Internet e escola, espaços de construção da identidade

Já se foram os dias em que o Facebook, por exemplo, fornecia uma rede de relações sociais conhecidas, familiares, estruturantes. Quando o uso se limitava a aproximar pessoas conhecidas que eventualmente ou circunstancialmente encontravam-se distantes. Lá ocorriam quase todas as ações que atualmente estão espalhadas pela internet. Agora é comum, postar fotos no Instagram, compartilhar momentos precisos no Snapchat, enviar recados, expressar opiniões e combinar coisas pelo WhatsApp, atualizar-se pelo Twitter etc.
Uma variedade de opções que encanta.
Não adianta os adultos quererem acompanhar sistematicamente por onde andam e como os jovens usam os recursos das redes sociais, quando chegamos muito perto, migram. Estão à procura de espaço, expandem seus territórios continuamente. Um conhecimento básico do que são, como funcionam e porque são populares; é preciso, pois não adianta estarmos alheios às experiências positivas e negativas que a rede proporciona. Por lá enviam mensagens, postam pequenos textos (micro-blogs/twitter, tumbler,whatpad,fanfics), produzem e consomem enorme quantidade de conteúdo (fotos, músicas, vídeos/jogos), criam relacionamentos, compartilham informações, geolocalizam e marcam territórios etc. Muitos deles subvertendo os usos originais e incorporando-os as suas necessidades do expressão.
É preciso conhecer mais sobre esse campo, entender que há aspectos positivos nas redes sociais: pode aproximar amigos, promover o sentimento de pertencimento, dar suporte genuíno em momentos ou situações difíceis, despertar a generosidade e o compartilhar, permitir a livre expressão e a descoberta de si, ampliar o repertório etc. Quando mais sabemos sobre isso e o quanto são importantes para os jovens, melhor será nossa conversa com eles sobre as escolhas que fazem e o quanto são ou não realmente válidos ou necessários para suas vidas. A tecnologia, a internet e as redes sociais não são um problema.
Também, não tem sido a dificuldade em impor limites. O problema está em saber como fazer isso, como delimitar o que pode ou não pode. No entanto, sabemos que para construir sua identidade, as crianças precisam vivenciar relações claras e definidas, identificar objetivos e limites firmes. Ao propor contornos e limitações, o ponto principal é ser claro, firme e coerente. Isso ajuda a construir um mundo com sentido. No mundo virtual as relações não se apresentam dessa forma.
A tarefa de construir uma identidade própria, torná-la coerente e submetê-la à aprovação pública exige um enorme e crescente volume de recursos e um esforço incessante. Os jovens aprenderem desde cedo que devem constituir a identidade na relação com as novidades, que são pontos de orientação frágeis e que mudam constantemente. Qual das alternativas de identidade escolher e, tendo escolhido uma, por quanto tempo se apegar a ela? Há mais disponibilidade para testar caminhos do que para escolher meios e um fim determinado, a ilusão de inúmeras possibilidades identitárias torna-se uma verdade. A construção da identidade assume a forma de uma experimentação infindável de conteúdos voláteis. Isso representa um acréscimo violento da ansiedade, pois não é possível saber se a identidade que foi escolhida e compartilhada é a melhor que se pode obter e a que provavelmente trará melhor resultado social, satisfação, aceitação, sucesso. Como afirmou Bauman “em nosso mundo fluido, comprometer-se com uma única identidade é um negócio arriscado. As identidades são para usar e exibir, não para armazenar e manter. Seria insensato culpar os recursos eletrônicos e a internet ou redes pelo estado das coisas. É justamente o contrário: é porque somos incessantemente forçados a torcer e moldar as nossas identidades, sem ser permitido que nos fixemos a uma delas, mesmo querendo, que instrumentos para fazer isso são acessíveis e tendem a ser entusiasticamente adotados por milhões.”.
Do ponto de vista da representação que fazemos de nós mesmos, há uma importante diferença entre atitudes e traços de personalidade. Atitude é fruto da nossa vontade, mas os traços de personalidade não podem ser escolhidos. Ou seja, há limites para a modificação de si mesmo. Sempre há um grupo de atitudes e traços de personalidade que são muito valorizados pela sociedade e que produz a exclusão de pessoas que estão fora desse padrão, direcionando a elas julgamentos negativos do grupo. Sendo assim, identificar em si alguns traços de personalidade que são desvalorizados pela sociedade ou grupo de pertencimento do jovem, abala a imagem que ele tem de si, gerando uma enorme dificuldade para ver a si mesmo como pessoa de valor, sentindo-se desprezado e com vergonha de si mesmo.
Esse sentimento de “não combinar com o grupo” não é novo, todos nós identificamos isso em nossa história de vida, de uma forma ou de outra. O problema é atualmente maior, porque a sociedade contemporânea enfatiza e promove a construção de personalidades na direção da vaidade, cujos valores estão na aparência e não nas virtudes pessoais. A sociedade enfatiza o espetáculo, fortalecendo o valor do olhar e da admiração alheios como essenciais. O jovem quer e precisa chamar a atenção, pois passar desapercebido é seu maior medo. Os interesses agregados a si devem sempre gerar frutos e manter o entusiasmo do outro pela relação. Assim exigimos que as coisas nos indiquem por que merecem nossa atenção, de forma instantânea e imediata. Elas devem estar prontas para consumo, possíveis de serem descartadas pelo tempo para podermos consumir rapidamente outras que são novidades.
Para chamar atenção para si, tudo pode virar espetáculo — depende do que se tem para mostrar — a intimidade, por exemplo, é frequentemente um espaço garantido de afirmação da singularidade, algo que ninguém tem, que o diferencia e com certeza chama atenção dos outros, por ser particular e de controle pessoal. O jovem pode ver aí a possibilidade de dar-se como espetáculo. Espetáculo que procura garantir a visibilidade, que pode levar as pessoas a receber a atenção e os olhares que a destacam, que ilusoriamente e de forma efêmera, o valorizam.
O valor que cada pessoa atribui a si depende, pelo menos em parte, do valor que os outros, ou certos outros, lhe atribui. É importante impressionar, mostrar-se superior, ofuscar ser admirado. Quem é vencedor? Aquele que se destaca, que foi ou parece ter ido além dos demais, e cujo sucesso vem acompanhado de marcas que o tornam visível aos olhos de todos. Não é só se dar bem na vida, mas melhor que os outros. Outra forma é destacar pelo consumo, com o objetivo de agregar valor social — e não sentimental — a si mesmo, ou seja, adquirir objetos como um crachá, uma marca que se incorpora à identidade, ajudando a perceber-se e ser percebido como um vencedor em qualquer lugar, situação ou momento de vida. É comum ver nas propagandas e em qualquer promoção de um produto, o quanto estão investidos de traços de personalidade e identidade socialmente valorizados. Isso também não é novo na sociedade. Não se vende só o produto, vende-se um conceito, uma identidade.
Na busca da aprovação alheia, do reconhecimento social pode tanto haver reciprocidade de pessoas consideradas como iguais, como pode ocorrer a exclusão, levando ao martírio da invisibilidade. Nada mais humilhante do que nunca ser percebido pelos outros, do que não existir para os outros. Basta então pular para outro personagem e representação, na espera de impressionar o grupo, fortalecendo o circuito de admiração e valorização. Afinal, o poder, está bem claro para os jovens: influenciar o juízo alheio sobre si mesmo, conseguir se destacar da paisagem pela singularidade ou pelos visíveis sinais de sucesso. No entanto, não há como controlar a constante probabilidade de decair aos olhos dos outros, pois os objetos e marcas associados ao sucesso e ao pertencimento são passageiros, frágeis e volúveis e isso acaba por minar a qualidade dos próprios instantes durante os quais se é vencedor, num constante movimento de garantir que não perca sua posição no grupo.
E se o jovem não for admirado pelos outros? E se ele não alimentar a vaidade dos que estão se mostrando? Ele passa a ser um adversário. Assim como a dificuldade de ver a si próprio como pessoa de valor e de ser visto da mesma forma pelos outros gera frustração (por não conseguir construir imagens de si com valor positivo) surgem as ações agressivas, como as inúmeras ofensas que buscam retirar valor do outro. À vergonha de ser um perdedor, ao orgulho de parecer ser um vencedor, associa-se à necessidade de humilhar o outro, de subjugá-lo para melhor realçar a própria força, sobretudo se esse outro se recusa, ou parece se recusar a entrar no jogo. A negação da subjetividade do outro é colocada ao serviço da afirmação de si.
Surgem os inimigos compartilhados, sobre os quais se pode descarregar as frustrações e sentimento de impotência e desagregação, a raiva, o medo. Há uma demanda constante de inimigos públicos, sobre os quais é permitido depositar esses sentimentos. Sobre os quais, indivíduos fragmentados, zelosos de sua privacidade e mutuamente desconfiados podem unir-se e sentir-se pertencentes, existentes, agregados e importantes aos olhos dos outros. A violência permite inverter o estereotipo que coloca alguns jovens como perdedores, preencher o déficit de futuro e a falta de afirmação de si e romper com o sentimento de vazio. Ser violento é ser alguém. É se tornar visível, fazer a diferença. E assim, a violência vira atributo e produz admiração, uma forma de existir aos olhos dos outros. Sendo, de preferência, melhor fazer publicidade dos atos agressivos de humilhação para garantir a existência.
Não podemos deixar que os jovens percam a habilidade de se engajar em interações espontâneas com pessoas reais, viver algumas dores e surpreender-se com a realidade. Não podemos deixá-los escapar das interações complexas, confusas, imprevisíveis, difíceis de interromper e de abandonar, que só as pessoas reais que estão fisicamente a nossa volta, proporcionam. Amigos e amizades desempenham um papel vital em nossa sociedade profundamente individualizada e solitária. As relações tecidas com a amizade podem se tornar “nossos coletes ou botes salva-vidas”. Como Yves de La Taille nos diz, “quanto mais amplas (ainda que superficiais) forem as comunidades fantasmas, mais atemorizante parece a tarefa de construir e manter as verdadeiras.”.
Estar na escola é ter a oportunidade de observar como os adultos se comportam, como resolvem conflitos, ao ouvir conselhos, elogios e receber limites e também depende que pessoas lhe são mostradas para que ela admire, ou seja, de vivenciar as dimensões morais necessárias para a vida em sociedade. A escola oferece, através de inúmeras oportunidades de convívio, várias perspectivas de olhar, contrapontos e informações que a criança utiliza para definir, aos poucos, como vai viver e conviver. A escola também é essencial para preservar a memória, as reflexões feitas no passado, a admirável riqueza das referências como opções morais, que ajudam a articular o conhecimento e o sentido, que ajudam a pensar o viver em suas variadas dimensões. Ela cuida tanto da dimensão intelectual como da afetiva.
Portanto, no contexto escolar não deveria ser tolerável os comportamentos que ferem princípios morais, deve ser um sistema baseado na justiça, generosidade e dignidade, para inspirar comportamentos.
Deve representar a oportunidade de expressão e reconhecimento de crenças e estereótipos frente o crivo da reflexão, da razão e do afeto, oportunidade de construir a autonomia para tomar decisões. Lá o jovem precisa aprender a fazer boas perguntas que o leve a pensar como utilizar o máximo de seu potencial de aprendizagem e criatividade para viver melhor, conviver bem e evitar a dor, sua e dos outros. A escola deve ser um ambiente democrático, no qual as decisões sejam tomadas levando em conta princípios de igualdade de direitos, liberdade, responsabilidade compartilhada, justiça e cooperação. Onde se pode aprender que ao ser respeitado e prestar respeito ao outro, respeita-se também a si mesmo; desenvolve-se o senso de responsabilidade e de respeito mútuo.
A educação visa proporcionar a construção de representações de si, quem se pensa ser e desejaria ser. Ajudar a construir um conjunto de imagens pelas quais a pessoa se define, percebe e julga a si mesma como tendo valor, que inspira suas ações. Possibilitar que a criança faça investimentos afetivos sobre objetos que tem valor para ela, que a comovem e não a deixa indiferente. Para isso, são necessárias experiências de cooperação que só uma vida coletiva e não individualizada pode oferecer. Compartilhar recursos, ser incentivado a realizar trabalhos em grupo, vivenciar espaços de uso coletivo são oportunidades de construir o respeito de si e ao outro.
A escola deve proporcionar as oportunidades necessárias para a construção dessa identidade, de um ser social, competente, alegre, proativo, interessado no outro, na vida. Valorizar o convívio escolar e as experiências que o conhecimento proporciona. A tarefa da escola, enfim, deve ser a de criar oportunidades para o desenvolvimento do jovem, e particularmente, proporcionar situações em que ele vivencie a expansão de si mesmo, que procure ir além das capacidades que já conhece. Também é tarefa ajudá-lo a lidar com a diversidade e procurar formas afirmativas de lidar com os conflitos, pois conflitos são importantes para o fortalecimento e crescimento. Ao lidar com os conflitos que surgem nas relações interpessoais deve-se valorizar a escuta, o contraponto, o exercício de colocar-se no lugar do outro, a busca pelos princípios que regem as relações, a compreensão e o cumprimento das regras e a busca pelas possibilidades de reparação.
O currículo deve ser constituído na crença da importância das múltiplas formas de aprender, da diversidade das linguagens expressivas, sempre com a intenção de formar pessoas com competência e sensibilidade para compreender e produzir conhecimento em ambientes colaborativos e gerar soluções inovadoras que considerem a imprevisibilidade, a complexidade e a diversidade. São essenciais, os espaços onde o protagonismo possa ser exercitado: na representação de alunos, nas rodas de escuta, assembleias, movimento do voluntariado e nos próprios intervalos e recreios.
E nunca esquecer que não podemos deixar de lado todas as oportunidades que a tecnologia oferece e as orientações que damos aos alunos para vivenciarem os espaços virtuais de maneira positiva: olhando-os como espaços do compartilhar, conhecer, ler, informar-se, enfim como oportunidade de ampliar o repertório, compartilhar descobertas e expandir-se.