Como Medir A Beleza Que Ainda Não Se Conteve?

Uma reflexão a partir da vida de duas estrelas e um travesti anônimo


Texto publicado em 2002 no meu blog pessoal e republicado em 2014 no livro Torniquato


Meses atrás assisti a um documentário sobre a vida de Judy Garland. Apresentava toda a vida da atriz, cantora e dançarina. Ela começou cedo. A mãe sempre incutiu na menina o desejo pela fama, pelo reconhecimento, pela explosão do talento — que era, na verdade, o desejo da mãe. O apoio materno não vinha apenas do incentivo moral; vinha também do químico: fazia que a filha, desde os dez anos, tomasse remédios para emagrecer. E a fazia dançar e cantar exaustivamente. A perfeição era o mínimo.

Aos quatorze, quando ficou mundialmente conhecida por fazer a garotinha Dorothy Gale em O Mágico de Oz, ela já era dependente dos remédios para emagrecer e, agora, dos para dormir. O depoimento de uma amiga mostrou que isso evoluiu para uma total necessidade de remédios, já não só para emagrecer e dormir, mas também para se manter acordada, para ter fome, para tudo…

Na cidade em que moravam antes de ir com a mãe para Hollywood, o pai era mais conhecido por abusar de garotos. Mudando-se para a capital da luxúria e ganhando fama com o filme, ela se tornou uma jovem estrela. Era uma menina que, desde os dez, tomava remédios e agora, aos quatorze, entrava de cabeça no mundo do showbiz. Como lembrou um agenciador de atores da época, contratos na década de trinta eram celebrados e simbolicamente assinados com sexo entre atores, produtores e donos de estúdios. Eram orgias que aconteciam entre atrizes famosas e poderosos da indústria.

Um dos entrevistados contou que, quando Judy, lá pelos seus quinze anos, terminava um dia de gravação ou uma apresentação de dança, o presidente da Metro Goldwyn Mayer a chamava na sua sala, colocava a mão no seio dela e dizia “Parabéns, Judy. Hoje você cantou com o coração”. Isso a deixava extremamente constrangida e chateada. Esse singelo “cumprimento” do senhor presidente da companhia onde ela trabalhava foi repetido por anos. E dá-lhe mais remédios, agora para a depressão. Até o dia em que, mais grandinha, quando o executivo repetia o gesto, ela lhe segurou a mão que estava em seu seio e disse firme “Obrigada. Mas o senhor nunca mais vai colocar a mão aqui!”

Aos dezesseis ela se apaixonou por um ator. Veja que, mesmo bem jovem, ela tinha contato com todos os galãs da época. Ficou amiga dele. Grandes amigos. Apaixonou-se perdidamente. E sofreu muito quando o viu com outro homem e descobriu que ele era gay.

Depois conheceu outro ator. Casou-se e vivia muito feliz. Tão feliz que engravidou. A gravidez a deixou radiante. Ainda era muito jovem, não tinha nem vinte anos, e seria mãe. Imagino que carregou no filho toda a dose de esperança que perdera nos anos anteriores. Mas sua mãe a chamou e disse “Judy, não é hora de você ser mãe. Você precisa se dedicar à sua carreira”. Ela ficou sem chão, ainda mais quando o pai do bebê, convencido pela sogra, também recomendou o aborto. Ela abortou.

Judy Garland aos dezoito anos

E todo o documentário foi assim, intercalando picos de belas e incontestes demonstrações de talento com abismos profundos de pura tristeza da alma humana. Velha, antes de morrer, mantinha-se com remédios e bebida. Uma entrevista mostrou aquela senhora toda esticada, com a cabeça se equilibrando no fino pescoço, excessivamente maquiada, branca, falando palavras sem nexo, quase frases sem significado, respostas frias. Parecia sem alma. Sugada. O contraste entre a menina radiante e dançante dos filmes, cantando alegremente, e a velhice derrotada, exaurida, foi chocante. Isso me deixou bastante triste.

Pra meu azar, ou sorte, logo depois desse documentário começou emendado um sobre a vida de Billie Holiday. No que não têm de iguais, são complementares. Contam a vida de mulheres talentosíssimas, vítimas do mundo que sempre conquistavam com o talento. Talento nato, que vazava pelos poros.

Billie também começou cedo. Cantava em bandas de jazz, daquelas só de negros, com vários membros. Era década de quarenta. O preconceito nos Estados Unidos era institucionalizado, com banheiros para negros, lugares só para negros e todo um apartheid maldito. Sendo homem e negro, você já era discriminado. Sendo mulher e negra, então, você era a escória da humanidade. Ela tinha dificuldades para acompanhar a banda, pois alguns estabelecimentos aceitavam apenas os músicos, mas não ela. Tinha que ficar de fora. Outros a deixavam entrar, mas assim que a apresentação acabasse, ela tinha que sair, sem demora. Mas ela era uma batalhadora. Fazia descaso do preconceito e seguia em frente. Passou por várias bandas, até conhecer um saxofonista que se tornou seu maior amigo e passou a se apresentar com ela. Dizem que os duetos dessa parceria eram arrebatadores. Na época eles não eram os músicos que viriam a se tornar nem imaginavam a vida madrasta que teriam.

Dali para frente Billie só crescia, só ficava mais conhecida, até passar a ser aclamada. Alcançou a fama. A parte musical é a que menos se tem para falar, já que é sua contribuição mais evidente e imortal. Na parte pessoal, tudo caminhava para o caos, para a autodestruição.

A começar pelos namorados e maridos que passou a arranjar. Críticos e biógrafos se impressionam pela “preferência” dela por homens violentos, bêbados e viciados. Foi com algum deles que ela entrou para o mundo das drogas, do qual faria parte pelo restante e maior parte da vida. Cocaína, heroína, maconha, álcool. Era tudo. E junto. No auge, tudo o que ganhava gastava com essas substâncias. Não havia meio termo. Era sempre o pior. Se era para se drogar, que fosse com a pior droga ou com a maior quantidade. Se era para casar, que fosse com o pior homem, o mais violento, que batesse nela, que acabasse com ela.

Sabe-se lá por qual sorte uma pessoa leva a vida assim. E ela ia levando. Gravando álbuns, viajando, cantando. Mais vivia, mais fama alcançava. Chegou a fazer dois filmes. Nos dois foi uma empregada. Em um deles, uma empregada que tocava piano. Foi presa uma, duas, três vezes. Todas por porte de drogas.

Seguia sua vida autodestrutiva, apanhando do marido que lhe quebrou o braço, separando-se, arrumando outro bruto. Um crítico contou que, quando jovem, ela disse a seu pai que os homens de uma linda mulher como ela eram todos de muita sorte. O pai olhou para ela e disse que se estava feliz assim por conta de homens é porque deveria experimentar uma mulher. Billie saía com mulheres, homens, drogas, uma cantora negra. Ao mesmo tempo em que tudo conspirava para reprimi-la, ela era uma grande transgressora. Resumia em si tudo o que a época considerava deplorável, e prosseguia.

Ao final da vida, a saúde já não aguentava a mesma carga de emoção que carregava. Começaram os problemas. Uma das últimas apresentações ao vivo foi um especial em um programa de jazz da tv. Entre os músicos estava o primeiro grande parceiro, o saxofonista amigo. Depois de mais de trinta anos estavam os dois lá, acabados. Ele segurando o instrumento com as pontas dos finos dedos para evitar a frouxidão de seus sopros. E ela carregava na voz o peso de toda uma vida. Uma vida conturbada. Morreu presa em um hospital, pois fora novamente pega com drogas.

Uma das últimas apresentações de Billie Holiday na tv

Ver esses dois documentários me deixou profundamente depressivo. Eu estava a ponto de chorar, não só quando terminei de vê-los, mas enquanto os via. Via tanta beleza, mas tanta beleza na vida dessas duas mulheres que, quanto mais beleza eu via, mais tristeza sentia. Não me aguentava em mim. O JP escreveu num conto algo que traduz e sintetiza a vida delas: “Eu quero estar ali, antes da glória e na beira do precipício”.

Enquanto assistia aos documentários, essa frase não me saía da cabeça. A vida delas foi norteada por isso, pois era um constante e torturante passo antes da glória e já à beira do precipício. Como ver isso? Como? Pois quanto maior a glória, maior o precipício. Era ali, dia a dia, que elas se equilibravam. Tanta beleza infinita, tanta desgraça infinita. Juntas, ligadas, intrínsecas.

Um outro documentário que vi, bem antes desses dois, mostrava a dificuldade que sanitaristas nos Estados Unidos têm para tratar da limpeza de cadáveres de pessoas que morrem sozinhas em casas. Grande parte desses casos era na periferia, nos bairros de baixa renda, onde famílias de negros de classe média baixa dividem prédios com travestis, prostitutas, viciados, aidéticos. São bairros onde mora a parte dos seres humanos considerada deplorável nas grandes cidades. É um dos efeitos do mundo caótico em que vivemos, que faz questão de isolar, ignorar e entregá-los a um destino cruel.

Todas essas considerações estavam implícitas no documentário, pois o que se via eram líquidos cadavéricos escorrendo pelos colchões, impregnando tapetes, e homens vestidos de roupas especiais tentando limpar e esterilizar o local da morte. A parte nojenta foi quando o líquido, esse chorume de tripas desfazendo-se, infiltrou-se pelo chão do apartamento do morto e pingou pelo teto do vizinho de baixo. O detalhe é que a goteira tétrica dava em cima do ventilador que girava, espalhando a substância fétida por toda a sala, até às paredes, em um dia qualquer de calor.

Mas foi o final que me surpreendeu, justamente pela falta de cientificidade e pela exposição do que antes descrevi como que estando implícito. Os sanitaristas foram chamados para limpar o apartamento de um travesti. Era uma casa completa, com armários. Ele morrera havia mais de três meses, vítima de infecção generalizada, enfraquecido pela aids. O fedor fez os vizinhos chamarem a polícia. A polícia chamou então os sanitaristas para limpar o lugar e deixá-lo pronto para novamente ser alugado. O que fora o homem era então uma mancha no colchão. Ele morreu ali. Tudo seria incinerado por causa do risco de contaminação, infecções. Retirados os restos orgânicos, sobram os móveis, as roupas, as fotos, o diário, as cartas que o morto recebeu enquanto vivo. Sobrou uma vida.

E remexendo nesses restos, o sanitarista começou a chorar. Ele não entendia por quê. Disse que era difícil ignorar que ali viveu alguém, um ser humano rejeitado pela sociedade por ser um travesti, vítima de um preconceito cego. Morreu ali, na própria cama, sozinho. “Quem ele foi? Quem eram seus pais? Seus amigos? Nunca saberemos…”, ele soluçava. E, também ali, vendo o programa, comecei a enxergar muita beleza. E fiquei triste também. Afinal, faziam sentido todas as questões. Quem era ele? O que vivera? O que queria? O que lhe acontecera antes de tudo o que foi ali filmado? Amou?

Só há beleza naquilo que termina.

05/12/2002