Para o meu querido sapinho

Bettina Toronto
Sep 5, 2018 · 3 min read

O mais importante de todos

Você não sabe, mas estou escrevendo cartas para pessoas que foram relevantes na minha vida. Homens. Rapazes. E existem dez delas. A sua é a mais importante.

Eu nunca amei, mas o que eu senti por você foi o mais próximo disso. Meu coração ainda acelera um pouco quando lembro dos cinco anos que em que estive envolvida com você de alguma forma. Eu te chamava de sapinho.

Então.

Meu querido sapinho…

Você não tem ideia como foi importante na minha vida.

Em um mundo de pessoas iguais, você sempre foi engraçado, gentil, culto, inteligente, e vou falar engraçado mais uma vez, porque até hoje ninguém me fez rir como você. Eu lembro de sentir frio na barriga só de passar na sua frente. Você era essa coisa que eu não estava acostumada. Desde o primeiro cara eu encostei a boca, até o primeiro pênis que entrou dentro de mim, a maioria era porcaria. Você não.

Como eu gostaria que tivesse sido o homem da minha vida, e mesmo hoje ainda questiono porque a gente não deu certo. Te encontrar de um jeito tão bizarro há duas semanas me fez lembrar em como o universo sempre brincou com as nossas vidas.

É estranho.

Mas eu era a garota do meio. Você namorava, terminava e voltava para mim. Desabafa, dizia que eu era diferente de todo mundo, que era incrível, especial, e ia embora. Foram três namoros, e eu sempre ali, te esperando e esperando a minha vez. Querendo qualquer resto que elas tivessem deixado — e isso é tão triste.

A cada volta eu sentia menos brilho. Como eu poderia me entregar de verdade para alguém assim? Você parecia um táxi disponível a qualquer uma que se encaixasse nos padrões da sua família. Foi com você que eu descobri que daddy’s issues é real com os homens também.

Hoje eu sei que fugir não foi um erro, mas também sei que se eu pudesse voltar no tempo seria em…

Dezembro de 2009.

A gente tinha 17 anos, quase 18. Estávamos esperando os resultados dos vestibulares, e havíamos passado o final de semana juntos na sua fazenda. Era final de tarde, estava tão quente, eu tinha acabado de tomar banho. Meu cabelo pingava. A maioria dos nossos amigos já haviam ido embora. Estávamos sozinhos na sacada. A luz batia de uma forma tão linda, e você colocou seu Ray Ban. Parecia estar brincando comigo. Começamos a fumar maconha, conversar sobre música, anos 70, festival, mais música, e sonhávamos acordados em como seria as nossas vidas. Tudo era possível. Tudo seria perfeito.

Você pegou o violão para mostrar que havia aprendido tocar Blackbird. Estava tão feliz, tão animado. Conforme dedilhava as cordas, começou a cantar. Só para mim. E eu quase comecei a chorar. Se eu fechar os olhos agora, acho que consigo te ouvir. Ali, naquele momento, você era tudo o que eu sempre quis. Você era tudo o que os outros não haviam sido. Você era incrível. A gente ria, a gente sonhava, a gente iria no show do Paul McCartney no ano seguinte.

A gente não foi.

Abro os olhos.

Tudo foi importante, mas você foi o mais importante. Acho que te esquecer foi difícil por conta desse dia e me sinto infantil por isso.

Espero que tenha superado todos os seus demônios.

Espero que seja feliz como merece.

Escrevendo isso percebo que talvez tenha te amado, e isso me faz me sentir um pouco humilhada.

Você se quer gostou de mim?

Beijos

Bettina Toronto

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