A Internet acessada por um 486

Por Danilo Miranda, Redator da Tritone

No início de tudo, 3 ou 4 pessoas na sala de aula tinham computador em casa. Lembro muito bem quando chegou um “486” em casa, com Windows 95 (meu deus, tinha papel de parede e tudo). Que beleza. Não precisava mais ir até o escritório do meu pai pra mendigar um tempinho pra jogar Jill, Wacky e Doom. Na época, era um dos melhores computadores da cidade (disse o vendedor e formatador de computadores desde a época dos computadores XP e 286, em Caldas Novas, interior de Goiás).

Este não era meu PC, é um PCqualquer

Quando nem Internet eu tinha — isso em 1998, acho — eu ia pra casa de alguns amigos (sempre fui interesseiro, só tinha amigos que tinham Super Nintendo, posteriormente, PlayStation, ou que tinham computador e, posteriormente, Internet. Me processem) o ápice da descontração era entrar no chat UOL, entrar com o nick D@nilo na sala de 12 a 17 anos e mandar ver. Era 2 horas pra abrir a página (não que minha internet a rádio se diferencie muito disso, mas enfim) e mais uns 5 minutos até digitar um “Oie quer tc?”. Mas alguma coisa acontecia no meu coração. Aquela soma de gastar telefone (pulso)+casa dos outros+tempo escasso era incrível. Quem não passou por isso, perdeu uma bela parte da Internet. Eu até fazia trabalho só com quem tinha Internet, arrumava um pretexto pra conectar e pesquisar algo no Cadê:

Mas acabava mesmo era no Chat UOL.

Aí chegou a internet discada. Antes de quaisquer discussões sobre Marco Civil e limitação de franquia de dados, a internet era limitada POR HORAS. E fazia sentido: com uma conexção de 56kbps, não havia porquê se pensar em “limite de dados”. Era por tempo mesmo. E funcionava, infelizmente.

Conectávamos, geralmente, no clássico horário: dias de semana após 0h e no fim de semana após sábado 14h. Claro que dávamos umas boas fugidas durante outros horários, o que aumentava bastante a conta telefônica, um mês. A desculpa? “A internet cai muito”. E caía mesmo, mas a culpa era minha. Eu que conectava fora do horário. Pai, se você estiver lendo isso, saiba que você estava certo, sim.

Sexta-feira, por não haver aula cedo no sábado, quando dava 22h, o coração já acelerava. Mal via a hora de entrar no ICQ e me enturmar com a galerinha antenada da minha sala. Fora que eu podia dar um search por “sexo feminino em Caldas Novas online no ICQ” e ir garimpando minhas pérolas. Dava 1 da manhã mas não dava meia noite. Até que chegava a hora. Aquele barulho de discagem (que posteriormente aprendi a suprimir para ninguém me ouvir conectando em horas inapropriadas) soava como um anjo tocando harpa enquanto você entrava no céu.

Conectado. Um ícone no canto da tela indicava isso e me remetia a grandes emoções. Passava tanto tempo desejando entrar naquela telinha mágica que, na hora, esquecia o que queria fazer. Entrava no Bol: mensagem nova, coração acelerado. Humortadela: meu deus, como eu ria do Humortadela. E tinham os sites hacker, todos hospedados em cortiços como o CJB.net e o HPG. Tais quais artesãos, os especialistas em internet em 1998 se esmerilhavam para chegar até um resultado bacana, como podemos observar:

O ICQ. Como o ICQ era legal. A cada letra digitada, o som catártico da máquina de escrever. Quando qualquer mensagem chegava, era um som tipo “Oh Ou…”. Nessa época, a turma dos favorecidos digitais já ia pra umas 10 pessoas, entre 45 da sala de aula. Ficávamos mais amigos e adorávamos criar piadas internas pra contar na frente dos trouxas que não tinham computador. Uma ostentação só pra quem podia, claro.

Chegaram as tais gravadoras de CD. “Nossa, agora dá pra juntar em um disco (sim, a gente ainda falava disco) só as músicas que você quer!”. Não acreditei. Meu colega comprou uma, por mais ou menos R$400,00. Gravava em 4X (pronunciava-se “quatro velocidades”). Lindo. Ele deve ter lucrado um bom dinheiro, pois todo mundo pagava R$15,00 ou R$20,00 pra ter um álbum chamado “Seleção Fulano”. Faziam-se as listas com as músicas, o sujeito entrava no Napster e, depois de 15 dias, se ele fosse esperto, entregava pra você. Aquilo parecia coisa de outro mundo, e talvez fosse. Quem tinha 1000 músicas no computador era considerado um Deus.

O ICQ foi dando espaço ao IRC. Uma sem quaisquer inovações visuais (pelo contrário), difícil de se entender, cheia de comandos difíceis de se aprenderem. Mas era um pitel. Pelo Scoop Script, ou pelo AvAlAnChE você acessava canais. Eu vivia no #uberlandia, #engenheiros, #anormais e no #caldas (no seu ápice, abrigou 350 pessoas ao mesmo tempo). Você tinha cargo de operador (tipo um dono de comunidade), de voice (moderador) e usuários comuns (se ferra aí, trouxa). Você registrava um nick pra ninguém poder usar e se deleitava pra conversar no meio de chats simultâneos ou privativos. Tinham jogos, canais só para downloads. Praticamente uma prévia do o Orkut.

ERA ASSIM QUE NÓIS SE DIVERTIA

E o Orkut? Não quero falar do Orkut, pois a saudade é um prego e o coração é um martelo. Fere o peito, dói na alma e etc. Veio também o Google Plus e seus incríveis 500 usuários ativos. Quase na mesma leva, faleceram o Google Wave (tá lembrando? Google Wave, que ia substituir o email. Lembrou? Quase? Faz um esforcinho a mais) e — talvez mais saudoso de todos — Google Reader.

Hoje, vendo o Facebook com suas mil funções, Twitter modernizado, smartphones incríveis, Periscope, Snapchat, Vine, YouTube e mil outras provas de que já moramos no futuro, dá pra dizer: “eu morava na Internet na época que isso aqui tudo era rua de terra”. E claro, os jovens vão esperar você sair de perto pra comentar “nossa, quem era esse tiozinho que passou por aqui?”. Nada mais justo.

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