Escrito em 14/12/2016

Em todos os anos, geralmente já em meados da primavera, a cidade de São Paulo é presenteada com seus primeiros dias de sol escaldante, que preconizam o espetáculo das ilhas de calor do veraneio metropolitano. A cereja do bolo é quando, além de sentir os efeitos térmicos do acontecimento climatológico, os paulistantos também percebem as consequências biogeográficas do aquecimento, relembrando que o ser-estar no mundo é mais do que a obra humana pode conceber. Chamo este evento de a noite do siriri.

A meu ver, tal evento parece um feriado municipal, embora costume me lembrar dele muito mais como uma terça-feira completamente cheia de afazeres, de onde se observa o pôr-do-sol pelo engarrafamento na marginal. Hoje, quase que intuindo sua possível realização, parei pra pensar na magnitude do fenômeno: quantos bichinhos se reproduziram? Até onde isso vai, em escala? Por que tudo ao mesmo tempo? Seria esse um fenômeno apenas da região sudeste? Quais suas consequências no cotidiano?

Talvez o complexo de vira-lata se torne mais acentuado para alguns, pois se volta a consciência de que não estamos tratando de legítimos caucasianos frios e sem vida — ora pois, os colonos europeus não conseguiram escravizar nossa natureza! — . Para outros, a noite do siriri talvez faca parte de um ritual, uma mística, uma saudação: eu, quando criança, adorava contar quantos siriris apareceram no fim de tarde.

Foi cogitando todas essas questões que eu voltava pra casa de bike, em um dos momentos mais críticos e inclinados da viagem, já próxima de casa. Abrindo a porta da frente consegui identificar diversos bichinhos, imobilizados pela luz em óbvia alusão ao Platão que sai da caverna.

A luz..

Que coincidência, tal metáfora se fez muito presente no meu dia. Desde quando pensava sobre os espodossolos e chernossolos, que pela dialética são escuros devido a alta incidência de água (um material transparente, claro, luminoso), exatamente como o inspirar e respirar da vida contidos no ying-yang; quando desabafando com uma amiga, ela me diz que devemos abraçar nossas sombras, nossos egos, em busca de qualquer resposta iluminada, sabendo que, ao chegar a luz, mais sombras aparecerão diante de nossos olhos; quando em uma tarde pós-almoço atípica, uma amiga e eu retomávamos intimidades e angústias sobre o futuro enquanto o sol cálido e nectáreo batia na janela lateral do quarto de dormir.

Fez-se luz quando minha outra amiga agradeceu por tê-la esperado no ponto e continuado a conversa sobre nuvens, mesmo estando ambas cansadas de ouvir cada uma falar só de climatologia por 4 horas. Fez-se luz quando me cansei de fazer do sofrimento uma perdura e tentei de fato sair deste estado mental. Fez-se luz quando conversas antigas se davam em eterno retorno, quando todos esses momentos se deram como eterno retorno, como o siriri que gira em volta da lâmpada, etérea e eternamente..

Parece que o limite entre o viver e morrer é o mesmo da imaginação e da realidade. Quando se para de correr atrás de algo, ele acontece; quando se deseja muito, ele se esconde. Ainda que tridimensional, a vida não consegue existir em dois espaços, o do corpo e o da saudade. Todavia, ela se faz em ambos, alternadamente. Certas vezes voamos longe em busca da luz; e é alcançando-a que caímos ao chão, viramos cupim. Após muita dor que descobrimos o prazer da madeira, do bruto, daquilo que não depende de nossas próprias asas.

Honestamente eu já não sei se hoje foi mesmo o dia do siriri. Talvez o amanhã seja maior, com os postes da cidade infestados de pingos de chuva cintilantes. Mas, bem, de enganos se fazem homens. Mulheres. De erros se fazem sombras. E as sombras dançantes que avistei sob a luz laranja, em um dia que a tristeza e a saudade me fizeram querer voar em teto de vidro, talvez não fossem mera sinfonia de passos e amores, mas ensaio ao belo, ao super-ego, a algo que ainda está por vir; os giros sincronizados, o balançar das saias e dos quadris apertados um contra o outro, talvez sejam eles mais uma prova que, no futuro, o eterno retorna.

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