“Ai de mim!”, disse o rato, “o mundo vai ficando dia a dia mais estreito”. “Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair”. “Mas o que tens a fazer é mudar de direção”, disse o gato, devorando-o.
KAFKA, Fábula Curta
Voltava para casa numa noite que tinha algo de peculiar. Sua serenidade encantava e espantava enquanto preenchia os objetos com humor indecifrável. O céu era aquele mesmo céu de sempre do Rio de Janeiro; um pouco nublado, um pouco esparso, um daqueles céus que permitem ver estrelas insistentes entre suas frestas nubífugas. O ar parecia estranhamente seco e sobre tudo que havia imperava o silêncio. Até o mercadinho, que costuma ficar aberto até mais tarde às segundas, estava fechado. E, mesmo que nenhuma alma vivente encontrasse pelas calçadas, havia algo que me perseguia. Sem que houvesse uma angústia de qualquer forma, à minha mente apresentava-se um medo perante o nada, perante o desconhecido que está sempre por vir, como se o organismo me dispusesse em estado de atenção diante de um segredo que aguardava entre as paredes, nas calçadas, nos prédios ou mesmo no céu-sem-graça que velava o infinito. Novamente, aquele calafrio tão raro que sobe a coluna e eriça da espinha ao cérebro. A sensação clara, como uma quase certeza, de que algo estava por vir.
Que não houvesse sentido em tal sentir, pouco importava. Cálculos mentais são jogados às traças diante da prova incontestável da sensibilidade intuitiva humana. O caráter interpretativo da sensação que me atingia só poderia ser expresso numa forma de medo de que ‘algo’ emergisse de qualquer canto, fosse de trás de uma coluna, do bueiro, caísse de uma sacada, virasse a esquina ou mesmo me esperasse, imóvel como uma estátua, nos espaços obscuros entre os caminhos que antecipam minha casa. O que era? Parece estranho o pensamento de que há coisas cuja forma só se dá ao tempo imediato de sua manifestação? Que antes, no domínio das possibilidades ou quem sabe do absurdo, não seriam mais que promessas dadas no regime do impossível? Caso de outra forma fosse, que haveria de temer no compreensível suceder de fenômenos em causas justificáveis? O senso desse absurdo vive na crença da conversão, sempre tida como miraculosa e dada em um momento terrível simultaneamente fora e dentro desse mundo, do impossível em manifesto; o inconcebível que passa a compor o quadro da materialidade dos fatos, forjando o horror.
E se, de repente, caíssem diante de mim as fortificadas barreiras erguidas pelo homem e que separaram sua existência da contemplação pura do horror? E se, na passagem de um instante, eu percebesse a fragilidade de minhas proposições e enraizadas certezas? Qual o tamanho do horror que me tomaria caso posta diante das coisas das quais debochei e que agora tomam seus contornos reais e seu devido lugar no mundo das imagens? As fundações do meu palácio de representações psicológicas estariam danificadas para sempre e, então, finalmente, sentiria verdadeiro e puro medo.
Meu passo apertou e o coração começou a bater com mais ímpeto que antes — e que nada ouça o motivo pelo qual meu coração bate.
