Por que Game of Thrones não virou fanfic
Precisamos aceitar que um roteiro adaptado é diferente de um roteiro original
***SPOILER ALERT***, obviamente.
Este texto é mais ou menos uma resposta a essa crítica aqui ao último episódio de Game of Thrones, Beyond the Wall. Assim, vai ser estruturado de uma forma meio estranha: primeiro, vou rebater pontualmente alguns dos argumentos no texto, pra só depois tentar estruturar o meu argumento.
Pra início de conversa, a leitura do texto linkado dá a clara impressão de que o autor não leu os livros nos quais a série é baseada. Não tô querendo dizer aqui que pra se criticar a série é necessário ter lido os livros, mas pra se fazer as críticas que são feitas ao roteiro da série, acho que é importante, sim, ter lido os livros.
Por exemplo, a reclamação de que o roteiro está sendo adaptado para se adequar a teorias de fãs parece pressupor que essas teorias são simplesmente frutos da imaginação de algum desocupado. Mas não. Na verdade, a grande maioria das teorias em relação a ASOIAF são feitas com base nos livros, que são extremamente longos, complexos e cheios de dicas, de indícios de coisas que ocorrerão mais à frente no enredo. Como existe uma comunidade bem grande e ativa de fãs de ASOIAF em fóruns de discussão, existe também um sem-número de teorias acerca da história. Pela lei das probabilidades, algumas delas estarão corretas.
(Aqui, cabe lembrar que, quando procurado para vender os direitos para a série, Martin teria feito perguntas sobre a história aos produtores e que eles já sabem o final da história.)
Sobre o romance de Daenerys e Jon não ter fundamento, novamente a impressão é de que a crítica é feita por alguém que só viu a série, mas não conhece os livros. Uma das coisas mais trabalhadas ao longo de todos os livros é o fato de que os Targaryen há muitas gerações são incestuosos, preferindo casarem-se com membros da família. Quem é o único parente vivo de Daenerys? Ele mesmo, Jon Snow. Além disso, a pseudocrítica ao fato de que Daenerys precisaria ter um par romântico não se sustenta, até porque ela já teve esse par: Drogo.
No entanto, não há nada de extraordinário em uma aproximação entre os dois, pois nada melhor do que Daenerys, estéril, se casar com Jon, um bastardo, e ocupar o Trono de Ferro somente até sua morte, depois libertando os Sete Reinos do jugo de um governante único. Novamente, não se esqueça que a Daenerys é a quebradora de correntes, e ela é muito mais uma libertadora do que uma governante: quando se meteu a ficar governando um lugar, geralmente deu merda. (Viram? Não é difícil nascerem teorias quando a história é complexa na ordem de complexidade de ASOIAF.)
Em relação a o que o episódio indica que vai acontecer com Petyr Baelish, trata-se de futurologia que pode não se ver concretizada. Lembremos que o Littlefinger é, juntamente com Varys, um dos personagens que tem maior, digamos, inteligência política na história e já se livrou de diversas situações em que parecia certo que seria morto.
Por fim, a reclamação em relação a o Rei da Noite ter matado Viserion: mais uma vez, os elementos do livro dão sim indicativo de que dragões de gelo são uma possibilidade. Além disso, há algo que sempre me incomodou bastante no arco de Daenerys: ela parece ser a única personagem imune à Justiça Divina de Martin.
Explico. Em geral, ao longo da história, há uma regra bem simples e de aplicabilidade praticamente universal: burrice é punida, geralmente com a perda da cabeça (ou, ao menos, da mão, né, Jaime?). Martin é implacável com seus personagens, e escolhas estúpidas (que podem ser estúpidas também porque faltam informações aos personagens) significam que eles vão se foder em consequência.
Menos Daenerys. Ela é a única personagem que toma decisões idiotas desde sempre e nunca efetivamente foi punida por causa disso. Acho que perder um de seus três dragões-filhos ainda é uma punição relativamente branda pro tanto de idiotice que ela tem feito. Se o Martin fosse fiel a sua trajetória, aquela lança era pra ter acertado a Daenerys, não o dragão nem o Jon...
Quanto à reclamação de que GoT virou um blockbuster, só tenho uma pergunta: quando é que a série não foi um blockbuster?
“Mas, Tiago, tu tá dizendo então que o roteiro continua bom?”
Não, caralha, lê direito! Eu só tô dizendo que a série não virou fanfic.
De fato, o roteiro teve uma queda significativa em sua qualidade a partir desta temporada. Mas isso já deveria ser esperado. Game of Thrones é, se formos honestos e analisarmos estritamente seu roteiro, uma boa adaptação de uma história excelente. Não é nem ao menos uma ótima adaptação. Por exemplo, a segunda temporada da série é bem inferior à primeira, exatamente porque se distancia bastante dos livros.
Quer outro exemplo? Pense numa passagem da série que tenha ficado marcada na sua memória, qualquer uma. Sou capaz de apostar de antemão que essa passagem tem um diálogo e que esse diálogo ocorre literalmente como no livro. Coisas como a Cersei dizendo “In the game of thrones, you win or you die” ou “Power is power”.
Da mesma forma, pra parcela da audiência da série que leu os livros, a série, enquanto tratando de coisas que já ocorreram nos livros, servia como uma espécie de “guia de memória”, ou seja, nós, assistindo a série, preenchíamos (mesmo que não de forma consciente) diversas das lacunas que existem no roteiro.
Outro exemplo disso é o que ocorre no final do episódio anterior, quando se formou o suicide squad que foi além da muralha. A formação desse grupo, nos livros, muito provavelmente levará algumas centenas de páginas para ter explicado somente como foram todos parar no mesmo local, e o que se resumiu a uma conversa de três minutos provavelmente será desenvolvido em pelo menos um capítulo. Isso, por diversos motivos, não foi feito (e tenho dúvidas sobre ser possível fazer) na série.
Então, por um lado, fica claro que os produtores da série, sem ter os livros a auxiliá-los, não estão sendo capazes de fazer roteiros tão bons. É compreensível, acho, e bem aceitável, que fazer um roteiro a partir de uma história com mais de 4000 páginas é algo bem diferente de se fazer um roteiro a partir de linhas gerais do que vai acontecer passadas pelo escritor.
Por fim, some-se a essa dimensão o fato de que alguns atores são, no sentido técnico, bem meia-boca (Kit Harington e Emilia Clarke, estou falando com vocês), e é esperado que algumas partes da história pareçam absolutamente forçadas. Sim, as cenas românticas de Jon e Daenerys são ruins, mas isso ocorre porque são cenas protagonizadas por atores medianos em cima de um roteiro fraco, não porque a série tenha virado fanfic.
Então, parafraseando o final da crítica lá, sim, a sétima temporada de Game of Thrones é realmente pop, é realmente um blockbuster, é realmente feita para te agradar. Mas, lamento informar, todas as temporadas anteriores também são.
Game of Thrones não é — e nunca se propôs a ser — um artefato cultural conceitual, inovador (ou o termo pedante preferido para designar que é diferente, especial).
Lide com isso.
