o telefone toca a meio da noite

ninguém telefona a essa hora

não tem mais família que ligar

vira na cama e não atende

adormece profundamente

e o telefone volta a tocar

semiabre os olhos

o som distante na mente

pensa em atender

mas não atende

volta a dormir pr’outro lado

logo o telefone não fica calado

agora atende sem pensar

— sim

— por que não atendeu logo

— quem fala

— não reconhece minha voz

— a essa hora, nem a minha

— faz tempo

— não duvido. quem fala

— liguei porque pensei que ainda lembrava de mim

— …

— mas se não lembra da minha voz, já me esqueceu

— a essa altura da vida, se demorou tanto a ligar, certeza que a culpada não fui eu

— não. eu que não dei valor e estraguei o que ainda poderia existir de nós

— e não é agora que eu vou tentar lembrar da tua voz

— sinto saudades

— estou acompanhada

— …

— vou desligar. boa noite

— não quer saber quem sou?

— se já estou feliz encostada à pele d’outra pessoa, quem quer que seja você já não me importa

— não tem mais volta?

— não. mas deixo um conselho

— sim?

— cresça. e com a próxima pessoa, não ligue, apareça.


telefone na base, desligado

virou devagarinho

encostou na pele dele, quente

abraçou

suspirou

sorriu

dormiu

acordou

viveu

sem sequer pensar em quem tinha ligado.