Vida (im)permanente

Dois pardais engaldinhavam-se durante o voo, talvez acasalando, ou apenas aproveitando a liberdade, concentrados naquele momento. Mas tudo acabou de repente. Aconteceu num piscar de olhos.
E é isso o que a vida é: impermanência. Em um momento estamos cercados de alegria, amor e carinho; a vida ganha brilho, suavidade, beleza; sentimo-nos acomodados quiçá protegidos contra qualquer mal. E fluímos, fluímos como as águas de um rio, talvez sem perceber as mudanças durante o curso, mas seguindo em constante mutação.
E às vezes, por maior que seja a nossa luta, as coisas saem dos trilhos, encontramo-nos então desprotegidos, à mercê da imprevisibilidade do mundo.
Um carro em alta velocidade atropelou as aves diante de mim. Ergui um dos braços como se pudesse evitar, exclamei minha tristeza ao ver o corpinho destroçado do pardal. O outro voando para longe.
Eu nunca me esqueci dessa cena, ela representa, para mim, a brevidade da vida. É como se aquele momento me dissesse: não vale a pena nutrir esse rancor dentro de você, meu filho. Eu ouvia a voz da minha avó usando essas palavras. E ela continuava: podemos guardar o que foi bom, seguir em frente e não germinar desgraças e ódio e desesperança dentro de nós mesmos.
A vida é breve. Em um segundo tudo pode ruir, acabar, morrer.
Por qual motivo não devemos lutar para fazer de cada fagulha de luz um espetacular show de fogos de artifícios?
A minha avó amava fogos de artifícios. Ela morreu na virada do ano, sob a benção de milhares de luzes coloridas no céu escuro, atropelada por um motorista embriagado. E eu não posso perdoá-lo, ele precisa pagar pela tristeza que trouxe à minha família, eu o odeio, o meu peito queima e a garganta seca quando penso nele. Mas talvez a vida seja breve demais para continuar queimando os meus dias com esse sentimento dentro de mim.
