Dói em todas nós

Dói ser mulher.

Não, não vou falar aqui sobre depilação, menstruação ou cólica. Não vou reclamar de usar salto alto, dor no parto ou de ter que fazer a sobrancelha. Essas dores são frutos de nossas escolhas — ou não, já que as vezes essas escolhas são fabricadas pela sociedade em que vivemos. Vim aqui pra falar das dores que não escolhemos, mas somos obrigadas a aguentar.

Vim falar sobre a dor que sinto quando um colega de trabalho, homem, cumprimenta todos os outros colegas homens que estão conversando comigo e ignora a minha presença, como se não valesse a pena falar comigo.

A dor quando sei que fui escolhida para fazer uma apresentação não por causa da minha competência, mas porque sou mulher e irei agradar o cliente — parece que eu sou paga para seduzir, e não produzir.

Dói ver a surpresa das pessoas quando eu consigo fazer uma baliza de primeira, afinal, mulheres não sabem dirigir, não é? É frustrante quando eu vejo um pneu furado e falo pro cara que é mais fácil se ele soltar as porcas antes de suspender o carro e ele não faz isso porque “mulher não entende de carro”.

Dói só de pensar em engravidar sem querer e ser apontada como a única culpada por isso, e, caso não queira ter o filho, ser a assassina da história; dói mais ainda pensar em querer ter um filho e correr o risco de sofrer violência obstétrica.

É assustador sair na rua com qualquer roupa que seja porque carrego comigo as marcas de todos os assédios que sofri, independente do que eu estava vestindo. Dói a vergonha que eu sinto quando sou assediada e sei que não foi por minha causa, mas não consigo evitar a sensação de culpa dentro de mim.

Dói pensar duas, três, quatro, cinco vezes antes de usar um banheiro público sozinha, pois nunca se sabe quem pode entrar lá sem você ver e o que essa pessoa pode fazer com você.

Dói perceber que eu tenho medo de ir à aula em uma sala em que eu sou a única mulher; me acostumei com o fato de que preciso de um amigo homem como escudo nessas situações, caso contrário todos os outros homens irão se sentir no direito de se aproximar de mim da forma que bem entenderem.

Às vezes dói fisicamente. Nunca doeu em mim, mas dói em tantas outras que não dá pra ignorar. Dói por solidariedade, principalmente, mas também porque me sinto vulnerável. Dói saber que nenhuma de nós está salva, independente de cor da pele, classe social, grau de instrução ou orientação sexual.

Mas o que mais dói, o que dói todos os dias, é ouvir que minha dor não é válida. E dói não por mim, porque, apesar de tudo, sou privilegiada. Dói por aquelas que não sabem que NÃO É NORMAL sentir essa dor e vão se calar ao menor sinal de opressão. Dói por aquelas que nem sabem que sentem dor, porque nunca tiveram um momento sem senti-la.