A história que tinha que ser escrita

Itaquera, quarta-feira.
Esse texto não é sobre o que aconteceu no jogo todo. Mas sim sobre todo o jogo que aconteceu depois dos 40 minutos do segundo tempo.
Naquela altura, tínhamos a vantagem e a classificação vinha de forma natural visto o futebol grandioso que vem sendo apresentado por aqueles que foram os escolhidos para honrar nosso manto nessa temporada. E como honram. Posso citar qualquer jogador e terei inspiração para escrever um livro para cada um. Desde Cássio e seus milagres, passando por Maycon e sua extraordinária capacidade de ser o pilar do time e chegando em Romero, o mais merecedor de trajar o nosso manto alvinegro.
Mas você, Pedrinho, você é moleque. Um moleque do bem. Quando a gente grita o seu nome no segundo tempo quando as coisas não vão bem é porque sabemos que a única coisa que pode deixar o jogo nefasto e burocrático dos adultos mais fácil pra nós é a molecagem. A sua molecagem.
Ontem, você não entrou tão bem no início. Errou alguns passes, normal, até porque é preciso errar para poder acertar. Mas o gol tinha que sair, alguma hora ele tinha que sair. E por que não nesse jogo?
Eis que Cássio, numa tentativa de aliviar a defesa deu um chute para o céu. Como se entregasse a bola para os Deuses do futebol para que a história pudesse ser realizada. Naquele momento, naqueles poucos segundos, eles decidiram que nem Jô e nem o zagueiro adversário eram dignos de tocar na pelota que viajava veloz pelos ares sagrados de Itaquera. A história tinha de ser sua.
Tudo parecia estar em câmera lenta, como se até o tempo parasse para contemplar o que se sucederia no seguinte instante; a bola batendo no seu ombro, o zagueiro ficando para trás, o gol escancarado na sua frente. Ainda faltava um.
Toda a sua corrida desde o início da jogada até o fim mostra pra todo mundo porque você é tão querido pela torcida. Vou dizer por que: quando o Jô disputa a bola qualquer outro jogador poderia muito bem desistir da jogada e voltar pra defesa, até porque já estávamos classificados e faltava pouco para acabar a partida. Mas você não é qualquer um. Você é como a gente, como o sofrido torcedor alvinegro que não desiste nunca e sempre dá a volta por cima. Você, Pedrinho, foi na bola como se fosse a bola da sua vida. E foi.
E assim, num toque de mágica e genialidade a poesia se fez presente aos olhos de 30 milhões de almas.
Depois de ontem, Itaquera nunca mais será a mesma. Por uma noite, você foi o maior de todos. Pouca coisa, pra quem merece ser o maior de todos em todas as noites.
