O potencial dos canabinóides no tratamento do câncer

O interesse da comunidade científica pelas propriedades medicinais da maconha tem crescido na última década. Especificamente, a planta tem demonstrado grande potencial no tratamento de pacientes com câncer, e não apenas por seus efeitos relaxantes — estudos promissores indicam que a cannabis pode inibir o desenvolvimento de tumores, bem como amenizar os sintomas colaterais da quimioterapia.

Quando se fala em legalização da maconha, é comum que os argumentos priorizem o efeito alucinógeno da droga. Entretanto, o tetrahidrocanabinol (THC, o principal psicoativo da maconha) é apenas uma das substâncias presentes na planta. Já foram extraídos da Cannabis sativa mais de 80 compostos químicos diferentes — os chamados “canabinóides”.

Os canabinóides possuem interações complexas com um grupo de neuroreceptores no cérebro que compõem o chamado “sistema endocanabinóide”. Descoberto no final dos anos 80, esse sistema é naturalmente presente em organismos animais e está envolvido numa variedade de processos neurológicos, incluindo dor, humor, apetite e memória. Apesar de atuarem primariamente no cérebro, nem todos os canabinóides possuem efeitos psicoativos, e alguns podem afetar outros processos moleculares independentes do sistema endocanabinóide.

Alguns canabinóides podem retardar ou impedir o desenvolvimento do câncer

Um exemplo de canabinóide não-psicoativo é o canabidiol (CBD), que pode ser encontrado em concentrações de até 40% na planta da maconha. Estudos conduzidos nos últimos 40 anos já identificaram propriedades do CBD como sedativo, antipsicótico, antiepiléptico, antiemético (alívio de naúseas e vômito), anti-inflamatório e antioxidante, entre outras. Recentemente, o foco das pesquisas tem sido no potencial do canabidiol e de outros canabinóides como anticancerígeno.

Em termos simples, o câncer é formado, essencialmente, por anomalias no processo de divisão celular causadas por mutações. Por meio de uma série de processos, uma célula cancerígena pode se multiplicar, criar vasos sanguíneos, invadir a circulação sanguínea, “viajar” pelo corpo e formar outros tumores. Alguns canabinóides possuem mecanismos de ação que podem inibir várias destas etapas e retardar ou impedir o desenvolvimento do câncer.

Por exemplo, existem evidências conclusivas da propriedade anti-angiogênica de canabinóides como o THC, o CBD e a MA (molécula sintética). A angiogênese é a formação natural de novos vasos sanguíneos; no caso do câncer, ela permite que tumores malignos caiam na corrente sanguínea e sejam transportados para outras partes do corpo, onde originam novos tumores (processo conhecido como “metástase”). Além de inibir a angiogênese, alguns estudos sugerem que os canabinóides só atuam nas células vasculares na presença de processos como câncer ou inflamação, de forma a não danificar os vasos saudáveis.

Outro processo crucial para a metástase pode ser amenizado por canabinóides: a introdução de células cancerígenas em outros tecidos. Em alguns estudos, o canabidiol e o THC apresentaram o potencial de reduzir o poder de invasão das células cancerígenas em outras partes do corpo, inibindo a atuação de enzimas que degradam a parede celular. Ainda, num estudo pioneiro sobre câncer de pulmão, foi comprovado que estes três canabinóides aumentaram a suscetibilidade das células cancerígenas a anticorpos, resultando na sua eliminação.

82% dos oncologistas norte-americanos apóiam o uso de maconha medicinal

O uso médico da maconha não exclui a possibilidade da quimioterapia. Pelo contrário: pesquisas indicam que o consumo de cannabis durante o tratamento é mais eficaz do que outras substâncias para aliviar os efeitos colaterais e aumentar o bem-estar dos pacientes.

A quimioterapia é uma forma de tentar controlar o desenvolvimento do câncer por meio de substâncias citotóxicas que matam células cancerígenas. Entretanto, os remédios atuam também em células saudáveis, resultando em danos a órgãos não atingidos pelo câncer. Ainda, a própria natureza do câncer pode gerar efeitos colaterais fisiológicos e psicológicos; náusea, dor, depressão, perda de apetite e insônia são sintomas comuns.

Ao invés de receitar vários remédios diferentes para cada sintoma, cresce entre os médicos a tendência a receitar apenas um: a maconha. Em 2014, uma pesquisa revelou que 67% dos médicos norte-americanos apóiam o uso de maconha medicinal; o maior índice de apoio (82%) foi entre oncologistas e hematologistas. Em Israel, num estudo em 2015, 279 pacientes de câncer relataram melhorias significativas na dor, bem-estar, apetite e náuseas após a introdução de doses moderadas de cannabis no tratamento.

O leque de interações entre os canabinóides e o corpo humano é muito mais amplo do que os efeitos anticancerígenos. Mesmo que os estudos científicos só tenham ganhado força nas últimas quatro décadas, o uso medicinal da maconha não é recente: registros chineses de 2737 a.C. já descreviam as propriedades terapêuticas da Cannabis. A própria comunidade científica admite que existe na planta um imenso potencial médico inexplorado. A maconha pode conter a chave para a cura de doenças letais como o câncer, e é fundamental que esse aspecto seja considerado nos debates quanto à sua legalização.

Referências

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