A incógnita Dunga

A Trivela juntou as pistas do passado de Dunga, como capitão da Seleção em 1994 e 1998 e como comentarista de TV em 2006, para entender quem é o substituto de Parreira e quais os desafios de sua primeira experiência como treinador

Por Carlos Eduardo Freitas

Poucas semanas depois da eliminação do Brasil pela França na Copa do Mundo da Alemanha, Carlos Alberto Parreira anunciou que deixaria a Seleção. A notícia já era dada como certa, embora houvesse a especulação de que ele permaneceria como coordenador. A partir daí, a grande dúvida da torcida brasileira passou a ser: quem será o novo técnico da Seleção? Depois que o favorito de todos, Luiz Felipe Scolari, renovou seu contrato com Portugal até 2008, outros candidatos surgiram. Paulo Autuori, campeão mundial pelo São Paulo, que teve seu nome ventilado nos dias seguintes à derrota para a França, teria perdido força com a saída definitiva de Parreira. A bola da vez para a maior parte da imprensa e da torcida parecia ser Vanderlei Luxemburgo — houve, inclusive, quem noticiasse sua escolha. A grande surpresa veio no dia 24 de julho. Em vez de Luxemburgo ou Autuori, Dunga foi o escolhido.

Sim, Dunga. Sem nenhuma experiência como treinador, o capitão da Seleção em 1994 e símbolo do fracasso em 1990 foi anunciado por Ricardo Teixeira com o objetivo de, nas palavras do cartola, “atingir em cheio o anseio dos torcedores brasileiros, que querem na Seleção um treinador vibrante”. Em outras palavras, como não conseguimos Felipão, vamos de Dunga mesmo.

Não são poucas as dúvidas que pairam sobre o novo treinador. Quais seus paradigmas, preferências e desafios? Para ter uma ideia do que esperar da nova era Dunga, a Trivela ouviu alguns ex-jogadores com quem ele atuou, além de pessoas com quem trabalhou durante a Copa de 2006, em que foi comentarista de TV. Pelo menos em teoria, o ex-volante dá mostras de que sabe ver e analisar uma partida de futebol. Resta saber se, na hora de fazer as convocações e de tomar decisões, ele manterá sua filosofia, calcada na vibração e no discurso sincero, ou se terá uma postura de submissão aos cabeças da CBF. É aí que reside o maior risco.

Teoria e prática

Ainda que venha à memória a passagem de Paulo Roberto Falcão, que, no segundo semestre de 1990, chegou à Seleção em circunstâncias bastante semelhantes — fracasso numa Copa regado a displicência de jogadores de clubes europeus –, o fato de Dunga nunca ter comandado uma equipe antes não chega a ser a maior preocupação. De acordo com ex-jogadores que se tornaram treinadores, diferentemente do trabalho que se faz num clube, em que é necessário formar jogadores, na Seleção eles já estão prontos, sem a necessidade de aprender conceitos básicos. “O importante é ter um padrão de jogo, saber escolher os atletas e como o time pode render melhor, independentemente de o jogador ter nome ou não”, diz Zetti, companheiro de Dunga na Copa de 1994.

Marco van Basten, ex-jogador do Milan e da Holanda, também assumiu a seleção de seu país em 2004 sem nunca ter treinado um time e pensa da mesma maneira. “A vantagem é que sempre temos o luxo de poder chamar outros jogadores, enquanto no clube você trabalha com aqueles 25 que tem à disposição”, comentou o holandês, pouco antes do Mundial da Alemanha.

Na avaliação de seus ex-companheiros da época em que era jogador, Dunga tem, pelo menos, um bom conhecimento teórico sobre o esporte. “Como cabeça-de-área, ele tinha uma visão de jogo muito boa”, avalia Leonardo, com quem jogou em 1994 e 1998. Sua recente passagem como comentarista do canal por assinatura BandSports durante a Copa do Mundo confirma a avaliação.

Dunga alertou desde o princípio da partida contra a França para a jogada que, mais tarde, originaria o gol da vitória de nossos algozes. “O Brasil tem de tomar cuidado com uma jogada que a França está tentando, com alguém entrando em diagonal nas costas do Juan e do Roberto Carlos. Estão colocando a bola toda vez em cima do Cafu e depois tentam cruzar em diagonal atrás da defesa do Brasil”, analisou, logo aos 12 minutos do primeiro tempo. O gol francês, para quem não se lembra, nasceu de uma cobrança de falta de Zidane pela direita, em que Henry passou entre Juan e Roberto Carlos antes de entrar sozinho na área.

O difícil é avaliar como Dunga vai transmitir sua filosofia e aquilo o que espera do time para os jogadores. “Às vezes, o cara tem um conhecimento muito grande, mas falta didática”, alerta Mauro Silva. Surge aí outra dúvida: qual será o estilo de cobrança de Dunga? Afinal, o que se espera é aquele jeito vibrante de gritar e não parar de reclamar por um instante sequer, tal qual nos tempos de jogador. Esse estilo do novo treinador, bastante valorizado pelo presidente da CBF e por todos aqueles que aprovaram sua contratação, porém, sempre teve restrições entre seus colegas.


Publicado originalmente na revista Trivela nº 7, setembro de 2006

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