ao longo de cinquenta anos. Uma linhagem de células chamada HeLa. Sua origem? Henrietta Lacks, morta em outubro de 1951.

Skloot juntou as peças que faltavam e reconstituiu a vida da protagonista, a origem da história de suas famosas células e o impacto que elas tiveram na ciência e na família Lacks. Simplesmente mais de 60 mil artigos científicos foram produzidos tendo as HeLa como base das pesquisas. Sua importância histórica é notável:

• Subiram ao espaço nas primeiras viagens da corrida espacial para se avaliar como células humanas se comportam em gravidade zero;
• Usadas em pesquisas que levaram à descoberta da vacina contra a poliomielite;
• Fundamentais desde o início nas pesquisas com o vírus da aids (HIV) e com o do papiloma humano (HPV);
• Receberam todo tipo de radiação, inclusive as nucleares, a fim de se estimarem os limites suportáveis para o corpo humano;
• Passaram por todo tipo de engenharia genética;
• São necessárias até hoje para pesquisas de combate ao câncer.

Cultura de células HeLa com proteína fluorescente para destacar suas organelas. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:HeLa-I.jpg

A trajetória das HeLa começa em Baltimore, no hospital John Hopkins, em 1950. Sentindo muitas dores, uma mulher negra, na faixa dos 30 anos, descendente de escravos plantadores de tabaco, procura os médicos do hospital e é diagnosticada com câncer. Uma amostra da biópsia do tumor é enviada para o laboratório do cientista George Gey. Um dos trabalhos que Gey desenvolve nesse mesmo período é tentar manter vivas células humanas fora do corpo para serem usadas em pesquisas, o que até então era algo caro, trabalhoso e infrutífero.

Células humanas sadias não conseguem se dividir infinitamente. Há um limite, conhecido por Limite de Hayflick: conforme se dividem, as extremidades dos cromossomos das células, chamadas telômeros, vão diminuindo. A cada nova divisão, o encurtamento dos telômeros tira a capacidade de a célula se dividir normalmente, criando gerações de células envelhecidas até o ponto em que não se dividem mais.

Cultivar células humanas fora do corpo era um enorme desafio científico na época dos experimentos de Gey, em razão da dificuldade de reproduzir o meio ideal para mantê-las vivas e multiplicando-se.

Assim que chegaram ao laboratório de Gey, as células de Henrietta ganharam o rótulo de HeLa — as iniciais de seu nome. Elas eram tudo o que se procurava: resistentes, dividiam-se de maneira prolífica e sobreviviam em culturas de fácil manejo. Ao contrário das comuns, as células HeLa produzem uma substância chamada telomerase, que, a cada divisão, renova os telômeros, fazendo com que se dividam e multipliquem muito além dos limites biológicos.

Nascia a linhagem mais famosa de células humanas e um dos episódios mais incríveis da cultura médica.

Além de abordar as discussões científicas e médicas, a autora do livro se mostra extremamente sensível a questões raciais, sociais e éticas envolvidas no tema. Henrietta foi atendida na ala para negros do John Hopkins, segregação comum nos Estados Unidos daquela época. Suas células foram colhidas para uma biópsia, mas ela não foi informada de que seriam testadas por Gey — e muito menos dera consentimento para isso. Até a década de 1970, sua família nunca soube que as células da matriarca viviam espalhadas por laboratórios de todo o mundo e que havia quem ganhasse dinheiro cultivando e vendendo as HeLa.

Skloot se aproximou da família Lacks e criou um vínculo pessoal, principalmente com a filha Deborah. É ao lado de Deborah que ela praticamente revive a história dos Lacks, passando inclusive por experiências espirituais, como quando presencia um ritual gospel de aparente “exorcismo”. Ou quando, mesmo sendo cética, a escritora começa a considerar uma série de coincidências apontadas por Deborah como intervenções espirituais de Henrietta, já que essa ainda se mantinha “viva” para a filha na sua linhagem de células imortais.

A parceria entre as duas permitiu recontar a ascendência dos Lacks e a vida de Henrietta desde sua infância.

A Vida Imortal de Henrietta Lacks é competente ao unir investigação e reconhecimento, e surpreendente ao tirar uma sigla do anonimato e edificá-la numa pessoa humana. Aborda temas delicados e costura a linhagem HeLa à história pessoal de sua origem, uma família pobre de Baltimore, e à evolução da ciência nos últimos cinquenta anos, não só da perspectiva científica, mas também da ética e da moral.

Capa do livro no Brasil

A Vida Imortal de Henrietta Lacks — Rebecca Skloot
Tradução de Ivo Korytowski
Companhia das Letras, 2011
454 páginas

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