A calma

E a falta que ela faz.

Uma das coisas que mais sinto falta, desde a transição da tranquilidade adolescente em período escolar — quando em condições favoráveis e longe de preocupações infláveis — , é a calma. A calma por ela mesma, não como catarse ao estresse ou escudo contra o intemperismo de ocasiões desfavoráveis. A calma em formato de suspiro despretensioso e despreocupado, para alívio de leves tensões e fracos traquejos em dias difíceis, não a calma em molde de fuga e distração inerte ao desespero por um momento que está por vir, uma decisão que logo hei de ser tomada, ou até a perdição no labirinto lapidado e esculpido à maneira de um mundo que decide, indiretamente, quase todas as suas ações e direções. Sinto falta da calma desde que saí do colégio, desde a mudança da quebra de paradigmas por uma forma de pensamento mais rústica e límpida, crítica, aguçada, para agora pensamentos cuja base firma-se entre uma decisão e outra, entre começos e fins: começos para melhorar a qualidade dos fins, e fins para, exclusivamente, justificarem a existência dos começos e o esforço neles empregado.

Queria, por um décimo de segundo, sentir a calma que hoje me surge em dias selecionados, longínquos um do outro, barreirados entre uma semana e outra, como divisores entre águas que alternam sua violência quando os nadadores, como eu e você, passam a ter consciência da malevolência e falta de significado da correnteza. E, esses dias, por mais preciosos que se fazem ser, por seu conteúdo, acontecimentos e participantes neles, que os fazem ser não só especiais, mas infinitamente memoráveis, pedem tanto em seu início, como em seu término, ao som de um suplico silencioso e findado, a crença na eternidade de sua solene presença nalgum trecho de instante no decorrer da imensidão delimitada da vida. Pedem, com vozes que transfiguram o conhecido e alteram a configuração do entendimento pelo óbvio, que os minutos de silêncio com minha namorada não sejam somente de distração ou ferramenta de ignora para a preocupação iminente — que hora ou outra decide destrinchar e afunilar a qualidade em que flui o raciocínio neste momento — , que estes sejam de proveito e ressignificância, quando, agora, tudo baseia-se num futuro que não vai existir, por mais que tentemos, pela pura lógica na física, da inexistência do futuro enquanto peneiramos o presente em seu fúnebre nome. Que nossos risos ao desmontar da noite tilintem em dardejo como quando o ano se encerra e a civilização soa menos destrutiva, dado o brilho ao céu e a celebração de um novo tempo. Que os sons das vozes de amigos, entes queridos e novos conhecidos anunciem a tão aguardada calmaria, naquele momento, e faça dela motivo de manutenção para essa, e não o medo, na mescla com o receio, de que logo acabe e precisemos de prontidão lidar novamente com o sufoco angustiante do cotidiano e das decisões que foram tomadas por todos, exceto nós.

Lembro-me de, em meados de 2015, ao voltar para casa de trem, da estação Tamanduateí até Ribeirão Pires, à noite, observar o céu estrelado e contemplar neles a vastidão que transcende a importância do tempo e dali constrói em blocos de dúvida e descobrimento a calma, na forma mais límpida e de pureza que não se encontra nem nos corações mais apaixonados. Aquele céu, ainda que não dos melhores, sequer dos mais estrelados, era o guardião das boas novas, por ser imóvel e indiferente ao que nos foi limitado pelo pequeno espaço de movimento e ingrime acesso a opções. Perguntava-me, junto à ele, se em algum momento a calma tornaria-se catarse para a raiva em não ter total controle sobre minha própria vida, ingênuo pela crença de que os sonhos são portas de entrada para o infinito que selecionam os que olham aos céus em busca dos portões de Valhalla, pois após tanta lamúria e angústia, somente o descanso de honra dos guerreiros que vagaram por Helheim poderia ser o adequado aos que se aventuraram no mais pútrido e dificultoso lado do emocional humano, e nele encontraram inspiração. E me enganei, tive o engano forte na dor de quem raspa a testa no asfalto após a queda da moto na Avenida Aricanduva. Estava errado por pensar que a luta viria em nome da glória e da gratificação para quem ousasse questionar as razões para aqui estarmos, e nisto, a resposta real veio em formato da ausência da calma, e da verdadeira importância que têm. E, diferente do vislumbro pelo exílio bárbaro acima das cachoeiras que trafegam o cosmos, veio somente a busca pela calma, e apenas ela. Só a calma.

Creio não ser o único — e espero isto com a esperança latejante — a desejar a calma e a oportunidade para respirar sem um cronômetro ao lado me alertando de horários milimetricamente selecionados por uma ordem a qual não escolhi participar, mas que dela sou escravo interminavelmente.