O uso de crack e a produção da marginalidade

O crack é, essencialmente, uma forma fumável de cocaína. Por ser mais barato do que a maior parte dos psicoativos populares, o abuso da substância é mais frequente nas classes sociais de menor renda. Seu potencial aditivo é altíssimo, devido à sua concentração e forma de administração, e seus efeitos colaterais são consideravelmente mais nocivos em relação a outras drogas. A qualidade do crack comercializado pode variar drasticamente, agravando os riscos do consumo.
Atualmente, o Brasil é o maior mercado consumidor de crack do mundo — algumas pesquisas estimam cerca de 380 mil usuários regulares, enquanto outras admitem que podem ser mais de 1 milhão. Embora haja iniciativas governamentais para reabilitação dos dependentes químicos, os maiores fatores que impulsionam o seu uso são sociais, econômicos e políticos. O próprio fenômeno do crack ainda é pouco compreendido pela ciência, com o surgimento constante de novas formas da substância; a escassez de pesquisas mais aprofundadas e a falta de informação por parte da sociedade abrem caminho para a mitificação da droga e para o preconceito contra os usuários.
O crack chega ao cérebro mais rápido do que o pó, gerando efeitos mais potentes
O crack é produzido a partir do aquecimento de uma mistura de cloridrato de cocaína (o pó) e uma base, freqüentemente bicarbonato de sódio; o resultado é uma substância em forma de cristal ou “pedra” que pode ser fumada em um cachimbo. A via de administração do crack (pulmonar) permite que o psicoativo chegue ao cérebro mais rapidamente do que o pó, gerando efeitos imediatos e mais potentes.
Como as outras formas de cocaína, o crack atua no sistema de recompensas do cérebro por meio de uma descarga de dopamina, induzindo sensações de prazer e euforia. A “onda” dura entre 5 e 15 minutos; depois disso, a queda brusca nos níveis de dopamina causa a sensação de depressão, compelindo o usuário a fumar novamente.
Além de potencializar todos os riscos associados à cocaína em pó — aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão sanguínea, paranóia -, o crack libera metilecgonidina, que pode causar danos ao coração, pulmões e fígado. Além disso, a concentração elevada de dopamina no cérebro está associada a episódios de psicose. Como não há controle dos materiais utilizados na produção do crack e confecção dos cachimbos, existe ainda o risco de inalação de inúmeros produtos tóxicos. A prática de obter a droga em troca de sexo é frequente, aumentando a exposição a DSTs.
Em 1979, uma “tragada” poderia custar até 200 dólares
O termo “crack” foi citado pela primeira vez na mídia pelo jornal norte-americano New York Times, em 1985. Entretanto, relatos indicam que várias formas semelhantes da substância, então denominadas “cocaínas freebase”, já eram consumidas nos Estados Unidos desde 1974, quase uma década antes da popularização do crack nas periferias, ocasionando o primeiro surto mundial do consumo da droga.
Algumas fontes sugerem que as cocaínas freebase foram descobertas por traficantes norte-americanos numa tentativa de recriar a “pasta base” de cocaína, uma substância muito consumida no Peru nos anos 70. O uso de freebase era inicialmente restrito às classes mais afluentes, visto que sua produção requeria acesso a grandes quantidades de cocaína em pó — em 1979, uma “tragada” poderia custar entre 100 e 200 dólares.
No início dos anos 80, foi descoberto o que hoje é conhecido como crack: uma forma de cocaína freebase produzida com bicarbonato de sódio. Mais barato, mais concentrado e mais fácil de produzir, o crack expandiu o acesso à cocaína fumável para os usuários de menor renda, gerando um lucro alto e rápido para os traficantes e fortalecendo o tráfico nas periferias norte-americanas.
A facilidade de uso do crack foi um fator de peso para atrair os usuários
Existem poucos registros sobre o surgimento do crack no Brasil. Os primeiros relatos sobre o uso datam do final dos anos 80, em São Paulo; a primeira apreensão policial da droga na cidade ocorreu em 1991. Acredita-se que o maior aumento do consumo tenha se dado entre 1995 e 97. Parte deste crescimento se deve a estratégias de mercado dos próprios traficantes, que teriam esgotado o estoque de outros psicoativos disponíveis para fomentar a nova droga.
A inserção da droga nos presídios contribuiu em grande parte para o aumento de seu consumo: na época, em pleno surto de AIDS no país, o compartilhamento de agulhas para uso de cocaína injetável era responsável pelo alto índice de DSTs entre os presos. A facilidade de uso do crack foi um fator de peso para atrair os usuários de cocaína em pó que hesitavam em injetá-la. Devido ao fluxo de entrada e saída constante nas penitenciárias, não demorou para que a prática saísse das cadeias e se alastrasse para as periferias brasileiras, concomitantemente ao surgimento das “cracolândias”.
O preço é mais um facilitador do consumo constante do que motivador para o primeiro uso
As estatísticas sobre o crack no Brasil ainda são muito escassas para elaborar um quadro conclusivo. As pesquisas apontam que o país seja responsável por 20% do mercado mundial de cocaína e crack; os dados mais recentes, referentes a 2012, estimam em 2 milhões o número de indivíduos que já consumiram crack pelo menos uma vez na vida. Os dependentes podem chegar a um milhão, 360 mil apenas nas capitais.
Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Uso de Crack (2014), a maioria dos usuários no Brasil são homens, não-brancos (autodeclarados) e quase um terço tem entre 18 e 24 anos. 40% estão em situação de rua; 67% trabalham como autônomos ou em bicos, e menos de 20% chegaram a cursar o Ensino Médio. Menos de 8% declararam estarem envolvidos com o tráfico.

Ainda que o fator econômico seja influente no consumo de crack, a pesquisa levantou um dado interessante: menos de 2% dos usuários relatam ter começado a fumar por causa do preço barato. Em contraste, 58% declararam que foram incentivados por curiosidade ou por ter conseguido a droga facilmente. Essas estatísticas sugerem que o preço é mais um facilitador do consumo constante, quando o usuário já se encontra dependente, do que motivador para o primeiro uso; os verdadeiros vilões seriam a alta disponibilidade e a falta de informação sobre o crack.
O viés social pode ser mais efetivo do que a abordagem médica
Um grande empecilho para o tratamento eficaz do abuso de crack é a abordagem primariamente médica adotada pela academia aos estudos sobre o crack. Os artigos científicos brasileiros focam primariamente nos aspectos fisiológicos e psiquiátricos da dependência, deixando em segundo plano os problemas sociais que a envolvem; uma revisão de 59 artigos publicados até 2013 identificou apenas um veiculado em revista de Ciências Sociais, sendo os outros 58 voltados para a área de saúde.
O avanço proporcionado por políticas públicas mais recentes sugere que o viés social pode ser mais efetivo do que a abordagem médica. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o programa “De Braços Abertos”, da prefeitura municipal, visa integrar à sociedade os dependentes situados na cracolândia, no Bairro da Luz, provendo moradia em hotéis e trabalho remunerado, evitando a intervenção policial e deixando livre a opção pelo tratamento médico. Existente desde janeiro de 2014, a iniciativa contribuiu para reduzir significantemente a violência, o número de usuários e o consumo da droga na cracolândia.
O governo utilizou a “epidemia” como justificativa para implementar políticas de repressão violenta
Um ponto controverso do programa em São Paulo foi a instituição do “fluxo” — espaço na cracolândia onde os usuários podem fumar o crack livremente sob vigilância policial. O fluxo, acordo informal entre polícia, prefeitura e dependentes, é ilegal pela legislação brasileira. Porém, o poder público parece estar finalmente admitindo que a repressão policial, aliada à política proibicionista, é ineficaz no combate ao crack. Muito pelo contrário: agrava a situação.
O proibicionismo radical contra o crack começou nos Estados Unidos em meados da década de 80. Originado de interesses políticos, a guerra ao crack recebeu apoio popular a partir da imagem demonizada da droga e seus usuários, construída e propagada pela mídia. Vale ressaltar que a campanha só teve início quando a droga se disseminou nos bairros pobres, mais de dez anos após a popularização das cocaínas freebase.
A suposta “epidemia do crack” começou a ser alardeada pela mídia nos EUA em junho de 1986, quando as mortes de dois atletas famosos — Len Bias e Don Rogers — foram erroneamente associadas ao crack pelos noticiários. Nos meses seguintes, aproximadamente mil matérias sobre a droga foram veiculadas em jornais e revistas do país, protagonizadas por negros e latinos sendo detidos em bairros pobres por associação ao tráfico.
Posteriormente, investigações científicas comprovaram que a epidemia do crack alardeada pela mídia foi uma construção sensacionalista que fortaleceu o processo de marginalização das periferias. Diante do crescente pânico moral, o governo utilizou a “epidemia” como justificativa para implementar políticas de repressão violenta ao crack e outras substâncias. Em 1988, foi aprovada pelo Congresso uma das leis mais autoritárias da Guerra às Drogas, que impunha penas mínimas severas à posse de crack, cocaína ou pasta base.
Se o morador de periferia já é marginalizado, o viciado em crack é um completo excluído do sistema
Mais de duas décadas depois, a mídia brasileira começa a tomar o mesmo rumo. O mesmo termo “epidemia” tem se tornado mais corriqueiro nas notícias nacionais sobre o crack — ainda que não haja evidências científicas conclusivas sobre o crescimento do uso. A droga também tem sido enquadrada com freqüência como uma questão de segurança pública, com reconhecidos programas de TV sensacionalistas validando o uso de força excessiva da polícia contra grupos sociais marginalizados.
Estatísticas da Pesquisa Nacional sugerem fortes relações entre o proibicionismo, a marginalização e o abuso de crack. A substância é compulsiva: 56% dos usuários fumam diariamente, numa média de 13 pedras por dia. A média de tempo de uso dos entrevistados foi de 80 meses. Fragilizados pelo consumo, estigmatizados e desprovidos de fonte de renda (67% se declaram autônomos ou sem emprego fixo), muitos recorrem ao crime como forma de sustentar o vício: 41% dos usuários informaram já terem sido presos no ano anterior à pesquisa; destes, 31% foram detidos por uso ou posse de drogas, 20% por assalto ou roubo e 11% por tráfico.
Estudos qualitativos também ressaltam os problemas estruturais que facilitam e potencializam o abuso de crack em populações marginais. É comprovado que situações traumáticas, como miséria, violência doméstica, negligência familiar e abuso sexual são fatores que aumentam a vulnerabilidade do indivíduo ao vício, tanto em crianças quanto em adultos. Algumas destas situações são decorrentes do próprio estigma do usuário de crack, como violência policial, rejeição social e profissional e preconceito sofrido por parte dos próprios médicos em unidades públicas de saúde.
Os riscos do crack vão muito além dos efeitos fisiológicos e psicológicos da substância. Se o morador de periferia já é marginalizado, o viciado em crack é um completo excluído do sistema; a estigmatização o impede de reatar qualquer vínculo com a sociedade, confinando-o ao uso recorrente da droga. As ações policiais para inibir a venda do crack e os tratamentos psiquiátricos para reabilitar o usuário não podem ser eficazes enquanto o governo e a população se negarem a reconhecê-lo como cidadão.
Mais informações
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