DMT pode ser benéfico para pacientes em situação de emergência

Uma equipe de pesquisadores húngaros, composta pelo psiquiatra Ede Frecska e pelo imunólogo Attila Szabo, estuda os possíveis benefícios da substância alucinógena dimetiltriptamina (DMT) em pacientes que sofrem de parada cardiorrespiratória (PCR). Quando o coração para de bater, o cérebro não morre imediatamente, e se o fluxo sanguíneo for reestabelecido nos primeiros 5 minutos, é possível que a pessoa retorne sem sequelas. Acredita-se que o DMT seja capaz de estender este tempo, aumentando as chances da ressuscitação cardiopulmonar.

O DMT é conhecido por suas propriedades psicodélicas. A bebida ayahuasca é composta por plantas que possuem DMT. Ela é utilizada em cerimônias religiosas de tribos indígenas da Amazônia e do Santo Daime. Estudos mais recentes têm mostrado que o DMT pode ser encontrado em mamíferos, inclusive nós, seres humanos. O DMT atua como ligante endógeno de receptores sigma-1 no cérebro. Também é capaz de se ligar aos receptores de serotonina, e acredita-se que esta interação é responsável pelos efeitos psicodélicos da droga. Por isso, alguns cientistas especulam que o DMT está relacionado a doenças mentais psicóticas, como a esquizofrenia, e portanto tem um papel apenas psicopatológico. Porém, Frecska pretende mudar este paradigma, pois entende que se a substância está presente naturalmente no nosso corpo, ela deve ter uma função fisiológica para manter funcionamento saudável do organismo. Logo, o DMT teria uma função somato-fisiológica.

Esta hipótese é sustentada por estudos que mostram que alguns orgãos do corpo humano, principalmente os pulmões, possuem enzimas capazes de sintetizar DMT a partir de triptamina. O DMT é bastante estável no sangue, pois não é degradado no sangue pela enzima monoamino oxidase (MAO), o que facilita sua chegada no cérebro. Ademais, ele atravessa facilmente a barreira hemato-encefálica, que funciona como um filtro entre o sangue e o cérebro, dificultando a chegada de toxinas neste. No cérebro, o DMT se liga aos receptores sigma-1, que são responsáveis por combater o estresse oxidativo que ocorre, por exemplo, quando há fluxo irregular de sangue no tecido.

Este mecanismo é ativado no último minuto antes da morte, numa espécie de defesa do organismo. A ação do DMT nos receptores sigma-1 possivelmente diminui o gasto de energia dos neurônios e assim reduz o estresse oxidativo, estendendo o tempo em que as células podem ser salvas caso o coração volte a bater. Relatos de experiências de quase morte reforçam a possível participação do DMT, pois as alucinações são muito semelhantes aos efeitos provocados pelo DMT. Acredita-se que o mecanismo de proteção possa estar presente também no momento do parto, para proteger o cérebro do bebê da falta de oxigênio durante a passagem pelo canal do parto.

Os pesquisadores pretendem provar com seus estudos que o DMT possa ser usado como uma droga em situações de emergência, para aumentar as chances de sobrevida dos pacientes. Um dos maiores entraves ao estudo é que a maioria dos países não reconhece seus potenciais efeitos terapêuticos, o que aumenta a burocracia e dificulta a obtenção de recursos públicos para a pesquisa. Por isso, Frecska recorre ao crowdfunding no Indiegogo para custear a sua pesquisa.

O primeiro passo do estudo será testar o DMT em culturas de tecido nervoso expostas a condições de baixo oxigênio (hipóxia). Caso as hipóteses se comprovem verdadeiras, a pesquisa avançará para o estudo em animais e posteriormente em humanos. Quando um composto é isolado para estudar seus efeitos terapêuticos, passa por um longo caminho até chegar ao mercado, e muitas vezes não chega porque não tem eficácia comprovada. Este caminho é mais difícil ainda para o DMT por ser considerado uma droga ílicita.

A política repressiva de controle de drogas proibiu o DMT simplesmente por apresentar efeitos alucinógenos, que supostamente representam riscos à população, mas sem considerar seus potenciais benefícios. Resultados positivos nesta primeira fase podem representar um marco na história do DMT, já que seu status perante a lei haverá de ser reconsiderado.