O excêntrico caso do redator que teima em viver sem Meio & Mensagem ou programa Reclame — Primeiro Ato.

Por Victor Machado, Redator da Tritone.

Cenário: sala pouco iluminada e repleta de cadeiras, onde um desses grupos de apoio a soldados traumatizados ou pessoas com dificuldade para controlar a raiva se reúnem periodicamente e conversam sobre seus problemas.
- Olá! Meu nome é Victor, sou redator e não sei a última do Clube de Criação.
- Oi Victor!

A rápida situação descrita acima pode beirar o nonsense, mas é a melhor forma de descrever um sentimento que me bate dentro da agência. E até mesmo fora dela, conversando com amigos que também escolheram essa vida. Não tenho interesse pela novidade do mercado, nem creio que isso me deixe desatualizado. O que é relevante, sempre vem sem forçar a barra.

Imagino que, entre os frequentadores do blog, estejam estudantes de publicidade e pessoas curiosas com o meio da comunicação. Portanto, a afirmação que um profissional de propaganda não se interessa pelo universo do próprio ofício pode passar uma imagem de descaso… E é exatamente isso.

Veja bem, o descaso aqui não é com o trabalho. E sim com a forma como respiro o dia a dia. Dizem que o ser da espécie que habita os setores criativos das agências, geralmente, é um artista frustrado. Músico, escritor, desenhista, artista plástico, bailarino, ator…Você escolhe, tanto faz! Não sei se me encaixo em alguma dessas situações, mas me interesso por todas elas.

Na faculdade, a lista de livros obrigatórios e revistas sobre o mercado era extensa. Comprei um livro técnico na segunda semana de aula. Até então, eu era um leitor voraz de revistas em quadrinhos. Abri o tal livro, li até a página cinco, fechei e rasguei. É verdade! Claro que foi um exagero, mas foi um exagero deliciosamente honesto. Daqueles permitidos exclusivamente para os adolescentes que tem certeza de toda e qualquer coisa. Ali mesmo, decidi que leria muitos livros durante os quatro anos que viriam pela frente. Nenhum deles atendendo aos pedidos dos meus professores, é claro!

Passei o tempo todo lendo literatura brasileira e filosofia.

E continuei com os quadrinhos.

E me aprofundei em música.

E conheci o clube de cinema da cidade.

E assisti festivais de teatro.

Durante esse processo, cheguei a pensar que tinha escolhido a profissão errada. Gostava das aulas e já estagiava em uma house, mas nunca quis saber quem estava ganhando o prêmio tal ou qual era a contratação de ouro da agência bola da vez. Estava ocupado pesquisando discos psicodélicos de 1967, devorando todos os livros do Moacyr Scliar e explorando os botecos da cidade. Em paralelo com as aulas, me alimentei de referências. De toda a espécie. Obsessivamente.

Terminei a faculdade e, com a dúvida se aquela era mesmo a minha praia, larguei mão da profissão. Vivi outras coisas, morei em outras cidades, respirei outros ares, conheci mais pessoas. Percebi que as novas experiências continuavam me alimentando. Referências em novos sabores e outros tipos de embalagens. Mais complexas! Pensei muito na vida, na profissão e vi que criativos precisam dessa bagagem. Afinal, a criatividade vem da necessidade de improvisar e, quanto maior o seu repertório, maiores são as suas chances de resolver as coisas de forma satisfatória. Quer ilustrar? Sonha em escrever? Leia, ouça, assista de tudo.

As várias referências são um prato cheio para o criativo. É o que dá sabor a qualquer peça. Observar e conversar com todo o tipo de pessoas faz mais diferença do que um infográfico na hora de escrever para elas.

Com baterias renovadas, voltei ao mundo da publicidade. As dúvidas sobre a profissão me assombram até hoje e gosto que seja assim. Minhas certezas absolutas ficaram com o adolescente rasgador de livros técnicos. Ah, e confesso que hoje já li alguns nessa pegada. Vale a experiência. Nem que seja para criticar com embasamento, hehe!

Pois é, com a idade ficamos mais experientes em relação à profissão e a vida. Se bem que, certas coisas não mudam e eu continuo preferindo ler os componentes químicos no verso do shampoo a me atualizar com uma notinha quentíssima sobre o vai e vem do mercado. Sem dúvida, não é esse o motivo que me trouxe até aqui.