
Lições dos Meus Fracassos na Redação do Enem
E duas sugestões para o Ministério da Educação aperfeiçoar a transparência do exame, diminuindo a desconfiança do candidato mal avaliado
“Em primeiro lugar é preciso ter em mente o que o examinador espera da sua redação: ele espera do aluno uma visão crítica, o que significa basicamente ter uma visão o mais parecida possível com a dele.” — Zambininha
Sonhando em voltar para uma faculdade específica, prestei o Enem em 2013 e 2014. Apesar de não ter conseguido, ainda não abandonei esse desejo. Nessas duas vezes inesperadamente fui bem melhor do que esperava em todas as áreas avaliadas, ainda mais por não ter me dedicado com afinco ao estudo.
Quer dizer, fui bem, mas não na área em que esperava me sair melhor: redação.
Já adulto, agora aprendi que não sei escrever o suficiente para ser bem avaliado na redação desse exame. As últimas redações que fiz para vestibular, entre 1999 e 2002, me deram acesso a algumas das melhores universidades do país, e por pura vaidade achei que agora não seria diferente…
Para a prova de 2013, pedi dicas ao meu primo, que fora aprovado em algumas universidades públicas depois de um ano no cursinho. Na nossa conversa amena via Facebook, me lembro de ele ter dito para eu ser propositivo. E também para pensar em algum título espertinho, que demonstrasse sagacidade, talvez com algum trocadilho.
2013
Assim, esta foi minha redação para o tema “efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil”, proposto naquela edição:
Responsabilidade Ainda Que Tardia
O álcool é uma das drogas mais antigas consumidas pelo homem e está associado a liberdades individuais pois, respeitando-se os limites legais para o consumo, todo adulto ingere essa droga por vontade própria, recreativamente. Assim como o transporte automobilístico, que também se relaciona com a liberdade de ir e vir segundo a vontade e a consciência de cada indivíduo. Se a mistura dessas liberdades causa prejuízo à sociedade, era mesmo de se esperar que o Estado desse respostas agressivas, com leis mais duras para punir quem bebe e dirige.
A diminuição de acidentes após essas medidas mostra que há formas de difundir a responsabilidade na prática de liberdades individuais, ou seja, é possível compartilhar a ideia de que o consumo de drogas recreativas pode prejudicar outras pessoas. Com leis, campanhas educativas e a noção de que é preciso ser responsável coletivamente quando tomamos algumas decisões individuais, o governo e suas instituições apontam para um novo e melhor caminho para a sociedade e seu consumo de drogas.
Atualmente, a Ambev, maior fabricante de bebidas alcóolicas do país e do mundo — como sócia da transnacional Inbev — “disputa” com a Petrobras o título de empresa mais valiosa do Brasil, provando que é possível ganhar muito dinheiro com a venda de drogas legalizadas.
Assim, espera-se que um dos resultados trazidos por leis e campanhas educativas para o trânsito e a bebida possa também aprofundar a reflexão de que liberdades individuais, quando revestidas de responsabilidade, nos dão a oportunidade de rever o proibicionismo vigente para outras drogas recreativas, tão ou mais antigas que o álcool, como a maconha.
Minha nota?
480.
Essa nota excluiu toda a possibilidade de eu ao menos disputar uma vaga na faculdade que almejo…
Foi um choque. Estava lá, além do título espertinho com o trocadilho, uma proposição sobre o tema “regulamentação das drogas”: apenas a revisão do proibicionismo.
Enquanto tentava entender o que poderia ter acontecido, decidi dar um passo à frente e me dedicar a estudar redação para o Enem em 2014, para ser mais assertivo na nova oportunidade. Foi o que fiz.
Entre dicas e exercícios, mergulhei também nas redações nota mil de 2013, o que, confesso, me deixou um tanto constrangido: definitivamente a forma como penso e escrevo uma redação é bem distante das que são mais bem avaliadas no exame.
2014
Claro que as reflexões me levaram a identificar alguns defeitos na minha redação, como fuga do tema e falta de coesão (o parágrafo da Ambev/Petrobras ficou bem deslocado, por exemplo).
Outro problema foi intencional: querer me distanciar das fórmulas, pensando que isso daria algum diferencial. Errei. O Enem conta com as fórmulas de redação (essenciais no momento da correção), e fugir delas foi um equívoco.
De todo forma, para 2014 busquei me enquadrar no esquemão e tentei quase pensar como os nota mil. Dei o melhor de mim, evitei títulos (pelo que dizem, não há desabono nisso…) e o que escrevi para o tema “publicidade infantil em questão no Brasil” saiu assim:
Aos poucos, o Brasil tem se beneficiado dos reflexos de leis criadas para proteger os cidadãos adultos, como as antitabagistas e a Lei Seca. Por que, então, não proteger também as crianças dos impulsos consumistas desenfreados e insustentáveis?
Em sua origem, os direitos fundamentais de crianças e adolescentes pretendem proteger a vida, a saúde e garantir educação para, afinal, formar melhores cidadãos, o que sempre vai impactar no bem de toda a sociedade. É por isso que hoje, conforme as sociedades se desenvolvem, é preciso pensar também na exploração dos desejos consumistas das crianças pela publicidade de empresas e indústrias interessadas nesse segmento, o infantil.
Países como Canadá, Itália, Noruega, Coreia do Sul e até mesmo o Chile, por exemplo, já possuem leis que buscam essa proteção, limitando a exibição de comerciais a certos horários ou a determinadas faixas etárias, proibindo o uso de personagens famosos, como os da Disney, e exibindo alertas para estimular o consumo responsável e a alimentação saudável.
Portanto, o Brasil deve também legislar nesse sentido, ainda que anunciantes, fabricantes e a mídia, que compõem uma indústria bilionária, discordem. A vulnerabilidade de crianças, que ainda não formaram uma consciência social responsável, não pode ser explorada. Sem leis que protejam esse público, o Brasil vai estar na contramão do desenvolvimento sustentável, acompanhando países de tendências liberais, como os EUA e a Austrália, que contam apenas com autorregulações (potencialmente enviesadas e frágeis).
A proteção à integridade física, moral e intelectual das crianças e adolescentes é muito importante para a sociedade, e por isso o Brasil deve adotar dispositivos para isso, como no caso da publicidade infantil. Os anunciantes, a indústria e a mídia, que vivem disso, que evoluam e se adaptem. No médio e longo prazo será melhor para o todo o país.
Minha nota?
780.
Conquistei mais trezentos pontos de um ano pro outro. Ainda assim, não consegui ser selecionado na primeira chamada para o curso. Conto com as próximas — quem sabe? — mas, se não rolar, espero que, fazendo o exame neste 2015, eu finalmente consiga ultrapassar os 800… talvez resvalar num 900?
Quem sabe…
Viés de Esquerda
Não é improvável que existam vieses no processo de correção da redação do Enem. Afinal, ainda que o método de avaliação seja instruído e implementado em cima de tecnicidades, é óbvio que ele não consegue deixar de ser subjetivo — e nunca deixará.
Um exemplo? O avaliado que adota uma posição esquerdista sobre o tema tende a ser mais bem avaliado. Tender à esquerda é, inclusive, uma dica bastante difundida por professores de cursinhos, que chegam a dizer que se, por acaso, o tema for “aquecimento global”, não se recomenda negar que seja causado por influência humana: é mais adequado dizer que não só é antrópico, como os maiores responsáveis são com certeza as potências econômicas (como os EUA e a China) — e nunca países em desenvolvimento ou a própria atividade solar (que também parece influenciar a temperatura na Terra).
Claro que quanto ao aquecimento global, pode haver hoje um consenso popular e até mesmo entre cientistas, mas há outros temas que também recebem dos professores de cursinho o alerta de que é melhor não endireitar na redação: bolsa família, reforma agrária/latifúndios/agronegócio, liberdade de imprensa, violência, Comissão da Verdade etc.
(Aliás, esse viés de esquerda pode ser facilmente identificado na leitura das redações que recebem nota mil. Note ainda que minha redação de 2013 foi um pouco liberal demais e a de 2014 foi bem de esquerda e intervencionista.)
Claudio Haddad, economista e fundador da universidade privada Ibmec, apontou esse viés no Enade em uma entrevista:
O que o motivou a fazer uma prova de conhecimentos gerais para recém-formados?
Meus alunos se saíram mal, e quis entender em que tipo de conhecimento eles patinavam. Passei o olho nas questões em uma cópia do teste. Eram enunciados enormes, que me deram a impressão de conter alto grau de subjetividade. Por isso, resolvi fazer a prova duas vezes. Na primeira, respondi tudo da maneira que julguei a mais correta: na segunda vez, assinalei as opções que imaginei serem aquelas que os avaliadores considerariam acertadas por terem um viés mais ideológico. Resultado: à luz de meus conhecimentos, errei quatro de oito questões de múltipla escolha. Ou seja, um fiasco. Já na versão que fiz com o único intuito de dar as respostas que os examinadores queriam, fui muito bem. Acertei sete. Só errei mesmo uma em que, sinceramente, apesar de ter me detido nela inúmeras vezes, até agora não vi lógica.
[…]
Dê um exemplo de como o viés ideológico aparece no Enade.
Uma das questões que mais me espantaram pede aos estudantes que reflitam sobre ética e cidadania, marcando as definições que expressem bem os dois conceitos. Uma das alternativas diz que, sem o estabelecimento de regras de conduta, não se constrói uma sociedade democrática e pluralista, terreno sobre o qual a cidadania viceja como valor. Está correto. A outra enfatiza que o princípio da dignidade humana é o avesso do preconceito. Também está certo. A zona de sombra paira sobre a terceira proposição, a que o MEC considera correta. “Toda pessoa tem direito ao respeito de seus semelhantes, a uma vida digna, a oportunidades de realizar seus projetos, mesmo que esteja cumprindo pena de privação de liberdade, por ter cometido delito criminal, com trâmite transitado e julgado”. Isso é apenas uma divagação opinativa do formulador da prova sobre como seriam as condições ideais de vida de um preso. Existem maneiras bem mais objetivas e lógicas de testar o conhecimento do candidato sobre ética e cidadania.
[…]
O desprezo pela lógica é o pior defeito das questões do Enade?
A imposição de uma maneira de pensar é igualmente danosa. Uma das perguntas faz uma longa digressão sobre os jovens de hoje, que preferem ficar fechados em seu quarto mexendo no computador e jogando videogame a passear pela praça. O texto prega que a imersão no mundo eletrônico desvia a atenção das crianças dos impactos dos danos ambientais. A prova pede que o candidato escolha o título mais adequado para o texto que acabou de ler. Minha opção foi: “Preferências atuais de lazer de jovens e crianças: preocupação dos ambientalistas”. Errei. Para os avaliadores o título correto é: “Engajamento de crianças e jovens na preservação do legado natural: uma necessidade imediata”. Esse não é o título mais adequado para o texto, aliás de péssima qualidade. O que se tem no conjunto de texto e resposta é uma combinação de subjetividade total com pregação ambientalista. A questão não tenta medir o conhecimento do candidato, mas saber quanto ele está enquadrado na maneira de pensar oficial.
Portanto, jovem ou velho redator do Enem, não queira exibir seus próprios ideais: vista a camiseta do Che Guevara e suas sandálias no dia da prova, ainda que, ao sair dali, você discorde do que escreveu.
Duas sugestões para aperfeiçoar a transparência do exame
Estas sugestões, se implementadas, aumentariam sobremaneira a transparência do Enem e botariam de lado qualquer desconfiança de quem, como eu, se dá mal na redação.
- Na divulgação das notas, informar em qual estágio o redator recebeu a nota, pois no processo atual não é possível saber se a nota final foi alcançada na primeira correção, na segunda ou na terceira, com a banca avaliadora. Pois é óbvio que, se a nota final foi dada a partir da segunda correção ou pela banca, não houve um consenso entre os corretores, o que demonstraria um maior nível de subjetividade na avaliação do texto (e permitiria, mais facilmente, uma contestação judicial da nota e um pedido de nova correção — o que, sabemos, não é desejado pelo Inep e pelo Ministério, porém é uma via legítima numa democracia e tornaria o exame bem mais transparente).
- Divulgar, junto das notas finais, uma base de dados que não permita identificar os inscritos, mas ajude na busca por vieses relacionados à idade dos avaliados. A real é que mantenho uma pulga atrás da orelha: a de que há uma “disposição de espírito” quanto à idade, quando os corretores — ao ver na folha de redação a data de nascimento do avaliado — são mais exigentes com os mais velhos ou mais condescendentes com os mais novos ou qualquer outro critério não objetivo que influencie a nota. Não é complicado publicar uma base de dados não identificada que, com simples modelos estatísticos, revelem (ou não) qualquer viés existente.
Se o Ministério da Educação e o Inep temem aumentar a transparência, nunca conseguirão mitigar as desconfianças justificadas que a ausência de transparência cria.
É isso.