Nathan e Valkiria

Nathan sempre foi uma criança diferente. Na sua vizinhança, tinha poucos amigos e costumava brincar sozinho. As artes eram sua válvula de escape. Gostava de música, dança, teatro… e jogava bola. A falta de conhecimento sobre a existência da transexualidade levou Nathan a se assumir como uma menina lésbica, buscando dessa forma se sentir bem consigo mesmo. Mas a verdade era que Nathan nunca se reconheceu enquanto mulher.

Começou a ter experiências amorosas desde muito cedo. A primeira paixonite foi ainda no jardim de infância, por uma menina. Na adolescência, namorou uma menina por um ano. Mais tarde, viveu uma grande e conturbada paixão.

Seu nome era Valkiria. Naquela noite, os dois — até então, desconhecidos — estavam na mesma boate. A aproximação entre eles só aconteceu depois da festa, pelas redes sociais. Valkiria tinha se interessado por Nathan e tratou logo de descobrir seu nome através de um conhecido que também estava na boate. Em um primeiro momento, a conversa não rendeu muita coisa além de uma cordial resposta de Nathan. A conversa terminou tão instantaneamente quanto começara.

Dois anos se passaram após aquele breve contato. Nathan, no trabalho, navegava pelas redes sociais até encontrar a foto de uma mulher muito interessante. Alguns cliques a mais e ele percebeu que já haviam conversado. Decidiu então pedir o telefone de Valkiria, que prontamente o passou. Nathan ligou. Se apaixonou assim que escutou a voz da moça.

Descobriram que moravam em bairros próximos na época que se adicionaram no Facebook. Dois anos depois, porém, Valkiria havia se mudado para Londrina. Isso não impediu que os dois entrassem em um relacionamento. Namorando à distância, Nathan e Valkiria esperavam a oportunidade de se encontrarem pessoalmente. A oportunidade surgiu quando, em outubro de 2011, Nathan iria para Curitiba a trabalho e o primeiro encontro finalmente aconteceria. Não se passava pela cabeça do casal que uma mudança de planos seria necessária: Valkiria sofre um acidente de carro em agosto, dois meses antes do tão aguardado encontro.

A pontada no peito que Nathan sentiu no exato momento do acidente o fez ligar incessantemente para Valkiria. Ele não fazia ideia do que havia acontecido, mas aquela sensação não poderia significar coisa boa. Durante cinco dias Nathan ligou. E só depois de cinco dias recebeu a ligação do médico que o informou do acidente que a namorada havia sofrido. O médico explicou a situação. Valkiria precisaria amputar a perna e, por estar inconsciente, o hospital precisava da autorização de sua mãe para realizar o procedimento. A mãe de Valkiria, que morava em Mato Grosso, levaria muitas horas para chegar a Londrina viajando de ônibus. A cirurgia precisava ser feita urgentemente. A mãe, então, deu total autonomia para Nathan autorizar a amputação. Ele pegou um voo para Londrina e teve, finalmente, seu primeiro encontro com sua namorada, que estava prestes a perder a perna.

Passado o susto inicial, Nathan volta para Belo Horizonte. Não deixou, em nenhum momento, de acompanhar a recuperação de Valkiria. Levou um ano para as coisas voltarem a se estabilizar. Nathan ajudou na compra da prótese de sua namorada, que em menos de oito meses já andava novamente. A melhora foi fantástica. Valkiria não desenvolveu depressão, muito comum em casos como esse. E como era de se esperar, o casal decidiu que era hora de se casar. Marcaram a cerimônia para uma data em que Valkiria estivesse totalmente recuperada. Nathan ficou responsável pela organização do que seria o dia mais importante da vida dos dois. Tudo já estava acertado, a festa planejada e os convites prontos. E então, três dias antes do casamento, Valkiria some sem explicações. Nathan se revoltou. A situação também deixou sua família indignada.

Após o término abrupto, a questão de sua própria identidade de gênero voltou a falar mais alto. Nathan decidiu dar início ao processo de transição para que, dessa forma, se sentisse finalmente bem consigo mesmo. Passados alguns meses, Valkiria volta a entrar em contato com o ex-noivo. Conversaram, se entenderam e decidiram voltar. Nathan conta a ela sobre seu processo de transição que já havia se iniciado. Valkiria não aceita, pois não gostava da ideia da iminente mudança na aparência do seu namorado. Apesar disso, Nathan foi firme na sua decisão de continuar sua adequação sexual. Afinal, se a grande questão era sua aparência, Valkiria também teve a sua modificada pelo acidente de carro e a possibilidade de abandoná-la por isso nunca passou pela cabeça de Nathan. E então os dois terminaram de vez o namoro, uma relação que havia durado dois anos.

Nathan focou-se na sua transição e passou a se amar cada vez mais. Solteiro, contava com o importante apoio da família. A mãe se preocupava apenas com os hormônios que o filho tomava sem acompanhamento médico, apesar do grande cuidado que Nathan sempre teve com relação à sua saúde. As mudanças físicas ficavam cada vez mais aparentes mas não eram as únicas mudanças — além de ter aprendido a se valorizar e a se amar, Nathan se tornava cada vez menos deslumbrado quanto o assunto era amor.

Hoje em dia, Nathan e Valkiria são amigos. Ela costuma dizer que eles ainda irão se casar. Ele responde que sua chance já passou. Nathan tem planos de adotar uma criança e se formar em direito ou em algo na área da medicina, que o ofereça a oportunidade de ajudar outras pessoas. Leva sua vida amorosa de forma casual. Fica com uma ou outra pessoa se sentir vontade, mas prefere não se desgastar em relacionamentos. Afinal, sabe que sua felicidade depende apenas de si mesmo e já vivenciou tantos relacionamentos conturbados que valem por uma vida inteira.

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