O cristão entre o ceticismo e o dogmatismo

Tiago Cunha
Mar 12 · 8 min read

Existe uma dose saudável de ceticismo? O historiador Philip Schaff responde com equilíbrio essa questão, ao afirmar que “o ceticismo pode estimular a investigação, destruir preconceitos, dissipar superstições e provocar defesas mais hábeis e fortes da verdade”. Schaff, porém, enfatiza que

A missão da dúvida é negativa. Ela pode destruir, mas não pode construir. A fé é a mãe frutífera do conhecimento, a pioneira das invenções, descobertas e de todas as grandes realizações. A fé pode remover montanhas de dificuldades e é certo que terá sucesso no fim.

Na história da Filosofia, sempre foi constante a busca de uma posição equilibrada entre o ceticismo e o dogmatismo. Vemos isso de maneira exemplar na obra de Immanuel Kant, como o prefácio da Crítica da Razão Pura deixa claro. Para Kant, a metafísica, durante muito tempo, havia sido regida de modo despótico pelos dogmáticos. Por outro lado, em sua época, ela havia caído em descrédito por ação de céticos, a quem Kant chama de “nômades que abominam todo cultivo duradouro do solo”. Vê-se que, para Kant, nem dogmáticos nem céticos são figuras intelectuais respeitáveis, e a verdadeira filosofia deve buscar fundamentar suas verdades longe desses dois extremos.

Mas o que são o ceticismo e o dogmatismo? Segundo o dicionário Houaiss, ceticismo é a

doutrina segundo a qual o espírito humano não pode atingir nenhuma certeza a respeito da verdade, o que resulta em um procedimento intelectual de dúvida permanente e na abdicação, por inata incapacidade, de uma compreensão metafísica, religiosa ou absoluta do real.

O mesmo dicionário define dogmatismo como um “pressuposto teórico, comum a diversas doutrinas filosóficas, que considera o conhecimento humano apto à obtenção de verdades absolutamente certas e seguras”.

O cristão e o ceticismo na Bíblia

O ceticismo não é condenado de forma absoluta na Bíblia; ao contrário, há momentos em que ela ordena expressamente que sejamos céticos. Esse é o caso da conhecida passagem da carta de João que diz: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos, se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora” (1Jo 4.1). Cristo também alertou seus discípulos sobre a necessidade de exercer o ceticismo para com falsas reivindicações de messianidade: “Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.23, 24). Nessas passagens, o ceticismo não é recomendado como um valor em si, nem mesmo como um método epistemológico, mas está pressuposto que há uma verdade a ser conhecida e que há pessoas dispostas a fraudar e enganar, de modo que se faz necessária uma dose de ceticismo para evitar ser iludido por falsas reivindicações.

O ceticismo como método, porém, nunca é aprovado na Bíblia. O que move a igreja é a fé, não o ceticismo. Na sua carta aos Colossenses Paula orienta que eles tivessem cuidado para que ninguém viesse a enredá-los “com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8). Já na sua segunda carta aos Coríntios, Paula afirma ousadamente que “as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.4,5). Remetendo à citação inicial de Schaff, destruir é da tarefa da dúvida, do ceticismo.

Podemos destruir as fortalezas, isto é, os abrigos intelectuais das filosofias seculares de nossa época, por meio do ceticismo quanto às reivindicações de conhecimento (ou da falta dele) que são feitas pela filosofia pós-moderna em voga. O cristão pode e deve ser cético quanto a afirmações do tipo: “Não existe verdade absoluta”, ou “Deus, se existir, não pode ser conhecido”, ou “o cristianismo não é uma opção aceitável para a nossa geração”. Afirmações como essas não passam de dogmatismo travestido de humildade intelectual. O cristão também deve ser cético quanto à suposta neutralidade da erudição secular, seja ela de origem científica ou filosófica. A reivindicação de neutralidade tem servido para excluir a priori o cristianismo do debate público, relegando-o à esfera do valor privado ou individual.

O cristão e o dogmatismo

Ao contrário do ceticismo, o dogmatismo tem sido visto com menos desconfiança na Igreja cristã. Van Genderen e Velema definem dogma como a “doutrina que a igreja, apelando à Palavra de Deus, sustenta como normativa”. A própria teologia, enquanto ciência, tem sido chamada de Dogmática. Para além desse sentido positivo da palavra dogma e dogmático, há um aspecto negativo no dogmatismo. Se tomado como princípio de investigação filosófica e científica, o dogmatismo emperra a busca pelo conhecimento e dificulta o alcance da verdade. É contra essa tendência paralisante do dogmatismo que o teólogo e poeta Isaac Watts salienta que “um espírito dogmático naturalmente nos leva à arrogância de mente e dá ao homem, na sua conduta, um ar de excessiva altivez e pretensão”. Watts afirma ainda:

Um espírito dogmático inclina o homem a censurar seu próximo. Cada uma de suas opiniões lhe parece como se escritas, por assim dizer, com raios de sol, e ele fica irado com seu próximo que não vê as coisas pela sua mesma ótica. Ele é tentado a desprezar seus interlocutores como se fossem pessoas de entendimento rasteiro e obscuro, porque não acreditam no que ele diz.

Talvez fosse pessoas desse tipo que Paulo tinha em mente quando advertiu Timóteo acerca dos que se ocupavam com “fábulas e genealogias sem fim, que antes promovem discussões que o serviço de Deus, na fé” (1Tm 1.4), pessoas essas que “se perderam em loquacidade frívola, pretendendo passar por mestres da lei, não compreendendo, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações” (1Tm 1.6,7). É sempre sedutor enamorar-se de suas próprias ideias e propagá-las como se fossem imunes às críticas, mas nossa própria circunstância de seres caídos, cujas mentes foram afetadas pelo efeito noético do pecado, deveria nos levar à humildade intelectual. John Owen chama a atenção para o caráter incompleto do nosso conhecimento, até mesmo na teologia:

Toda época tem seu lugar na descoberta da verdade (…) Não é de se maravilhar que nem toda verdade tenha sido descoberta. Algo pode ser revelado aos que são diligentes (…) Acaso todas as profundezas da Escritura, onde os elefantes podem nadar, já foram compreendidas completamente? Basta que cada um observe o progresso do último século na descoberta das verdades de Deus e dificilmente será tão obstinado em pensar que nada mais há para ser descoberto.

A sede por novas descobertas move a ciência, e, como dizia Aristóteles, foi o espanto que deu origem às investigações filosóficas. Mas o dogmatismo cerra o caminho da investigação e declara que não é necessário buscar verdade alguma, pois tudo já foi revelado.

Entre o ceticismo e o dogmatismo

É evidente que reconhecemos que há um depósito de verdades da fé que precisa ser recebido sem questionamentos. Dentre essas verdades, podemos apontar para as grandes doutrinas expressas nos credos da Igreja, que foram e são aceitos pelos cristãos como expressão fiel do ensino bíblico. Agostinho dizia com sabedoria:

Não te entregues aos meus escritos como se fossem as Escrituras canônicas; crê nestas sem hesitação, mesmo quando não chegares a compreender o que acreditas; com respeito a meus escritos, digo: “não deposites toda a fé quando não tens certeza, a não ser que passes a ter essa certeza”. A meus críticos: “Não te ponhas a corrigir meus escritos levado pela tua opinião ou por preconceitos, mas apoiado na leitura das Sagradas Escrituras ou em razões bem fundadas. Se neles encontrares algo de verdade, essa verdade não é minha, mas compreendendo-a e amando-a é tua e minha; e se alguma falsidade encontrares, o erro é meu, mas evitando-o fazes que ele não seja nem teu nem meu.

Essa é uma boa postura, que dá o devido respeito às Escrituras, ao mesmo tempo que previne os arroubos de um espírito excessivamente crítico. A própria Bíblia é a revelação de Deus, e é o único guia e árbitro final da fé e da prática da Igreja. A fé na Escritura, longe de enervar, promove a busca pelo conhecimento, oferecendo tanto os princípios e as leis que regem nossas mentes quanto mostrando os obstáculos que estão no nosso caminho.

As leis do nosso pensamento refletem a nossa criação à imagem e semelhança de Deus. Esse fato tem profundas implicações para nossa ontologia, epistemologia, ética e política. Sem levar em conta essa verdade de como fomos criados e do propósito de nossa existência, estamos fadados a uma busca inútil por um alvo inalcançável. Há uma passagem interessante em Alice no país das maravilhas, em que Alice, ao chegar a uma encruzilhada, pergunta ao gatinho de Chesire: “O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”. O gatinho sabiamente responde: “Isso depende muito de para onde você quer ir”. Alice, então, responde: “Não me importo muito para onde…”. O gatinho então finaliza: “Então não importa o caminho que você escolha”. O problema da filosofia e da ciência dos nossos dias é exatamente o de Alice. Nem uma nem outra sabe para onde ir; por conseguinte, pouco importa o caminho que tomem, desde que cheguem a algum lugar.

O cristão não está preso nessa armadilha epistemológica do “não saber para onde ir”. Ele sabe muito bem onde está, quem o colocou aqui, qual sua missão nesse mundo e qual o seu destino final. Com a bússola da Palavra para guiá-lo, ele consegue ver o caminho que está oculto aos eruditos dessa geração. Era por isso que Paulo podia afirmar ousadamente: “Falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória” (1Co 2.7,8).

Por outro lado, o cristão está ciente do grande obstáculo que se encontra em seu caminho, isto é, o seu próprio pecado. Longe de identificar os males da humanidade primariamente na sociedade, no sistema político vigente, em forças espirituais malignas ou mesmo no fatalismo pessimista, o cristão sabe que a força do pecado interior macula todas as suas realizações. Há no homem um grande potencial para o mal, que o empurra constantemente para um abismo de destruição. O cristianismo, especialmente na sua vertente reformada, não tem uma visão pessimista do homem. Antes, sua avaliação do homem é realista. Nossas mais altas e nobres aspirações, nossas mais altas realizações, todos os nossos empreendimentos estão inescapavelmente manchados por um mal virulento que conspurca todos os nossos atos. Estar ciente disso é em si uma vantagem, pois saber que se está doente é o primeiro passo para buscar a cura. E a cura só pode ser encontrada na redenção oferecida gratuitamente em Jesus Cristo.

Concluímos que o cristão deve evitar os extremos do ceticismo e do dogmatismo. Ainda que, em determinados momentos, uma boa dose de ceticismo e dogmatismo sejam necessárias, não se pode ter uma mente puramente inquisitiva, vendo na busca da verdade um alvo em si mesmo. Deve-se buscar a verdade crendo que se pode alcançá-la. Eis aí a única síntese aceitável de dogmatismo e ceticismo. Como dizia o escritor inglês G. K. Chesterton,

O propósito de uma mente aberta é o mesmo de uma boca aberta: Serve para fechar em algo. E uma mente aberta em busca da verdade busca a verdade e precisa se fechar, para que não fique perpetuamente aberta, se ficasse assim seria uma missão falha.


Referências

GENDEREN, J. van; VELEMA, W. H. Concise Reformed Dogmatics. Phillisburg: P&R Publishing, 2008

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2015

OWEN, John. The Death of Death in the Death of Christ. Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/owen/deathofdeath.i.v.html>. Acesso em 15/06/18.

SCHAFF, Philip. Theological Propaedeutic: a general introduction to the study of Theology. New York: Charles Scribner’s Sons, 1893

WATTS, Isaac. The improvement of the mind. Disponível em: <https://archive.org/stream/improvementofmin00wattuoft#page/13/mode/1up/search/dogmat>. Acesso em 15/06/18.

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