Um Peixe Fora de Água — ou como os Coaches também fazem Coaching

“A vida começa fora da zona de conforto” — esta e outras frases que uso tantas vezes com os meus clientes, fizeram parte do meu discurso interno há umas semanas. Porque os Coaches também fazem Coaching e há situações em que também nos sentimos como peixe fora de água.

Quando era miúda adorava ser fotografada. Era com cada pose descarada que ainda hoje os albúns de família valem umas boas gargalhadas quando são revisitados. Era ser fotografada e fazer amigas. Em qualquer lado onde fosse era uma questão de minutos até arranjar companhia e começar a tagarelar em amena cavaqueira. Depois deu-se o evento da adolescência e isto mudou radicamente. Para ambas. Se fazer amigos passou a ser uma coisa amiúde, ser fotografada juro que há anos dos quais o único registo da minha pessoa são as fotos tipo passe obrigatórias para a escola.

Estou habituada a ver-me em vídeo, a ouvir-me, e falar em público faz parte da profissão. Nada disto representa qualquer tipo de constrangimento. Contudo, enquanto que o comum dos profissionais procura a fotografia perfeita para o cv, linkedin ou outro propósito do género, eu procuro uma fotografia onde tenha os olhos abertos e um ar relativamente decente.

Algures no meio do caminho convenci-me de que não era fotogénica, que odiava ser fotografada, que não tinha jeito para a coisa. Repeti até à exaustão que não gostava, não queria, não era capaz. E foi assim que fiz um trabalho brilhante de instalar um crença limitadora sobre mim e em mim.

Todos temos um sistema interno de crenças, que podem ser limitadoras ou possibilitadoras. Elas são adquiridas ao longo da vida e basicamente são um filtro através do qual nós vemos o mundo à nossa volta. As crenças são importantes por várias razões: influenciam a forma como percepcionamos a realidade; definem-nos o que é bom, mau, possível e impossível; direccionam as nossas acções e/ou limitam-nas; afectam as nossas relações com os outros; influenciam as nossas decisões, humor, estado de espírito e até a nossa saúde.

Por isso, há algum tempo, impelida pela consciência de que precisava “desinstalar” esta limitação, e (mais importante para dizer a verdade) a precisar desesperadamente de fotografias actualizadas, dei o salto para fora da minha zona de conforto. Com os meus clientes faço o trabalho seguinte:

  1. Identificar a crença limitante que impede a acção — nem sempre estamos alertas para a existência da mesma;
  2. Encontrar a causa da crença — saber em que situações ela foi instalada ou reforçada ajuda a alterá-la
  3. Definir o que se pretende alcançar — muitas vezes é o oposto daquilo em que se acredita naquele momento, mas pode ser também algo mais à frente que está bloqueado
  4. Substituir a crença limitadora — a minha parte preferida: fazer perguntas até que a crença negativa seja desconstruída, e construída a nova crença
  5. Condicionar crença possibilitadora — o que significa repetir até à exaustão a nova crença e a mesma se torne um hábito.

Comigo o processo foi o mesmo em versão “choque”. Já sabia que tinha a crença, já tinha identificado que ela estava associada a várias experiências na adolescência e defini claramente que queria tirar fotografias profissionais.

Quando me cruzei com o anúncio do Open Day dos Retratistas não pensei duas vezes. Inscrevi-me, fiz o pagamento no mesmo dia, e cruzei os dedos. Já estava, não dava para voltar atrás, tinha-me comprometido com os profissionais. Dia 2 de Abril lá fui, com umas fatiotas e nervoso miudinho, a repetir que ía ser espetacular, que as fotos íam ser maravilhosas, e que tínha nascido para aquilo.

Não devia ter ficado surpreendida, porque quando os meus clientes alcançam o sucesso eu já sei de antemão que o vão conseguir. Mas não esperava gostar tanto todo o processo. Tenho que agradecer ao Nuno Fontinha por me colocar tão à vontade, por me ter feito rir e sentir menos peixe fora de água (vemo-nos lá para Setembro para o round II!) e à minha Coach que é mesmo boa a praticar o que apregoa.