A maconha como porta de entrada: hipóteses e mitos

O crescimento do consumo de cannabis nas últimas décadas tem fomentado discussões sobre o fim de sua criminalização, ainda vigente na maior parte do globo. Um dos argumentos mais controversos sobre a maconha é o seu suposto efeito de gateway drug, ou porta de entrada — indícios de que seu consumo a longo prazo levaria o usuário a buscar outros psicoativos mais potentes.

A teoria das gateways drugs foi formulada nos anos 70 e é alvo de debates desde sua concepção. Em termos simples, a teoria propõe que existem substâncias psicoativas “leves”, que levariam a uma progressão natural ao consumo de drogas ilícitas mais “pesadas”, como cocaína e heroína. Atualmente, o efeito gateway é popularmente atribuído ao consumo abusivo de maconha. Entretanto, pesquisas recentes em diversas áreas questionam os fundamentos desta teoria e sua aplicabilidade à cannabis.

Hipótese fisiológica

Segundo alguns estudos, o abuso de cannabis causaria no usuário sensações crescentes de apatia, letargia e desmotivação — a chamada “síndrome amotivacional”. O agravamento destes sintomas a longo prazo levaria à procura por outros tipos de substâncias mais potentes.

Na realidade, o termo “síndrome amotivacional” ganhou popularidade na imprensa nos anos 60, período em que o consumo de maconha cresceu drasticamente, impulsionado pela revolução cultural nos Estados Unidos, e o conhecimento científico sobre a droga ainda era escasso. Os estudos mais recentes questionam a existência de uma síndrome amotivacional e, ainda, sugerem que o contrário é mais provável: o vício em maconha, como em qualquer outra substância, pode ser sintoma de outras síndromes e distúrbios psiquiátricos pré-existentes.

Contradições

Os próprios efeitos viciantes da maconha são ainda tema de debate. Alguns estudos sugerem que a exposição prolongada do cérebro ao THC (Δ9-tetrahidrocanabinol, o principal psicoativo da cannabis) pode resultar em irregularidades em determinadas regiões do cérebro. Deformidades detectadas no cérebro de consumidores frequentes de maconha — particularmente no núcleo accumbens, responsável pelo sistema de “recompensas” do cérebro — seriam responsáveis pelo vício e aumento de consumo.

A literatura médica sobre a existência destas deformações é conflitante. Alguns estudos demonstram alterações expressivas, enquanto outros argumentam que as diferenças entre os cérebros de usuários e não-usuários é irrelevante. Um ponto, porém, parece ser indiscutível: há muito mais variáveis individuais e culturais do que fisiológicas envolvidas na dependência de maconha. Além disso, o canabidiol (componente não-psicoativo da maconha) já demonstrou propriedades inibitivas úteis para o tratamento de dependentes químicos de heroína.

Gateway x CLA

Outra perspectiva a ser considerada é a sociológica. Análises estatísticas apontam, de fato, que a maioria dos indivíduos que experimentam substâncias como cocaína e heroína já haviam consumido maconha em ocasiões anteriores; daí a concepção de que a cannabis atuaria como porta de entrada para outras drogas ilícitas.

Todavia, estudos mais recentes ressaltam falhas estruturais nesta hipótese. A teoria gateway prevê uma sequência linear (1 — álcool e tabaco; 2 — cannabis; 3 — outras drogas ilícitas) que não é necessariamente seguida por todos os usuários de psicoativos. Frequentemente, as análises desconsideram a ampla parcela de usuários de maconha que nunca consumiram outras drogas.

Em contraste, surge a teoria CLA (common liability to addiction, ou “suscetibilidade comum ao vício”), que considera outras variáveis essenciais ao estudo da dependência. A hipótese propõe que características genéticas e comportamentais de cada indivíduo interferem na sua propensão ao vício em qualquer psicoativo. Por exemplo, um estudo de 2014 aponta que cerca de 45% dos usuários de maconha experimentam, de fato, outras substâncias ilícitas; observou-se, porém, uma forte influência de fatores como grau de educação, local de residência e pré-existência de distúrbios psiquiátricos.

Demonização

A influência cultural e social sobre o uso de psicoativos é algo a ser especialmente considerado quando se investiga as motivações dos usuários. Dados da ONU estimam que 246 milhões de pessoas em todo o mundo consumiram drogas ilícitas em 2013. Em 2010, mais de 3,7 bilhões de drogas controladas foram comercializadas em farmácias nos Estados Unidos, e 7 milhões de norte-americanos relataram ter comprado substâncias de prescrição para fins não-médicos.

O que estas estatísticas sugerem é que o consumo de substâncias psicoativas, ilícitas ou não, é uma prática cultural e generalizada em todo o planeta. Apesar disso, incontáveis estudos identificam uma tendência — fomentada, em grande parte, pela mídia e pelos governos — a “demonizar” certos psicoativos. Não raramente, essa demonização inclui atribuir a causa de problemas sociais a efeitos exagerados (e às vezes surreais) do abuso de drogas. Em outras palavras, é fácil utilizar determinadas substâncias como bodes expiatórios para questões alarmantes como violência, desigualdade social e delinquência juvenil.

É o que ocorre quando se aborda a maconha como porta de entrada. É particularmente conveniente que o abuso de substâncias de alto potencial viciante, como a heroína, a cocaína e o crack, sejam “justificados” pelo mito do efeito gateway, ainda que suas causas reais estejam enraizadas em doenças sociais e defasagem em políticas públicas. Não existe, em conclusão, evidência científica que comprove na maconha qualquer tipo de estímulo ao uso de outros psicoativos.

Fontes

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